Recém-homem único

Ele que achava que não precisava, pois em menos de um dia, uma hora, um segundo, ele viu um dos seus sonhos diante dos olhos, amedrontado e sem saber o que fazer, pois nunca um sonho apareceu diante dos seus olhos em forma de pessoa, o único passo a se fazer foi, não fazer. ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos. Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu. [email protected] São Paulo, segunda-feira, 14 de setembro de 2009 ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos. Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu. [email protected] São Paulo, segunda-feira, 14 de setembro de 2009 Mulher dá à luz em hospital e abandona bebê recém-... Homem é preso suspeito de estuprar criança de 6 an... Lula é o único que pode reunificar o Brasil... vice-prefeito Dui do Bujão critica decisão do Pref... Os presentes do prefeito nos últimos dias a todos ... Prefeito aumenta abusivamente a taxa de Iluminação... Mulher dá à luz em hospital e abandona bebê recém-... Homem é preso suspeito de estuprar criança de 6 an... Lula é o único que pode reunificar o Brasil... vice-prefeito Dui do Bujão critica decisão do Pref... Os presentes do prefeito nos últimos dias a todos ... Prefeito aumenta abusivamente a taxa de Iluminação... 2018 recém-homem de alta qualidade couro patente zapatos de hombre tamanho 38-48 preto couro macio sapatos de vestido masculino ... R$ 84,05 - 102,06 / item R$ 164,80 - 200,09 49% off Há exatos 30 anos, em 13 de dezembro de 1981, o Flamengo ganhava do Liverpool, em Tókio, e se sagrava Campeão Mundial de Futebol. “Ih, futebol de novo”, pensa o leitor que visita este humilde blógui por causa dos geniais pôstis sobre cinema, música, arte enfim. Compre online Sobre Ser Pai, Ou Simplesmente, Ser., de Martinez, Vinicius na Amazon. Frete GRÁTIS em milhares de produtos com o Amazon Prime. Encontre diversos livros escritos por Martinez, Vinicius com ótimos preços. Um fórum para que todos possam opinar sobre os temas que estão por ai, nas redes sociais, na tv, em toda parte, escondidos na mesmice do 'curti' ou ainda nas palavras-frases, que simplificam o pensamento. Tendências de 2020 em man roller skate, rolo mulheres, roller for adult, edea em Esporte e Lazer, Calçados, Mamãe e Bebê, Joias e Acessórios com Leather Skate e man roller skate, rolo mulheres, roller for adult, edea. Descubra mais de 2029 man roller skate, rolo mulheres, roller for adult, edea na nossa seleção no AliExpress.com, incluindo marcas tops man roller skate, rolo mulheres ...

Não aguento mais lidar com merdas de terceiros que refletem até na vida pessoal de quem não tem nada a ver.

2020.08.22 02:27 Luizinguitar3 Não aguento mais lidar com merdas de terceiros que refletem até na vida pessoal de quem não tem nada a ver.

Minha mãe é uma pessoa que sempre estudou muito e fez de tudo para nunca precisar contar, financeiramente e/ou emocionalmente com a família que ela tem, no caso, a mãe, pai e irmã dela. Construiu uma carreira na área de química ligada a radiação, hoje é pesquisadora e, apesar de estarmos falidos por causa de terceiros, ganha bem.
Tudo foi bem na medida do possível, até que, em por volta de 2007, meu avô, pai dela e já idoso, foi preso num esquema criminoso aí que rolou (nada muito sério, tipo matar alguém, mas ainda assim crime) e ela teve que gastar boa parte da grana que ela não tinha com advogado para, além dele, minha avó e minha tia que era cúmplices de tudo.
Alguns anos depois dessa treta, minha avó, que não olhava na nossa cara há pelo menos uns 8 anos, oficialmente perdeu tudo que tinha e veio morar aqui em casa, que não é um lugar grande, e ficou quase 5 anos (de 2015 até o final de 2019) nos enchendo o saco, já que ela é uma pessoa extremamente ingrata e egoísta, fazendo com que pessoas que amávamos e que frequentavam nossa casa nunca mais nos visitassem e, de quebra, como tinha sido recém diagnosticada de um câncer, gastando mais dinheiro da minha mãe, porém não dizia nem um obrigado para nada. Uma vez minha mãe sofreu um acidente de carro, chegou em casa visivelmente machucada e ela só foi reparar 3 dias depois (e eram hematomas gigantes no pescoço e braços, ou seja, dá pra ver fácil). Mesmo não querendo e evitando demonstrar, minha mãe sofria muito com isso.
Nesse meio tempo, meu avô saiu da prisão e aí foi mais grana da minha mãe pra sustentar ele agora, que mora com a irmã dele, tia da minha mãe, e, de quebra, ainda teve que pagar dívidas absurdas da irmã dela, que nunca paga o que deve, não faz absolutamente nada para os pais e ainda é extremamente grossa e agressiva com a minha mãe. Entre 2007 e 2015, minha tia morou com minha avó e sentava a porrada nela (na época minha avó tinha entre 70 e 78 anos, ou seja, idosa), e mesmo assim é a filha favorita de ambos até hoje.
Pra coroar a treta toda, no final de 2016 meu pai, que mora com a gente, começou a demonstrar uns comportamentos estranhos e só esse ano (por volta de março se não me engano) finalmente um médico o diagnosticou com uma doença cujos sintomas casam com o que ele tem. Ela se chama demência fronto temporal e, se pesquisarem sobre casos, vão ver que a rotina da pessoa e das que convivem com ela mudam muito devido a isso. De quebra também, o gasto mensal aumentou muito, além de tudo, devido a necessidade de médicos, já que nosso plano de saúde que é o único que conseguimos pagar não ajuda em praticamente nada, e, pra coroar, o salário dele e da minha mãe caíram em mais de 50%. Se não fosse o auxílio emergencial e um auxílio que tô recebendo pela faculdade nem sei o que faria, já que também não ganho lá muita coisa pelo trabalho e, como sou autônomo, não tem como contar muito ainda mais nesse período.
Apesar de ser uma pessoa doce, inteligentíssima, tratar todo mundo bem, todo mundo gostar muito dela e admira-la bastante, inclusive eu, sei que ela tenta muito ser uma ótima mãe, mas não é a pessoa mais atenciosa do mundo em relação a mim e minha irmã. Os únicos assuntos que ela conversa comigo são faculdade e trabalho (ela é acadêmica e sonha com meu doutorado, sendo que nem no terceiro período da faculdade tô). Normalmente, como ela tem que carregar o mundo nas costas, ela se preocupa mais em resolver o que dá pra ser resolvido e tapar o que está ruim com uma peneira até não dar mais e aí precisar resolver.
Meu pai era um excelente pai e realmente não é exagero, mas na situação atual não é como se ele conseguisse dar conta das coisas, mesmo qu minimamente, então ela se sente frustrada e sozinha por ter pedido o suporte dela. Ambos se davam muito bem e foi (e é) bem foda pra ela.
Apesar de eu já ter o diagnóstico médico de depressão há pelo menos uns 5 anos, esse período de pandemia piorou tudo e, além disso, tenho tido crises bem ferradas de ansiedade. Não só devido a minha família, mas também porque namoro uma pessoa cuja mãe é (diagnosticadamente) narcisista, que faz a vida dela um inferno e, apesar de termos um relacionamento foda entre nós dois, eu estou sempre preocupado com o que essa mulher possa fazer. Além disso, mesmo quando não rola nada, não consigo dormir bem. Até malhando e tomando remédios (prescritos) tá ficando difícil e sinto que estou a beira de ter um colapso nervoso. Muitas noites me vejo tremendo, sem conseguir respirar, com pensamentos suicidas e completamente exausto, mas sem conseguir dormir. A única coisa que tenho feito fora de casa é levar meu pai pro mercado e na padaria, porque ele gosta de, nas palavras dele, "dar voltinha" no quarteirão, e ir no banco quando preciso resolver algo. Ou seja, se eu já não tinha muita "vida", agora tá pior ainda.
A questão é que essa parada de, não só minha mãe, mas principalmente ela (que é meio que meu único apoio familiar e na vida além da pessoa que namoro) fazerem tão pouco de mim e do que sou e sinto fica me matando porque não importa quantas vezes eu peça ajuda, ninguém ouve. Tenho muito medo de acabar tendo um colapso nervoso, como já aconteceu antes.
Faço acompanhamento psicológico há uns anos e recentemente (faz uns 3 meses) mudei o atendimento de 1x para 2x por semana, mas o que são só duas (dependendo da semana menos) sessões de terapia para alguém que passa a semana cagado?
E, assim como a pessoa que namoro passa com a mãe dela, ter que lidar com um monte de consequências ruins na vida por causa de coisas merdas que terceiros que pouco tem a ver com a sua (como meus avós, minha tia e minha sogra, por exemplo) e se ver completamente sem perspectiva por causa dos outros é muito ruim.
Não tenho muitos amigos (não que dê pra pedir algum apoio nem que seja pra ouvir como me sinto) e minha família, que já era distante, depois da doença do meu pai simplesmente sumiu.
As vezes sinto que minha mãe quis ter os filhos, mas nunca pensou de fato em como seria cuidar deles, até porque ela nunca teve quem cuidasse dela, então nem faz ideia de como é isso e, de fato, quem era mais ativo no nosso dia a dia, até porque o horário de trabalho dela era menos flexível, era meu pai, então até essa quarentena ela nunca tinha ficado tanto tempo perto da gente e muito menos em casa.
Tenho uma irmã, que é menor de idade, e minha mãe até dá um certo apoio e presença maior a ela por conta disso, mas, no meu caso, é como se eu fosse só uma pessoa que mora de favor aqui. Entendo que muita gente se sente assim depois que faz 18 anos, mas é foda principalmente quando não se tem ninguém para contar, ou ao menos um amigo pra desabafar.
Tenho muita dificuldade em fazer amizades, o que piora tudo, e acho que isso também vem do fato de que, apesar de eu sempre ter sido uma pessoa introvertida e mesmo assim conseguisse fazer uma ou outra amizade, os últimos tempos pra cá, por estar sempre ansioso, preocupado e correndo pra lidar com a minha família, seja porque meu pai não pode ficar sozinho em casa, ou porque trabalho, ou porque deu uma merda nova na vida da minha mãe e ela tem que resolver em cima da hora ou porque minha irmã tomou remédios demais e foi parar na UTI (sim. Já rolou algumas vezes, já que ela também é depressiva).
Para botar a cerejinha no bolo, sou homem trans e comecei com os hormônios há cerca de um ano, logo minha cara tá bem diferente e minha mãe não lida bem com isso, então, querendo ou não, isso também afastou mais a gente. Nas palavras dela quando contei: "eu já tenho um monte de problema pra resolver e você me aparece com mais isso?"
Penso muito em sair de casa, pouco antes da pandemia tava começando a tirar isso do papel, mas sempre que comentava sobre a ideia, como algo hipotético, todo mundo aqui falava que agora não dava, porque eu tinha que ajudar a cuidar do meu pai, e, com a pandemia, desanimei de vez (e o dinheiro todo acabou, pois era isso ou mais dívidas.)
Percebo sim que minha mãe tem uma preferência pela minha irmã, pois, por ela gostar mais de estudar que eu, principalmente coisas tidas como "normais" (normal eu digo coisas que compreendem as áreas de exatas, humanas, línguas e biológicas. Claro que nada é tão simples assim, mas eu faço faculdade de música então forçando a barra acho que deu pra entender a comparação), se for pra escolher quem vai cuidar da casa e do meu pai e quem vai estudar acho que já temos uma resposta. Além disso, a personalidade de ambas é bem parecida.
Realmente não sei o que fazer. Não sei se alguém vai ler até o fim, digitei tudo de uma vez. Só queria me sentir capaz de ter a minha própria vida, não só financeiramente, mas sem situações que bloqueassem completamente qualquer coisa que eu tentasse e automaticamente fizessem com que eu me sentisse cada vez mais sufocado nessa bola de neve gigante.
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2020.08.12 02:31 GuilhermeSPD Mourão: Entre Churchill e Pétain.

Mourão: Entre Churchill e Pétain.

Da esquerda para direita: Philippe Pétain, Hamilton Mourão e Winston Churchill.
A história militar, não só brasileira mas também mundial está repleta de exemplos de traidores nacionais saídos das fileiras de suas forças armadas. No Brasil, temos os casos de Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca, dois oficiais do Exército Brasileiro que preferiram aderir aos interesses revolucionários de nações comunistas internacionais (sendo a maior expoente, na época, a União Soviética), abandonando as fileiras das forças de defesa dos países que juraram proteger com a própria vida se preciso fosse.
Hoje sabemos que existe no mundo um consórcio maligno formado por forças globalistas e meta-capitalistas, unidas a um partido comunista que domina há 70 anos com mão de ferro e total controle social a maior nação asiática. Está cada vez mais claro que este consórcio tem como um de seus principais objetivos a supressão de todos nossos direitos mais essenciais, especialmente a liberdade de pensamento e expressão, o direito de ir e vir, e os direitos religiosos.
Ao analisar este cenário geopolítico atual é impossível não fazer um paralelo com o mundo do final da década de 30 do século passado, que se encontrava sob uma ameaça tão terrível quanto a que estamos vivendo hoje. Naqueles tempos, o mundo assistia assombrado um partido totalitário de cunho nacional-socialista dominar a nação mais bem-sucedida da Europa e espalhar a opressão e o terror entre a sua própria população, enquanto começava a estender suas garras sobre os países vizinhos.
Após Hitler invadir e anexar aos seus domínios a Áustria e os Sudetos (região da extinta Tchecoeslováquia), os povos dos demais países europeus atingiram um nível de preocupação e tensão elevadíssimo, mas ainda assim, nenhuma nação ousou reagir aos crimes cometidos pelo regime nazista. Este fato nos remete à displicência das nações mundiais diante dos absurdos cometidos pelo regime ditatorial da nação oriental que atualmente avança sobre o mundo. Pois é, qualquer semelhança não é mera coincidência.
Naquele momento, a reação do mundo livre tardou, mas finalmente aconteceu. Após a invasão de mais um país, desta vez a Polônia, o regime nazista recebeu a declaração de guerra por parte do Reino Unido e da França, enquanto os demais países europeus insistiam em uma neutralidade desconfiada. O fato é que a Alemanha nazista havia se transformado em uma gigantesca máquina de guerra, com sua fama alimentada por um bem elaborado plano de propaganda que incluía produções audiovisuais de um certo grau de qualidade, algo até então inédito.
Neste contexto, as demais nações se sentiam acuadas, intimidadas perante a auto aclamada superioridade nazista, e assim sendo, preferiram assumir uma postura de neutralidade acreditando que estariam livres dos tentáculos da máquina de guerra germânica. Um erro crasso. E causa espanto que ainda hoje certas nações ao redor do mundo ainda optem por este tipo de ação perante um regime ditatorial que está de pé e a cada dia que passa dá amostras de não ter limites para seu apetite de dominação.
Voltando à Segunda Guerra Mundial, a essa altura oficialmente declarada, o início dos combates foi extremamente desolador para as nações aliadas. As tropas britânicas sofreram grandes derrotas, e só não foram completamente deflagradas graças ao episódio conhecido como “o milagre de Dunquerque”. Para quem tiver interesse em saber mais sobre este momento crucial da guerra recomendo o excelente filme “Dunquerque” de Christopher Nolan.
A situação da França foi ainda mais desoladora, com os alemães invadindo o território francês e impondo uma derrota avassaladora, além de termos de rendição humilhantes. Neles ficou definido que o país seria repartido e o regime nazista dominaria 2/3 dos territórios franceses enquanto o terço mais ao sul ficaria sob domínio de uma administração fantoche com sede na cidade de Vichy.
Esse arranjo só foi possível graças a complacência de alguns figurões da política francesa, liderados por uma das personagens que fazem parte da trinca de militares que estão sendo analisadas neste artigo, seu nome era Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain, ou somente Marechal Pétain. Pétain foi um herói na Primeira Guerra Mundial, tendo sido decisivo nas batalhas finais ocorridas em solo francês e que fizeram a balança pender a favor da tríplice aliança. Por sua atuação ficou conhecido como o Leão de Verdun.
Hoje seu nome é sinônimo de infâmia, traição e colaboracionismo com o inimigo. O marechal foi designado chefe de estado da França com a missão de obter um acordo de paz com os invasores nazistas, o que fez com muito gosto. Pétain ficou tão satisfeito com o jugo nazista sobre seu povo que impôs ao estado fantoche francês leis antissemitas ainda mais terríveis do que as que a própria Alemanha havia criado.
Até a liberação da França pelas forças aliadas em 1944, estima-se que o regime do traidor Pétain tenha deportado cerca de 75 mil judeus para campos de concentração nazistas, de onde menos de 2 mil conseguiram sair com vida. Ao fim da guerra, o chefe de estado foi julgado e condenado à pena de morte por seus crimes, tendo sua pena substituída por prisão perpétua devido a sua idade avançada e sua condição de herói da primeira guerra. Entretanto, os demais condenados por colaborar com o inimigo não tiveram a mesma sorte que o marechal e pagaram com a vida pelos crimes cometidos.
Enquanto a França lidou a maior parte da guerra com a desonra e humilhação de ter os alemães dominando seu país por meio de suas tropas ou de seus fantoches, o Reino Unido adotou uma postura completamente oposta. Após o episódio de Dunquerque, o Reino Unido se viu na obrigação de reestruturar suas defesas contra os nazistas, que por sua vez pretendiam usar o território do norte francês, que devido à sua proximidade ao território britânico, seria a base avançada no objetivo de invadir a ilha.
Recém-nomeado primeiro-ministro britânico, um pouco antes da batalha de Dunquerque, Sir Winston Leonard Spencer-Churchill, outro de nossas três personagens, decidiu então direcionar todos os esforços nacionais para organizar as forças armadas e a população do Reino Unido a resistir aos ataques nazistas e em seguida conseguir derrotar o poderoso inimigo.
É curioso que Churchill tenha sido alçado ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, uma vez que, poucos meses antes do início oficial da guerra, o ex-tenente coronel fora chamado de belicista, radical e extremista por políticos e a parte liberal (leia-se esquerdista) da imprensa britânica. Na verdade, hoje sabemos que Churchill foi um dos únicos a perceber e denunciar a ameaça que representava os projetos de domínio global da Alemanha Nazista na época. Mais uma vez, podemos fazer um paralelo com o momento que vivemos atualmente.
Hoje, toda voz que se levanta para denunciar os planos de dominação mundial do regime ditatorial comunista que vem da Ásia, é acusado de extremista, racista, fascista e todo tipo de “ista” possível. Quando não, é um paranóico, adepto de teorias da conspiração. Churchill hoje seria considerado um louco, belicista e paranóico? Certamente que sim. Como diz o guru dos comunistas, Marx: A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa.
Mas como diz a sabedoria popular, Deus escreve certo por linhas tortas. O homem que fora tão insultado dentro do seu próprio país foi o responsável por tirá-lo da beira da dominação nazista. A custa de muito “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, liderou a reviravolta nos campos de batalhas que levariam as nações aliadas a destruir o III Reich e restaurar a liberdade na maior parte dos países europeus, salvo aqueles que a partir de então passariam a ser assediados pelo leviatã soviético. Mas isso é assunto para outro texto.
Churchill já era um homem aclamado em seu país, também era um herói de guerra e possuía uma ficha de brilhantes serviços prestados a sua nação. Com seus feitos históricos liderando os países livres na Segunda Guerra Mundial alcançou um status de herói nacional. Uma verdadeira lenda em todo o mundo. Em 2002, em votação promovida pela BBC, foi eleito o maior britânico de todos os tempos.
Diferente de seu colega Pétain, que foi da glória a infâmia, Churchill foi um homem que soube entender o zeitgeist da primeira metade do século XX e ainda hoje é uma referência para os amantes da liberdade e patriotas em todas as partes do mundo.
Por isso, para surpresa de zero pessoas, começamos a ver movimentos como o realizado pelo presidente globalista francês Emmanuel Macron, que fez um esforço para reabilitar o nome de Pétain em 2018, ano em que se comemorou os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Por este fato, o atual presidente francês sofreu duras críticas dentro do próprio país.
E mais recentemente, vimos neste ano de 2020, grupos antifas querendo derrubar uma estátua de Churchill em Londres. Sim, ele mesmo. O homem que livrou a Europa do nazismo e do fascimo se tornou alvo dos terroristas que vestem camisas pretas e levantam os punhos.
Então, com toda esta história recente, recheada de exemplos de figuras militares e estadistas que optaram por caminhos diametralmente opostos nos momentos em que suas pátrias mais necessitaram, nos causa estranheza ao ver um general do Exército Brasileiro e atual vice-presidente da república como o senhor Antônio Hamilton Martins Mourão, vir a público por diversas vezes defender interesses de empresas de telecomunicações que, além de estrangeiras, também se encontram em posição de subordinação ao partido que comanda o seu país de origem.
Mourão também é possuidor de uma extensa ficha de serviços prestados a pátria e detentor de grande prestígio junto a população desde que passou a ter uma voz alinhada aos anseios da população em oposição aos governos petistas que assolaram o Brasil de 2002 até 2016. Com suas falas críticas em relação as sandices petistas, o nome do general ganhou apelo político a ponto de ter se tornado o vice-presidente na chapa patriota comandada por Bolsonaro.
Não restam dúvidas que Mourão teve um passado glorioso como militar, assim como os mencionados Pétain e Churchill. A grande questão é: Mourão, como liderança política, vai optar por ser um traidor ou herói? Como general de 4 estrelas das forças terrestres, podemos cogitar que o vice-presidente tenha estudado a biografia dos grandes líderes militares das maiores potências mundiais.
E se Mourão conhece a história dos mandatários francês e britânico devemos nos preocupar quando o próprio exalta a gigante da tecnologia oriental? Ainda mais quando esta mesma empresa é acusada de roubo de informações e espionagem pelas principais agências de inteligência do mundo? E por qual motivo Mourão está tão envolvido neste assunto sendo que não é a ele que cabe as decisões nesta área de telecomunicações?
O fato é que, aos brasileiros comuns sem altos cargos públicos e acesso a informações sensíveis à nação, nos causa muito espanto ver um Mourão completamente a vontade em defender as vantagens da empresa do país do dragão e considerar a participação desta fundamental nos leilões da quinta geração de comunicações, em detrimento das outras concorrentes, sobre as quais o vice-presidente não dá sequer uma palavra de incentivo.
Estaria o general da reserva atuando como lobista desta empresa? Ou seria ele um profundo conhecedor das estratégias de contrainformação contidas na obra “A Arte da Guerra”, do chinês Sun Tzu, e estaria então fazendo o famoso jogo de cena? Por via das dúvidas deixaria aqui uma sugestão ao Sr. Hamilton Mourão: Releia as biografias de Pétain e Churchill, e não escolha o exemplo errado a seguir.
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2020.08.12 02:03 GuilhermeSPD Mourão: Entre Churchill e Pétain.

Mourão: Entre Churchill e Pétain.

Da esquerda para direita: Philippe Pétain, Hamilton Mourão e Winston Churchill.
A história militar, não só brasileira mas também mundial está repleta de exemplos de traidores nacionais saídos das fileiras de suas forças armadas. No Brasil, temos os casos de Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca, dois oficiais do Exército Brasileiro que preferiram aderir aos interesses revolucionários de nações comunistas internacionais (sendo a maior expoente, na época, a União Soviética), abandonando as fileiras das forças de defesa dos países que juraram proteger com a própria vida se preciso fosse.
Hoje sabemos que existe no mundo um consórcio maligno formado por forças globalistas e meta-capitalistas, unidas a um partido comunista que domina há 70 anos com mão de ferro e total controle social a maior nação asiática. Está cada vez mais claro que este consórcio tem como um de seus principais objetivos a supressão de todos nossos direitos mais essenciais, especialmente a liberdade de pensamento e expressão, o direito de ir e vir, e os direitos religiosos.
Ao analisar este cenário geopolítico atual é impossível não fazer um paralelo com o mundo do final da década de 30 do século passado, que se encontrava sob uma ameaça tão terrível quanto a que estamos vivendo hoje. Naqueles tempos, o mundo assistia assombrado um partido totalitário de cunho nacional-socialista dominar a nação mais bem-sucedida da Europa e espalhar a opressão e o terror entre a sua própria população, enquanto começava a estender suas garras sobre os países vizinhos.
Após Hitler invadir e anexar aos seus domínios a Áustria e os Sudetos (região da extinta Tchecoeslováquia), os povos dos demais países europeus atingiram um nível de preocupação e tensão elevadíssimo, mas ainda assim, nenhuma nação ousou reagir aos crimes cometidos pelo regime nazista. Este fato nos remete à displicência das nações mundiais diante dos absurdos cometidos pelo regime ditatorial da nação oriental que atualmente avança sobre o mundo. Pois é, qualquer semelhança não é mera coincidência.
Naquele momento, a reação do mundo livre tardou, mas finalmente aconteceu. Após a invasão de mais um país, desta vez a Polônia, o regime nazista recebeu a declaração de guerra por parte do Reino Unido e da França, enquanto os demais países europeus insistiam em uma neutralidade desconfiada. O fato é que a Alemanha nazista havia se transformado em uma gigantesca máquina de guerra, com sua fama alimentada por um bem elaborado plano de propaganda que incluía produções audiovisuais de um certo grau de qualidade, algo até então inédito.
Neste contexto, as demais nações se sentiam acuadas, intimidadas perante a auto aclamada superioridade nazista, e assim sendo, preferiram assumir uma postura de neutralidade acreditando que estariam livres dos tentáculos da máquina de guerra germânica. Um erro crasso. E causa espanto que ainda hoje certas nações ao redor do mundo ainda optem por este tipo de ação perante um regime ditatorial que está de pé e a cada dia que passa dá amostras de não ter limites para seu apetite de dominação.
Voltando à Segunda Guerra Mundial, a essa altura oficialmente declarada, o início dos combates foi extremamente desolador para as nações aliadas. As tropas britânicas sofreram grandes derrotas, e só não foram completamente deflagradas graças ao episódio conhecido como “o milagre de Dunquerque”. Para quem tiver interesse em saber mais sobre este momento crucial da guerra recomendo o excelente filme “Dunquerque” de Christopher Nolan.
A situação da França foi ainda mais desoladora, com os alemães invadindo o território francês e impondo uma derrota avassaladora, além de termos de rendição humilhantes. Neles ficou definido que o país seria repartido e o regime nazista dominaria 2/3 dos territórios franceses enquanto o terço mais ao sul ficaria sob domínio de uma administração fantoche com sede na cidade de Vichy.
Esse arranjo só foi possível graças a complacência de alguns figurões da política francesa, liderados por uma das personagens que fazem parte da trinca de militares que estão sendo analisadas neste artigo, seu nome era Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain, ou somente Marechal Pétain. Pétain foi um herói na Primeira Guerra Mundial, tendo sido decisivo nas batalhas finais ocorridas em solo francês e que fizeram a balança pender a favor da tríplice aliança. Por sua atuação ficou conhecido como o Leão de Verdun.
Hoje seu nome é sinônimo de infâmia, traição e colaboracionismo com o inimigo. O marechal foi designado chefe de estado da França com a missão de obter um acordo de paz com os invasores nazistas, o que fez com muito gosto. Pétain ficou tão satisfeito com o jugo nazista sobre seu povo que impôs ao estado fantoche francês leis antissemitas ainda mais terríveis do que as que a própria Alemanha havia criado.
Até a liberação da França pelas forças aliadas em 1944, estima-se que o regime do traidor Pétain tenha deportado cerca de 75 mil judeus para campos de concentração nazistas, de onde menos de 2 mil conseguiram sair com vida. Ao fim da guerra, o chefe de estado foi julgado e condenado à pena de morte por seus crimes, tendo sua pena substituída por prisão perpétua devido a sua idade avançada e sua condição de herói da primeira guerra. Entretanto, os demais condenados por colaborar com o inimigo não tiveram a mesma sorte que o marechal e pagaram com a vida pelos crimes cometidos.
Enquanto a França lidou a maior parte da guerra com a desonra e humilhação de ter os alemães dominando seu país por meio de suas tropas ou de seus fantoches, o Reino Unido adotou uma postura completamente oposta. Após o episódio de Dunquerque, o Reino Unido se viu na obrigação de reestruturar suas defesas contra os nazistas, que por sua vez pretendiam usar o território do norte francês, que devido à sua proximidade ao território britânico, seria a base avançada no objetivo de invadir a ilha.
Recém-nomeado primeiro-ministro britânico, um pouco antes da batalha de Dunquerque, Sir Winston Leonard Spencer-Churchill, outro de nossas três personagens, decidiu então direcionar todos os esforços nacionais para organizar as forças armadas e a população do Reino Unido a resistir aos ataques nazistas e em seguida conseguir derrotar o poderoso inimigo.
É curioso que Churchill tenha sido alçado ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, uma vez que, poucos meses antes do início oficial da guerra, o ex-tenente coronel fora chamado de belicista, radical e extremista por políticos e a parte liberal (leia-se esquerdista) da imprensa britânica. Na verdade, hoje sabemos que Churchill foi um dos únicos a perceber e denunciar a ameaça que representava os projetos de domínio global da Alemanha Nazista na época. Mais uma vez, podemos fazer um paralelo com o momento que vivemos atualmente.
Hoje, toda voz que se levanta para denunciar os planos de dominação mundial do regime ditatorial comunista que vem da Ásia, é acusado de extremista, racista, fascista e todo tipo de “ista” possível. Quando não, é um paranóico, adepto de teorias da conspiração. Churchill hoje seria considerado um louco, belicista e paranóico? Certamente que sim. Como diz o guru dos comunistas, Marx: A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa.
Mas como diz a sabedoria popular, Deus escreve certo por linhas tortas. O homem que fora tão insultado dentro do seu próprio país foi o responsável por tirá-lo da beira da dominação nazista. A custa de muito “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, liderou a reviravolta nos campos de batalhas que levariam as nações aliadas a destruir o III Reich e restaurar a liberdade na maior parte dos países europeus, salvo aqueles que a partir de então passariam a ser assediados pelo leviatã soviético. Mas isso é assunto para outro texto.
Churchill já era um homem aclamado em seu país, também era um herói de guerra e possuía uma ficha de brilhantes serviços prestados a sua nação. Com seus feitos históricos liderando os países livres na Segunda Guerra Mundial alcançou um status de herói nacional. Uma verdadeira lenda em todo o mundo. Em 2002, em votação promovida pela BBC, foi eleito o maior britânico de todos os tempos.
Diferente de seu colega Pétain, que foi da glória a infâmia, Churchill foi um homem que soube entender o zeitgeist da primeira metade do século XX e ainda hoje é uma referência para os amantes da liberdade e patriotas em todas as partes do mundo.
Por isso, para surpresa de zero pessoas, começamos a ver movimentos como o realizado pelo presidente globalista francês Emmanuel Macron, que fez um esforço para reabilitar o nome de Pétain em 2018, ano em que se comemorou os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Por este fato, o atual presidente francês sofreu duras críticas dentro do próprio país.
E mais recentemente, vimos neste ano de 2020, grupos antifas querendo derrubar uma estátua de Churchill em Londres. Sim, ele mesmo. O homem que livrou a Europa do nazismo e do fascimo se tornou alvo dos terroristas que vestem camisas pretas e levantam os punhos.
Então, com toda esta história recente, recheada de exemplos de figuras militares e estadistas que optaram por caminhos diametralmente opostos nos momentos em que suas pátrias mais necessitaram, nos causa estranheza ao ver um general do Exército Brasileiro e atual vice-presidente da república como o senhor Antônio Hamilton Martins Mourão, vir a público por diversas vezes defender interesses de empresas de telecomunicações que, além de estrangeiras, também se encontram em posição de subordinação ao partido que comanda o seu país de origem.
Mourão também é possuidor de uma extensa ficha de serviços prestados a pátria e detentor de grande prestígio junto a população desde que passou a ter uma voz alinhada aos anseios da população em oposição aos governos petistas que assolaram o Brasil de 2002 até 2016. Com suas falas críticas em relação as sandices petistas, o nome do general ganhou apelo político a ponto de ter se tornado o vice-presidente na chapa patriota comandada por Bolsonaro.
Não restam dúvidas que Mourão teve um passado glorioso como militar, assim como os mencionados Pétain e Churchill. A grande questão é: Mourão, como liderança política, vai optar por ser um traidor ou herói? Como general de 4 estrelas das forças terrestres, podemos cogitar que o vice-presidente tenha estudado a biografia dos grandes líderes militares das maiores potências mundiais.
E se Mourão conhece a história dos mandatários francês e britânico devemos nos preocupar quando o próprio exalta a gigante da tecnologia oriental? Ainda mais quando esta mesma empresa é acusada de roubo de informações e espionagem pelas principais agências de inteligência do mundo? E por qual motivo Mourão está tão envolvido neste assunto sendo que não é a ele que cabe as decisões nesta área de telecomunicações?
O fato é que, aos brasileiros comuns sem altos cargos públicos e acesso a informações sensíveis à nação, nos causa muito espanto ver um Mourão completamente a vontade em defender as vantagens da empresa do país do dragão e considerar a participação desta fundamental nos leilões da quinta geração de comunicações, em detrimento das outras concorrentes, sobre as quais o vice-presidente não dá sequer uma palavra de incentivo.
Estaria o general da reserva atuando como lobista desta empresa? Ou seria ele um profundo conhecedor das estratégias de contrainformação contidas na obra “A Arte da Guerra”, do chinês Sun Tzu, e estaria então fazendo o famoso jogo de cena? Por via das dúvidas deixaria aqui uma sugestão ao Sr. Hamilton Mourão: Releia as biografias de Pétain e Churchill, e não escolha o exemplo errado a seguir.
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2020.08.12 01:56 GuilhermeSPD Mourão: Entre Churchill e Pétain.


Da esquerda para direita: Philippe Pétain, Hamilton Mourão e Winston Churchill.
A história militar, não só brasileira mas também mundial está repleta de exemplos de traidores nacionais saídos das fileiras de suas forças armadas. No Brasil, temos os casos de Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca, dois oficiais do Exército Brasileiro que preferiram aderir aos interesses revolucionários de nações comunistas internacionais (sendo a maior expoente, na época, a União Soviética), abandonando as fileiras das forças de defesa dos países que juraram proteger com a própria vida se preciso fosse.
Hoje sabemos que existe no mundo um consórcio maligno formado por forças globalistas e meta-capitalistas, unidas a um partido comunista que domina há 70 anos com mão de ferro e total controle social a maior nação asiática. Está cada vez mais claro que este consórcio tem como um de seus principais objetivos a supressão de todos nossos direitos mais essenciais, especialmente a liberdade de pensamento e expressão, o direito de ir e vir, e os direitos religiosos.
Ao analisar este cenário geopolítico atual é impossível não fazer um paralelo com o mundo do final da década de 30 do século passado, que se encontrava sob uma ameaça tão terrível quanto a que estamos vivendo hoje. Naqueles tempos, o mundo assistia assombrado um partido totalitário de cunho nacional-socialista dominar a nação mais bem-sucedida da Europa e espalhar a opressão e o terror entre a sua própria população, enquanto começava a estender suas garras sobre os países vizinhos.
Após Hitler invadir e anexar aos seus domínios a Áustria e os Sudetos (região da extinta Tchecoeslováquia), os povos dos demais países europeus atingiram um nível de preocupação e tensão elevadíssimo, mas ainda assim, nenhuma nação ousou reagir aos crimes cometidos pelo regime nazista. Este fato nos remete à displicência das nações mundiais diante dos absurdos cometidos pelo regime ditatorial da nação oriental que atualmente avança sobre o mundo. Pois é, qualquer semelhança não é mera coincidência.
Naquele momento, a reação do mundo livre tardou, mas finalmente aconteceu. Após a invasão de mais um país, desta vez a Polônia, o regime nazista recebeu a declaração de guerra por parte do Reino Unido e da França, enquanto os demais países europeus insistiam em uma neutralidade desconfiada. O fato é que a Alemanha nazista havia se transformado em uma gigantesca máquina de guerra, com sua fama alimentada por um bem elaborado plano de propaganda que incluía produções audiovisuais de um certo grau de qualidade, algo até então inédito.
Neste contexto, as demais nações se sentiam acuadas, intimidadas perante a auto aclamada superioridade nazista, e assim sendo, preferiram assumir uma postura de neutralidade acreditando que estariam livres dos tentáculos da máquina de guerra germânica. Um erro crasso. E causa espanto que ainda hoje certas nações ao redor do mundo ainda optem por este tipo de ação perante um regime ditatorial que está de pé e a cada dia que passa dá amostras de não ter limites para seu apetite de dominação.
Voltando à Segunda Guerra Mundial, a essa altura oficialmente declarada, o início dos combates foi extremamente desolador para as nações aliadas. As tropas britânicas sofreram grandes derrotas, e só não foram completamente deflagradas graças ao episódio conhecido como “o milagre de Dunquerque”. Para quem tiver interesse em saber mais sobre este momento crucial da guerra recomendo o excelente filme “Dunquerque” de Christopher Nolan.
A situação da França foi ainda mais desoladora, com os alemães invadindo o território francês e impondo uma derrota avassaladora, além de termos de rendição humilhantes. Neles ficou definido que o país seria repartido e o regime nazista dominaria 2/3 dos territórios franceses enquanto o terço mais ao sul ficaria sob domínio de uma administração fantoche com sede na cidade de Vichy.
Esse arranjo só foi possível graças a complacência de alguns figurões da política francesa, liderados por uma das personagens que fazem parte da trinca de militares que estão sendo analisadas neste artigo, seu nome era Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain, ou somente Marechal Pétain. Pétain foi um herói na Primeira Guerra Mundial, tendo sido decisivo nas batalhas finais ocorridas em solo francês e que fizeram a balança pender a favor da tríplice aliança. Por sua atuação ficou conhecido como o Leão de Verdun.
Hoje seu nome é sinônimo de infâmia, traição e colaboracionismo com o inimigo. O marechal foi designado chefe de estado da França com a missão de obter um acordo de paz com os invasores nazistas, o que fez com muito gosto. Pétain ficou tão satisfeito com o jugo nazista sobre seu povo que impôs ao estado fantoche francês leis antissemitas ainda mais terríveis do que as que a própria Alemanha havia criado.
Até a liberação da França pelas forças aliadas em 1944, estima-se que o regime do traidor Pétain tenha deportado cerca de 75 mil judeus para campos de concentração nazistas, de onde menos de 2 mil conseguiram sair com vida. Ao fim da guerra, o chefe de estado foi julgado e condenado à pena de morte por seus crimes, tendo sua pena substituída por prisão perpétua devido a sua idade avançada e sua condição de herói da primeira guerra. Entretanto, os demais condenados por colaborar com o inimigo não tiveram a mesma sorte que o marechal e pagaram com a vida pelos crimes cometidos.
Enquanto a França lidou a maior parte da guerra com a desonra e humilhação de ter os alemães dominando seu país por meio de suas tropas ou de seus fantoches, o Reino Unido adotou uma postura completamente oposta. Após o episódio de Dunquerque, o Reino Unido se viu na obrigação de reestruturar suas defesas contra os nazistas, que por sua vez pretendiam usar o território do norte francês, que devido à sua proximidade ao território britânico, seria a base avançada no objetivo de invadir a ilha.
Recém-nomeado primeiro-ministro britânico, um pouco antes da batalha de Dunquerque, Sir Winston Leonard Spencer-Churchill, outro de nossas três personagens, decidiu então direcionar todos os esforços nacionais para organizar as forças armadas e a população do Reino Unido a resistir aos ataques nazistas e em seguida conseguir derrotar o poderoso inimigo.
É curioso que Churchill tenha sido alçado ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, uma vez que, poucos meses antes do início oficial da guerra, o ex-tenente coronel fora chamado de belicista, radical e extremista por políticos e a parte liberal (leia-se esquerdista) da imprensa britânica. Na verdade, hoje sabemos que Churchill foi um dos únicos a perceber e denunciar a ameaça que representava os projetos de domínio global da Alemanha Nazista na época. Mais uma vez, podemos fazer um paralelo com o momento que vivemos atualmente.
Hoje, toda voz que se levanta para denunciar os planos de dominação mundial do regime ditatorial comunista que vem da Ásia, é acusado de extremista, racista, fascista e todo tipo de “ista” possível. Quando não, é um paranóico, adepto de teorias da conspiração. Churchill hoje seria considerado um louco, belicista e paranóico? Certamente que sim. Como diz o guru dos comunistas, Marx: A história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa.
Mas como diz a sabedoria popular, Deus escreve certo por linhas tortas. O homem que fora tão insultado dentro do seu próprio país foi o responsável por tirá-lo da beira da dominação nazista. A custa de muito “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, liderou a reviravolta nos campos de batalhas que levariam as nações aliadas a destruir o III Reich e restaurar a liberdade na maior parte dos países europeus, salvo aqueles que a partir de então passariam a ser assediados pelo leviatã soviético. Mas isso é assunto para outro texto.
Churchill já era um homem aclamado em seu país, também era um herói de guerra e possuía uma ficha de brilhantes serviços prestados a sua nação. Com seus feitos históricos liderando os países livres na Segunda Guerra Mundial alcançou um status de herói nacional. Uma verdadeira lenda em todo o mundo. Em 2002, em votação promovida pela BBC, foi eleito o maior britânico de todos os tempos.
Diferente de seu colega Pétain, que foi da glória a infâmia, Churchill foi um homem que soube entender o zeitgeist da primeira metade do século XX e ainda hoje é uma referência para os amantes da liberdade e patriotas em todas as partes do mundo.
Por isso, para surpresa de zero pessoas, começamos a ver movimentos como o realizado pelo presidente globalista francês Emmanuel Macron, que fez um esforço para reabilitar o nome de Pétain em 2018, ano em que se comemorou os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Por este fato, o atual presidente francês sofreu duras críticas dentro do próprio país.
E mais recentemente, vimos neste ano de 2020, grupos antifas querendo derrubar uma estátua de Churchill em Londres. Sim, ele mesmo. O homem que livrou a Europa do nazismo e do fascimo se tornou alvo dos terroristas que vestem camisas pretas e levantam os punhos.
Então, com toda esta história recente, recheada de exemplos de figuras militares e estadistas que optaram por caminhos diametralmente opostos nos momentos em que suas pátrias mais necessitaram, nos causa estranheza ao ver um general do Exército Brasileiro e atual vice-presidente da república como o senhor Antônio Hamilton Martins Mourão, vir a público por diversas vezes defender interesses de empresas de telecomunicações que, além de estrangeiras, também se encontram em posição de subordinação ao partido que comanda o seu país de origem.
Mourão também é possuidor de uma extensa ficha de serviços prestados a pátria e detentor de grande prestígio junto a população desde que passou a ter uma voz alinhada aos anseios da população em oposição aos governos petistas que assolaram o Brasil de 2002 até 2016. Com suas falas críticas em relação as sandices petistas, o nome do general ganhou apelo político a ponto de ter se tornado o vice-presidente na chapa patriota comandada por Bolsonaro.
Não restam dúvidas que Mourão teve um passado glorioso como militar, assim como os mencionados Pétain e Churchill. A grande questão é: Mourão, como liderança política, vai optar por ser um traidor ou herói? Como general de 4 estrelas das forças terrestres, podemos cogitar que o vice-presidente tenha estudado a biografia dos grandes líderes militares das maiores potências mundiais.
E se Mourão conhece a história dos mandatários francês e britânico devemos nos preocupar quando o próprio exalta a gigante da tecnologia oriental? Ainda mais quando esta mesma empresa é acusada de roubo de informações e espionagem pelas principais agências de inteligência do mundo? E por qual motivo Mourão está tão envolvido neste assunto sendo que não é a ele que cabe as decisões nesta área de telecomunicações?
O fato é que, aos brasileiros comuns sem altos cargos públicos e acesso a informações sensíveis à nação, nos causa muito espanto ver um Mourão completamente a vontade em defender as vantagens da empresa do país do dragão e considerar a participação desta fundamental nos leilões da quinta geração de comunicações, em detrimento das outras concorrentes, sobre as quais o vice-presidente não dá sequer uma palavra de incentivo.
Estaria o general da reserva atuando como lobista desta empresa? Ou seria ele um profundo conhecedor das estratégias de contrainformação contidas na obra “A Arte da Guerra”, do chinês Sun Tzu, e estaria então fazendo o famoso jogo de cena? Por via das dúvidas deixaria aqui uma sugestão ao Sr. Hamilton Mourão: Releia as biografias de Pétain e Churchill, e não escolha o exemplo errado a seguir.
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2020.07.28 05:48 leepz2019 Um "amor" que eu não entendi

Olá me chamo L. (H.28) e venho buscar opiniões pra poder entender oque está acontecendo. Há 4 anos atrás conheci uma moça denominada D. Moça bonita e jovem 15 anos, só queria curtir e zoar a vida, quando eu a conheci foi em casa, naquela época consumimos maconha e vivíamos chapados, ninguém queria nada com nada, eu recém terminado e ela também. Nos envolvemos e aconteceu, a gente ficou e deixamos claro que não queríamos nós apegar tanto, porém não foi isso que aconteceu. Porém eu vinha passando por problemas devido ao meu término recente e vi que estava ali só por estar mesmo. Comecei a pensar e fui me afundando numa depressão profunda e amarga, porém não quis demonstrar isso, eu gostava muito dela e sabia que na idade dela não tinha porque envolver-la em algo desse tipo, afinal queríamos curtir. Passando um tempo minha mãe sabendo da minha situação me chamou pra ir morar com ela no nordeste, sem chão e sem nada resolvi ir sem hesitar. Expliquei para a D. que teria que ir embora pois não tinha mesmo condições de me manter nas condições emocionais que eu estava. Ela entendeu e compreendeu, sempre fomos muito sinceros um com o outro. Fui embora de coração partido por deixar a cidade e pessoas muito importantes pra mim pra trás. Chegando lá não consegui me adaptar e cai em depressão profunda, o único motivo pra eu sair da cama era comer e fumar cannabis. Passado um tempo comecei a me sentir mais disposto, saia pra passear beira mar, dar uns pegas bem assim dizer, uma euforia total. Cheguei a mandar mensagem pra D. Já que tinha me afastado por conta da depressão, porém ela tinha voltado com o ex, segui em frente afinal oque mais me importava era se ela estava feliz ou não. Passado uns 2 meses entrei em uma crise psicótica devido ao uso de cannabis. Passei por avaliação psicológica e fui encaminhado pra uma clínica. Foram os piores dias da minha vida, porém aprendi muita coisa ali. Eu já não queria mais morar lá no nordeste então saindo da internação resolvi fazer uso de drogas denovo sabendo que assim minha mãe me mandaria de volta pra minha cidade aqui no sudeste. Voltei e continuei a usar contrariando todo o tratamento da doença (esquizofrenia) uma simples tendência nada que me tornasse incapacitado de lidar com a sociedade. Certas vezes cheguei a sair e esbarrar com ela pelas ruas, cruzamos olhares mais ela ainda estava com ele e eu pensava que ela estava feliz e não queria estragar isso. Passado um tempo me atacou outra crise e resumindo segui pra uma internação mais severa agora aqui no sudeste e parei com o uso de drogas pra não atacar crise de novo. Fiquei um ano focado em trabalhar e cuidar de mim se manter relação amorosa com ninguém, isso foi ano passado. Um amigo em comum que namora uma amiga dela me disse que esses dias elas estavam conversando sobre mim, que ela aparentemente estava tendo um mal relacionamento com o namorado dela e disse que ela nunca me esqueceu e que gostava de mim depois de todo aquele tempo. O amigo me disse pra mandar mensagem pra ela, passado alguns dias eu criei coragem e mandei um oi pra ela no wpp. Sem resposta eu pensei, ela deve estar se acertando com ele, melhor eu deixar quieto. Passado mais alguns dias respondi um storie do instagram, não passou muito ela me respondeu com um emoji, logo voltamos a nos falar cada vez mais e mais. Perguntei se ela tinha terminado e ela disse que sim, antes de agente voltar a se falar ainda. Numa sexta feira tomando uma cerveja ela me disse que ia dar com o irmão, eu sem muito o que fazer chamei ela pra tomar uma em casa onde nos conhecemos, e ela aceitou e veio pra minha casa, já com a intenção de ficarmos, pois havíamos conversado por mensagem. O reencontro foi algo muito especial pra mim, algo que eu não consigo explicar. Ela passava quase a semana em casa, e quando ia pra casa dela trocava-mos mensagem do amanhecer ao anoitecer, eu achava me sentia muito pressionado mas sentia que ela precisava disso pois ela havia mencionado que também tinha parado de usar drogas que ocasionaram em crises de Pânico ou ansiedade não sabemos ao certo pois ela não quis ir ao médico saber sobre. Ela vinha tendo crises com certa frequência e eu sempre ajudei como pude, quando estava longe eu tentava distrair-la, quando perto abraçava, conversava, contava algo engraçado até passar tudo. Com um mês pedi ela em namoro durante uma festa que fazíamos em casa, ela aceitou, ficou emocionada ao meu ver, pois havia relatado que ninguém nunca tinha feito aquilo com ela, pusemos as alianças e comemoramos aquele dia. Ela passava muito tempo em casa e eu e meu irmão estávamos desempregados no momento, logo conversamos que ela vinha um dia da semana pra casa e nos fins de semana pra não pesar pra ninguém como havia combinado com meu irmão, conversei com ela e foi sem problema mas sempre ela inventava algo como está tarde ou vai chover ou que se sentia bem em casa comigo, pois o pessoal de casa sempre gostou dela e tratou ela super bem, entao eu ficava sem jeito de pedir pra ela ir pra casa dela. Mas sempre expliquei pra ela que quando eu pudesse eu traria ela pra morar comigo aqui, ela sempre ajudou como podia, não tinha dinheiro pois não trabalhava e eu ainda estava sem serviço pois nosso negócio estava parado por conta da troca de estação. Passando algum tempo realizamos a venda de um imóvel rural, recebi um bom valor da minha parte e sempre combinamos que quando o negócio voltasse a rodar iríamos trabalhar pra fazer esse dinheiro render então decidi pegar o resto das coisas dela , até isso acontecer aproveitamos muito, bebemos muito e curtimos muito, sempre comprei coisas pra comer sem necessidade, porém comprei muita coisa necessária também como roupas pra nós dois, comprei maquiagem pra ela, escova progressiva pro cabelo, trocamos de celular, comemoramos aniversário fomos em festas antes dessa pandemia é claro, aos pouco vi ela ficar cada vez mais linda de que quando a conheci. No caminho dessa curtição sempre reparei nas atitudes dela comigo, principalmente quando bebia ela me desagradava com certas atitudes, eu ficava extremamente magoado com aquilo e sempre me abri com ela e expliquei que aquilo me magoava muito. Coisas como, você tá parecendo meu ex, amigos que dava em cima dela eram melhores que eu, ou em certa conversa expliquei pra ela que ela me devia respeito, pois sempre respeitei ela e fiz o que ela queria, ela nunca teve quem fizesse essas coisas por ela, então eu fiz tudo na melhor intenção e felicidade por fazer ela feliz, ela me disse que não tinha por que me respeitar. Nós não éramos mais namorado, ela já estava morando comigo há mais de 4 meses, éramos praticamente marido e mulher, claro que tinha que ter respeito um pelo outro poxa. Sempre tivemos biometria do celular um do outro como sinal de confiança mas nunca olhei seu celular, uma vez ou outra só quando queria saber oque tanto fazia ali, e ela fazia também quando eu dormia eu acho, pois não via ela mexendo, até aí normal, apesar dos apesares sempre nos demos muito bem e eu achava que éramos felizes. Mas de nesses últimos 2 meses, reparei que ela já não se divertia muito diretamente comigo, só quando não tinha mais ninguém mesmo, se tivesse algum parente dela ou meu bebendo com a gente ela era totalmente radiante e feliz. Se eu for parar pra contar tudo que eu reparei com certeza vai ficar muito maior esse texto.. Continuando, mais precisamente a umas 3 semanas fomos a um aniversário do cunhado dela que eu sempre vou considerar como se fosse da minha família, inclusive sou muito grato a ela por ter conhecido ele e também a minha cunhada que é namorada dele e irmã da D. Enfim fomos a festa e chegando lá estava a família do aniversariante a mãe e os irmãos que eu conhecia aliás, tem um deles especificamente denominado J. Que ela sempre me falou mal, dizia que quando ele estava com a namorada ele era c..são e dava ânsia cada vez que ouvia o nome dele, porem recentemente a parceira dele largou dele e foi embora do estado. Até aí tudo bem, ele foi super simpático comigo, porém notei ela muito simpática com ele. Naquela noite fiquei assando carne na garagem em baixo onde se encontrava a maioria do pessoal, e ela distante de mim, direto lá em cima conversando com os irmãos do cunhado e nada de me dar atenção, percebi mas nem falei nada pra não ficar um clima chato na festa e nem começar uma briga com ela. Festa acabando chamei ela pra ir embora que a irmã dela ia levar a gente, ela estava jogando futebol no game com os irmãos do cunhado dela, e não me deu ouvidos direito, disse que estava vendo alguém jogar, eu falei vamo que o carro tá ligado já, ela disse que já ia, desci e falei pra irmã dela chamar que ela não queria vir, a irmã subiu, logo ela desceu, ao sair do portão torceu o pé, estava bem embriagada, todos estávamos, durante o caminho veio dormindo e chegou em casa subiu as escada deitou na nossa cama e logo adormeceu. No domingo ela acordou com o pé super inchado me chamou e eu perguntei se ela queria ir ao hospital ela disse que não, depois disso no meio do dia meu sogro liga pra ela perguntando se não queria ir na casa dele, disse que era melhor não ir por casa do pé, ela não gostou então fomos mesmo assim, bebemos rimos muito aquele dia, tudo normal, chegando em casa cuidei dela devido a pé e ficamos de boa, estava tudo normal aparentemente, na segunda ela ficou o dia inteiro no quarto devido ao pé inchado, na terça disse que iria na irmã dela e que a mãe ia lá e queria passar o dia lá, normal pra mim, antes de sair meu irmão havia pedido pra ela separar algumas peças que foram vendidas, ela disse que faria assim que chegasse. Na sexta feira antes disso meu avô havia sofrido uma queda e bateu a cabeça forte, no sábado do aniversário ele havia passado mal da pressão e ido ao hospital, desde então eu já estava aflito com essa situação e ela nem pra perceber, foi mesmo assim pra casa da irmã, no meio do dia me manda uma mensagem dizendo que o pé inchou, perguntei pra onde tinha andado ela disse que tinha ido ao mercado de apé, já fiquei meio irritado, pois há algum tempo ela já não ajudava nas tarefas de casa direito, coisa que sempre fiz independente de estar trabalhando ou não, paras as obrigações fazia corpo mole, pra se divertir era a primeira a agitar, blz. Me mandou uma foto do pé inchado, logo em seguida falei "quero ver essa disposição aqui em casa" e mandei uma palminha sobre a foto. Meu avô havia ido ao médico e eu estava extremamente preocupado. Não conversamos o resto do dia, mais ao anoitecer ela chega em casa me dizendo que tinha que voltar lá na irmã pra cortar a franja, só olhei e não respondi, por tamanha indignação com as preocupações minhas comparadas com as dela, que já não se importava muito com o que eu sentia e afins. Depois daquele dia ela se fechou e não saia do quarto nem pra comer, e direto eu vinha ver como ela estava, quando ela não estava vendo algo no celular estava jogando com o J. quem ela sempre falou mal, e estava rindo com o cara, toda hora conversando, e comigo nada de conversa, ia dormir tarde conversando no wpp e jogando, rindo com os outros e eu nada, fui ficando extremamente magoado e nervoso com isso tudo, cheguei a ter batedeira e tremedeira de nervoso, sensação de desmaio, fraqueza, decidi então ocupar a cabeça com serviço, enquanto ela ficava no quarto isolada falando só com quem ela queria eu me distraia com outras coisas. Na sexta feira resolvi puxar assunto com ela no wpp, já que ela não saia de lá, logo ela me respondeu e conversamos, disse a ela que não dava pra continuar desse jeito e ela concordou, eu também disse que desconfiava que havia algo errado ( mais uma coisa de intuição ou pressentimento não sei explicar) , ela me disse que eu tava viajando já, um pouco também é pelo fato de ela colocar o celular debaixo do travesseiro antes de dormir, coisa que nunca aconteceu e eu achei estranho mas nem falei sobre isso, durante a conversa me disse que tinha uma bagunça dentro dela que a vida dela era um caos e não queria me envolver nisso tudo, que cansou de fingir que tava bem e precisava pensar na vida, que tinha que ficar um tempo sozinha pra ver oque ela tava fazendo da vida dela????? Como assim? Depois de tudo que passamos que "conquistamos" , tudo que curtiu , dizia que me amava e eu também dizia, aliás ainda amo, cadê aquele amor todo que tinha me dito que tinha? Que nunca me esqueceu? Que eu era a melhor coisa que tinha acontecido na vida dela? Que eu era o homem que ela pediu pra Deus? Que eu ninguém tratou ela como eu tratei? Passou mais um dia, enfim logo ela mudou de assunto e desceu ajudar minha cunhada com umas coisas de casa, foi até mim, disse que me amava, me deu um beijo, e disse que havia melhorado um pouco, mais a tarde eu ainda trabalhando perguntei a ela, e aí tá de boa? Ela me respondeu.. Sinceramente não tô não.. Disse a ela que a hora que eu subisse conversaria Ela perguntou se podia chorar, pois estava com uma vontade gritante fazia tempo Disse que sim, que as vezes tudo que precisa é desabafar e fazer isso mesmo Eu subi, cheguei no quarto e liguei a TV e coloquei algo pra tocar num volume mais ou menos, abracei ela bem forte deitado na cama, e senti ela chorando bem baixinho pra não perceber, ali eu me senti muito mal mas muito mesmo, porém a gente havia conversado e ela me disse que não foi nada que eu tivesse feito ou falado pra ela, do contrário, era coisa dela e ela não queria me envolver, enfim ela terminou de chorar veio até mim e nos beijamos intensamente, sentou no meu colo e continuou me beijando, cheguei a pensar que transariamos. Ela saiu de cima e estávamos conversando sobre nada específico que envolvesse nossos sentimentos, ela me perguntou se eu tinha entrado no jogo que sempre jogamos juntos pra coletar recompensas eu disse que não e pedi pra ela pegar meu celular pra eu poder fazer isso, entrei lá e logo o J. estava online e me chamou pra jogar, joguei com ele na boa pq já tinha combinado, e perguntei a ela se ela queria jogar, sem hesitar ela entrou com a gente, jogamos até altas horas e foi bem divertido. No dia seguinte estávamos conversando normal e tudo até que um amigo em comum avisou que teria um churrasco de aniversário na casa dele a noite e teria chamado também a irmã dela e o cunhado, logo encaminhei pra ela e ela disse que tinha combinado almoço na casa da mãe do cunhado dela onde reside o J., falei mais eu nem sabia que se tinha combinado isso, e outra dava pra ficar pra outro dia, já percebi que ela não gostou e parou de falar comigo, subi no quarto pra trazer comida pra ela pois ela não havia saído do quarto, cheguei ainda amoroso e disse comprei algo pra você comer, ela disse que não tava com fome e não olhou na minha cara, pensei poxa denovo isso..algum tempo depois entrei no quarto ela rindo e jogando denovo com o mesmo cara, enquanto eu resolvia as coisas pro aniversário e trabalhava. Pouco antes de me arrumar entrei no quarto a mesma situação, não me senti mal exatamente por ela estar jogando e rindo com ele, fiquei meio chateado por que ela me ignorava. Enfim varou a tarde jogando e tive que pedir pra ela se arrumar se não nós atrasariamos, fez cara e se arrumou, e seguiu seca e meio calada igual a semana inteira, fomos para a festa.. Chegando lá se divertiu e tirou foto com todo mundo menos comigo..depois de um tempo ela me disse que estava passando mal e queria ir embora, trouxe ela em casa que é perto e pedi pra ela comer algo quando chegasse pra não acordar passando mal com dor de cabeça Ali eu tomei a decisão de fazer como se fosse um dia em que eu pudesse extravasar, Bebi como se não houvesse o amanhã, fui até 10 horas da manhã bebendo.. chorei muito desabafei muito com a minha cunhada que sempre foi parceira e amiga em tudo, inclusive da D. Subi e descansei, não vi ela acordar e quando acordei ela estava no banheiro, desci e continuei bebendo e pensando em tudo. Fiquei o dia sem inteiro sem entrar no quarto..quando entro me deparo com ela mais uma vez jogando e rindo com o cara, depois disso comecei a tremer e sentir batedeira denovo. Conversei com alguém e fui tomar um banho pra acalmar. Funcionou, entrei no quarto e acho quel ela percebeu que eu saí nervoso logo ela saiu do jogo. Na segunda feira ela ia repetir o mesmo esquema da semana passada e ia me ignorar..passei o dia inteiro pensado sobre o que fazer e como fazer e decidi subir pra conversar. Cheguei no quarto ela estava com a toalha ao lado..perguntei se ela iria se banhar ela seca me disse "vou"... Disse que a hora que ela voltasse precisaríamos conversar.. Ela voltou do banho e sentou na cama e disse.. Vai solta a letra.. Já rebati..é assim mesmo que você fala? Tem certeza que quer começar uma conversa assim? Ela disse não,, foi mal diz aí oque se quer Perguntei eai? As coisas vai ficar assim mesmo? Se não quer falar comigo, só ri e conversa normal com os outros? Ela disse eu não tô falando com ninguém 🙄 Já parei a conversa e falei ... Ó assim não dá nao...faz um favor e só arruma outro lugar pra você ficar e pode ir embora.. Sem hesitar ela disse hoje mesmo eu faço isso! Me doeu muito ter que dizer aquilo.. Mas para ela foi como se já tivesse esperando.. Então me dirigi a porta e disse, me faz um último favor? Ela disse hum? Falei.. Isso que você fez comigo, não faz com o próximo não.. é feio e é muito errado... Ela balançou a cabeça e disse... Tá bom Desci e fiquei inquieto lá em baixo, minha vontade era subir e falar tudo que estava e estou sentindo agora.. Ela me pediu pra ajudar a encontrar as chaves da sua casa, subi e quando abri a porta ela estava sentada chorando muito...aquilo me partiu o coração, mesmo assim encontrei as chaves e entreguei a ela.. Sentei ao lado dela quieto e esperei pela carona dela.. Pouco antes de ir me pediu um abraço. Nós abraçamos e nos beijamos uma última vez e enfim ela foi embora.. No dia seguinte atualizou seu status pra solteira nas redes sociais e posta indiretas como coisas do tipo a dar entender que já está em outra e isso tem me magoado profundamente.. Eu tenho tanto ainda pra falar..mas estou digitando faz horas.. Fica aqui um desabafo +
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2020.07.17 02:21 Marack_ TUDO FOI FEITO PELO SOL (Conto)

O escritor despertou com lágrimas nos olhos. Qual teria sido o pesadelo a lhe perturbar? Tentou recordar por alguns segundos enquanto se revirava na cama, mas não tardou a desistir. Jamais lembraria. A sensação de acordar com esse nó na garganta era tão recorrente, porém a reminiscência dos sonhos ruins sempre lhe escapava a consciência. Tinha a intuição que revisitava o mesmo pesadelo todas as noites, mas não conseguia evocar na memória seus flagelos oníricos. Apesar da curiosidade, no fundo achava melhor assim. Que bem lhe faria recordar o amargor na alma? De apavorante, já basta a realidade – pensou, sentindo-se ridículo pelo clichê. Enxugou o rosto no lençol, inspirando profundamente na expectativa dos pulmões se impregnarem de coragem enquanto levantava da cama com a visão ainda embaciada pelo torpor do despertar. Assim que dera o primeiro passo a caminho do banheiro, enroscou o pé em um par de chinelos ali estrategicamente colocados pelo azar, ocasionando um torcilhão no tornozelo que lhe obrigou a acostar uma das mãos no peitoril da janela afim de evitar o nariz quebrado. A outra, aspirando equilíbrio, se agarrou ao blecaute das cortinas – outrora alvas, agora amareladas – permitindo o adentrar de uma faixa de luz externa pelo vidro exposto, o que inundou de vida a imundice de semanas sem limpeza do seu pequeno apartamento. De imediato – tal qual um reflexo reptiliano – sentiu aquele calafrio convulso subindo-lhe a espinha dorsal com a invasão indesejada. Bloqueou como pôde o facho de sol, desabando sobre o assoalho de madeira com a sensação de que o brilho celeste havia sugado dele qualquer resquício de energia. Sempre o tremor incontrolável contiguamente seguido de um aplastamento mental que a inconveniente recordação causava em seu âmago. Há quanto tempo atrás o medo – esse ditador interno inflexível, tomara conta de seu corpo pachorrento? Oito meses? Nove? Dez anos? Apesar da vividez das minudências em sua memória, tinha vaga lembrança da cronologia do passado após o incidente. Tudo parecia-lhe muito nebuloso nesse aspecto, embaralhado como se os dias fossem cartas desordenadas em uma trapaça do jogo da vida. Se falassem para ele que ocorreu há mais de década, faria mesmo sentido quanto contarem que tudo se passara ontem. Além do que, nessa altura pouco importava, a única convicção do escritor era que o trauma aparentava tão enraizado em seu cerne que duraria o resto de sua fugaz existência, tendo o culpado por seu destino já condenado sem direito à apelação: era Hélio, o deus do sol. O problema da sentença é quem cumpria a pena – encarcerado em um apartamento – era ele.
Ainda prostrado no chão, apertando o tornozelo na tentativa de serenar a algia, tendo o dorso apoiado na parede e o crânio pressionado com raiva contra a cortina – como se fosse plausível aplicá-la uma penitência por não ter violado a lei da ação e reação, permitindo a passagem da luz solar – reviveu em recordação o exato recorte em que sua vida seria marcada pelo pavor.

Era solstício de verão segundo a capa do periódico que folheava aquela manhã enquanto bebericava sua xícara de café, hábito que adquiriu desde que mudara para a cidade. Pra ele, o dia só desenrolava depois que virasse a página derradeira do jornal, geralmente coincidindo com o último gole – nessa altura já frio – da bebida matinal. Na reportagem sobre o solstício constava que a Terra, com seu hemisfério sul inclinado em direção ao sol, seria palco do dia mais longo do ano. Esse fato fez o escritor abrir um largo sorriso, feliz pela possibilidade de gastar mais tempo no parque escrevendo antes da lua encerrar o expediente e assumir o papel de protagonista do firmamento.
Abriu a janela para fumar um cigarro – costume recém incorporado ao seu ritual matutino – constatando que realmente era uma manhã demasiada cálida e abafada. O calor não era inquilino comum na região, surpreendendo-o com aquela sauna a céu aberto. Pitou o cigarro até a metade, apagando a brasa no fundo da xícara de café que estava na pia, jogou na mochila o que precisava para escrever e desceu as escadas a passos largos rumo a seu local de inspiração.
Chegando no parque esbaforido pela caminhada, tomou a iniciativa de comprar uma garrafa de água do único ambulante que encontrara sob aquele sol, percebendo que nem a caixa térmica do vendedor conseguia manter a temperatura agradável. – Que calor infernal! – Vociferou o sujeito, assustando o escritor – Parece castigo de Deus!
Pagou o homem e foi em busca de um lugar tranquilo para sentar. Ao se acomodar, apercebeu que não avistara uma única nuvem sequer no céu. O resultado do mormaço implacável era que haviam somente alguns poucos aventureiros no gramado do parque, malgrado esses que lá ainda permaneciam já darem sinais que não tardariam a serem vencidos pelo astro rei. Ele – apesar do suor descendo pelas têmporas, pingando na camisa de linho bege – começava a achar aquele calor propício o suficiente para tirá-lo da inércia criativa e forçá-lo a se concentrar no capítulo final da história que estava escrevendo. Talvez fosse isso que precisava pra sua imaginação aflorar, um delírio causado pelo sol – pensou e sorriu com a imagem que formara na mente enquanto enxugava a transpiração na testa. Essa saga se arrastava por semanas, já havia escrito inúmeros desfechos pro livro, nenhum lhe agradava a ponto de ser coroado. Lembrava que na semana que começou a redigir a trama, rabiscou o arremate perfeito em um dos cadernos de bolso que usava sempre para registrar suas divagações, porém no desenrolar dos capítulos deduziu que sua conclusão careceria pequenos ajustes. Quando enfim chegou o momento de botar o epílogo no papel, releu o rabisco anotado e pareceu-lhe exageradamente piegas. A trama havia tomado outro rumo, não poderia terminar a história com tal desenredo, mas de que maneira concluiria? Tentou diversas proposições, os dias foram passando, nada parecia estar à altura dos capítulos pregressos, até que... Será? Uma centelha de inspiração brilhou durante um dos sonhos naquela noite. Acordara extasiado e lá estava ele no parque cercado de seus cadernos, jurando para si que só regressaria para o apartamento com o ponto final que encerraria o hiato criativo.
Lá pelas tantas, debruçado na grama e em pensamentos, já vislumbrando o êxito enquanto batia intrepidamente nas teclas que davam formas terminativas a sua obra, lhe ocorreu a sensação que o sol parecia estático no céu. Estava ali há quanto tempo? Pelo julgar de sua lembrança, no mínimo quatro horas desde que começou a escrever, o suficiente para o calor dar uma trégua, porém a impressão era que ao invés de esmaecer, a temperatura parecia intensificar. Quando constatou isso, sentiu sede. Abriu a garrafa de água, tomou o primeiro gole, cuspindo o resto que ficara na boca. O líquido estava a ponto de virar gasoso de tão férvido. Despejou o que sobrou na garrafa em sua mão e levou à nuca. Sentia seu pescoço ardendo em brasa, quem sabe a água, ainda que quente, ajudasse a aplacar o calor. Fitou o antebraço com olhar de espanto. Seriam bolhas de queimadura na sua pele? Piscou, mantendo as pálpebras cerradas por alguns instantes. Ao abrir, haviam sumido. Estava delirando? Muito sol na fronte? Obviamente não se sentia bem. Uma ânsia subiu pela sua garganta. Olhou para cima, como se negociasse um armistício com a estrela, porém a única coisa que ganhou com essa súplica fora um raio de sol lhe cegando integralmente a vista. Ao virar a cabeça na tentativa de escapar da claridade ofuscante, foi cúmplice da cena que ficaria cravada nas entranhas e ranhuras do seu cérebro.
A tragédia durou uma fração de segundos, mas para o escritor, o tempo – como já havia lido que ocorria em momentos assim – desacelerou, passando em câmera lenta, quadro por quadro, eternidade comprimida em um instante. Sua visão ainda debilitada pelo clarão estreitou sobre um homem que, cambaleante, dava sinais de estar prestes à desmaiar. Percebeu o contorno da faca na mão do sujeito. O aço da lâmina refletindo o brilho solar enquanto o indivíduo – esvaído de consciência, desfalecia. Caiu com a faca atravessada em seu peito. O sangue tingindo de vermelho a toalha xadrez sob a cesta de piquenine enquanto uma criança que estivera sentada ali todo o tempo soltava um grito choroso que ecoaria perpetuamente pelo silêncio do seu apartamento.
No periódico do dia seguinte deixado sobre o capacho da porta do escritor constava na matéria de capa que, segundo o plantonista presente no local, o falecido sentiu uma síncope devido à insolação, ocasionando o trágico acidente. Na notícia detalhava também a informação que pai e filha estavam comemorando o aniversário atrasado de oito anos da menina. Na última linha citava ainda um cidadão que presenciando o infortúnio, precisou ser internado para observação, pois – atônito – repetia copiosamente que a culpa era do sol.

O escritor enfim levantou-se do chão, percebendo o molde que os pés deixaram na poeira do assoalho. Ficara tempo demais chafurdando as memórias do trauma, o suficiente para embotar a sua constante frágil disposição de seguir com o dia. Sentiu que a manhã passava de maneira arrastada. Observou também que sua existência – assim como a manhã, estava se arrastando. Não via mais razão para continuar seguindo nesse plano. A impressão que tinha é que aquele incidente abriu a fechadura de uma caixa de pandora, liberando inúmeros demônios que estavam espreitando em seu subconsciente. Buscou ajuda médica, tentou diversos medicamentos – legais e ilegais; frequentara várias terapias – baseadas em evidências e alternativas, mas nada parecia surtir efeito duradouro. Algumas tentativas até causavam uma leve melhora no início, mas não tardava a voltar para o fundo do limbo de onde parecia tropegamente estar saindo.
Ligou a televisão procurando uma distração para acelerar a passagem do dia, trocando os canais sem conseguir focar sua atenção em nenhum. Havia perdido essa capacidade também. Foco era um conceito distante, meramente teórico. Mediar a briga entre seu id e superego lhe esgotava o vigor, não restando forças para se concentrar em qualquer outra atividade. A vida agora se resumia em projetos inacabados. Prova cabal disso era seu livro inconcluso empoeirando em alguma gaveta, pendendo ainda um final. Nunca mais fora capaz de escrever de maneira consistente. Nos momentos de rara inspiração, tentava algumas linhas tortas aqui, outros parágrafos desconexos ali, nada que conseguisse dar continuidade. O destino final dessas folhas sempre era o lixo. Dessa maneira o desfecho para sua obra nunca pareceu tão distante.
Deixou a tevê ligada em um documentário monótono aonde o narrador com a voz arrastada divagava sobre a formação dos planetas e foi pra cozinha requentar o resto do almoço que sobrara de ontem, uma gororoba de tudo que havia encontrado na geladeira. Satisfeito, largou o prato sujo na mesa, serviu-se de uma taça de vinho e deitou no sofá para ler. Dormiu na segunda página.

Durante o sono, notou a presença de outro alguém em seu apartamento. A sombra no canto da sala se assemelhava a silhueta de um homem franzino, lembrando seu pai há muitos anos falecido, mas estava absconso demais para ter certeza. – Quem está aí? – sussurrou apavorado com aquela intromissão a sua rotineira solidão – Me deixe em paz, figura inoportuna. Apesar da tragédia em que me encontro, não sou Hamlet para desejar visitas paternas do além.
O contorno – desacatando sua ordem – foi aos poucos tomando forma enquanto se aproximava, até que ficara nítido o suficiente para ser reconhecido. Como se tivesse frente à um espelho, o escritor se viu prostrado diante de si. Estava em mais um de seus pesadelos. Lúcido da situação que se desenrolava, procurou despertar, mas o esforço foi em vão.
– Eu sou você. – Proferiu sua persona onírica – Nossa única distinção é que venho despido dos medos e traumas que te consomem. Esses demônios já domaram suficiente seu espírito, lhe privando o viver! Após incontáveis sonhos hostis, hoje você encontrará a redenção. Quando despertar desse sono, terá superado para sempre suas inúmeras psicoses arraigadas!
Imediatamente após escutar a sentença, como se nela constasse as palavras que vocalizadas fossem capazes de evocar uma metamorfose, o escritor experienciou-se trocando de matéria com seu clone morfeico, se sentindo totalmente liberto das agruras que lhe aprisionavam. Após cumprida a profecia, seu antigo eu expirou vanescendo no ar, deixando ele absorto com a experiência quimérica.
Querendo pôr à prova sua cura, abriu a porta do apartamento e partiu em disparada para o parque em que tudo ocorrera. A esfera celeste brilhava pujante no horizonte, cintilando sobre as pessoas dispersas no gramado. Estava são novamente. Ao invés de tremores, sentiu-se revigorado com a luz iluminando o mundo. Tudo parecia imbuído de energia. Viu a vida seguindo seu fluxo e o sol tendo papel crucial na ordem cósmica. Lembrou de imediato do documentário na televisão aquela manhã que falava sobre como os elementos químicos naturais eram forjados no núcleo das estrelas, e assim aparentou ter um instante epifânico aonde compreendia a origem do universo em que estava inserido, clareando na consciência a inspiração para o final do seu livro. – Eureca! É isso! O desfecho transcendente que tanto perscrutei nessa peregrinação pelos confins da minha alma! – Chorou, e ao sentir o sal da primeira gota escorrendo pelos lábios, acordou.
O escritor despertou com lágrimas nos olhos. Qual teria sido o pesadelo a lhe perturbar?
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2020.06.03 21:35 Zorubark Obrigada pelo ouro estranho gentil

Reddit é tão inimaginavelmente inteligente até mesmo um usuário móvel como eu não consigo entender as profundezas das mentes do Redditor médio. Assinando ambos dankmemes e politics, este homem alcançou o auge do que ele acha que pode ser espirituoso, sua caixa de entrada enche com respostas de seu último post de formato quente em prequelmemes e metade deles espalha exatamente a mesma carta de volta para ele 'F'. Enquanto ele assiste legiões de crianças de quinze anos apressadamente digitar "Wholesome 100" em uma tentativa bajuladora de reivindicar pontos virtuais da internet, ele não pode deixar de se sentir especial como ele se banha na luz laranja dim de sua tela de computador. Os seus dedos também são cor de laranja, com pó de Cheeto, mas a cor de laranja intriga-o. As setas ao lado da tela são visivelmente laranja, mas a camada grossa de gordura em seus óculos tapados com fita cromática aberra a luz até que eles aparecem perto de vermelho na cor. O hamster perpetuamente animado em sua cabeça começa a girar, um novo esquema inútil e frívolo de karma-making poderia estar em ordem com isso; e se o botão de laranja 'updoot' não era tão laranja como todos dizem que é? É claro que Reddit adora as suas lutas internas, a partir das constantes guerras de chamas moderadoras de animemes e historymemes em grande escala, ao lado de todas as repetidas piadas de 'França rende'. E assim o homem pensa para si mesmo (como fez tantas vezes nos últimos meses) 'A-ha! Tenho uma ideia.’ Ele deve criar o meme final, o meme que une todos os maiores aspectos do Reddit, a luta interna, o humor repetitivo e sem graça, a ostracização de certos grupos com base em fatores inteiramente arbitrários - ele é o homem que vai mudar o curso da história do Reddit, mais do que Reddit mudou a vida daquele alegado bombista. Ele cuidadosamente move seu rato, prejudicado por anos de masturbação ritualística para pornografia cada vez mais hardcore, o túnel carpal o força a fazer movimentos cada vez mais juddery, as imagens pré-formatadas dart através da tela. Fora do arquivo template meticulosamente ordenado, e no GIMP (o bem-estar já não paga para Photoshop). Ele acrescenta texto, na melhor das hipóteses sem graça, mas isso não importa, ele tem uma missão, uma visão, uma ideia que vai incendiar o mundo, desde que por "mundo" você queira dizer como ele é definido na política 'mundo'. Uma única gota de água cai do tecto. O quarto dele é acima do solo, mas as pilhas de parafernália empilhada por acaso removem qualquer aparência de aridez. Ele afoga-se à luz do seu monitor curvado, e à medida que as teclas RGB tremem de cores diferentes, os seus óculos parecem maravilhosos, resíduos de sabão de um mês de idade e mistura de gordura, banhando o homem no mundo em que ele vive. Ele vive em Reddit. Ele respira Reddit. Ele respira, segurando seu inalador-ele acabou de se lembrar de um engraçado Big chungus meme que ele viu na tarde anterior (ou, pelo menos o que ele acreditava ser a tarde, ele não faz distinção entre AM ou PM). O canto dos pássaros lá fora é abafado por uma cornucópia de almofadas corporais e caixas de pizza muitas vezes reabertas. Às vezes, ele gostava que eles se reabastecessem. Nunca o fazem. O homem do restaurante de pizzas que lhe serve conhece-o bem, talvez o único homem no mundo que o faz fora da sua família próxima. Sempre o mesmo, grande americano quente. Nunca um extra grande, mas sempre um grande. Quando o seu apetite pela cozinha italiana se afasta por alguns dias, afasta-se do seu curso normal e pode pedir algo diferente. Mas, claro, o homem da pizzaria estraga o pedido. A massa está mal cozida, super cozida, sobre as coberturas, bolhas, ou talvez a gravidade tenha tido o seu preço no jantar do nosso herói, rolando para uma calzone ao lado da caixa, quase envergonhado de mostrar a sua face ao mundo. De certa forma, o homem é muito parecido com a pizza que ele pede, ele está em silêncio. Ele está sempre lá, sempre presente no mundo, ninguém gostaria de admitir que eles têm tanto contato com ele como eles têm - e a maioria das pessoas ficam longe dele. No entanto, naquela caixa de pizza, o homem está seguro, ele tem uma marca no exterior, uma etiqueta, uma casca dura para afastar qualquer pessoa que ainda pode ser capaz de se meter no seu caminho, se ele não estava tão fora do caminho para começar. As caixas de pizza amontoam-se no canto, às vezes a mãe dele esvazia-as. Parece que ela só vem uma vez na Lua Azul, as suas visitas coincidem com os barulhos barulhentos do camião do lixo enquanto ele conduz sobre o seu jardim da frente mal mantido, confundindo a flora severamente desnutrida com mais pavimento. O coração dele bate mais depressa, e também cronometrou perfeitamente. Karma máximo para adicionar ao seu total. "Os europeus não vão ter este até acordarem! ele chora sozinho. Há uma pausa-ele esqueceu um componente crítico de seu meme - a marca D'água. Mas não apenas uma marca d'água, uma que realmente mostra o resto da internet que ele é um avermelhado e orgulhoso, ele hasteia a bandeira laranja como se fosse o país em que ele vivia, alegando que ele fez este meme, apesar da natureza reciclada tanto do formato e da legenda. Mas não há mais nada a dizer. Todas as ideias foram feitas aqui. Todas as combinações de meme foram feitas. Tudo o que há agora é um vazio de humor que vai lentamente apodrecer e degradar-se no nível de Memes Cheezburger. Este Redditor olha para aqueles em R / f7u12, eles não têm a habilidade ou inteligência daqueles que fazem memes que são 50% imagem de reação. Eles reagem a tanta coisa de formas tão estereotipadas, e ainda riem de pessoas no YouTube que passam a vida inteira seguindo a mesma fórmula que eles fazem. Ele vacila. Ele clica 'Post Image'. E enquanto uma chuva de upvotes inunda a tela para cumprimentá-lo, ele sente um pequeno formigueiro em seus braços, uma euforia, seu chapéu inconscientemente inclina-se para fora de sua cabeça enquanto seus olhos rolam para trás e ele se inclina em sua cadeira. Quando seu coração começa a tropeçar em seus próprios sinais para fornecer sangue suficiente para a moldura girítica recém-despertada de seu, ele vê uma mensagem aparecer na tela. Recebeu um prémio de Ouro.’ Sua boca está agora Ágape, ruídos assobiando escapar dele e seu braço esquerdo começa a se sentir muito mais forte, sua boca convulsiva e Baba ao mesmo tempo, sua cabeça cai para o lado, batendo contra o material finamente maquinado de sua cadeira de aperto. Quando o seu último suspiro deixa a boca, mas fica na sala, só tem uma coisa a dizer. Obrigado pelo ouro, gentil estranho.’
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2020.03.28 03:40 altovaliriano A Grande Conspiração Nortenha - Parte 5

Texto original: https://zincpiccalilli.tumblr.com/post/53134866390
Autores: Vários usuários do Forum of Ice and Fire, mas compilado por Yaede.
Índices de partes traduzidas: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6

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Novamente, eu ergo montanhas sobre montículos nesta parte e na próxima, presumindo que tudo o que fazem os homens do norte em Winterfell, especialmente Lorde Manderly, é suspeito.

O Norte: Homens Stark

Wyman Manderly, um Operador Sutil

Anteriormente, eu teorizei que Manderly poderia saber sobre Robb ter escolhido Jon para sucedê-lo como Rei do Norte de Robett Glover, que por sua vez ouve as notícias de seu irmão mais velho Galbart, desapareceu no Gargalo com Maege Mormont, ambos testemunhas do decreto de Robb (ASOS, Catelyn V). No entanto, Manderly jurou se declarar por Stannis caso Davos traga Rickon e Cão Felpudo de volta de Skagos? Rickon não seria redundante se Manderly pretendesse reconhecer Jon como seu rei?
A promessa de Manderly a Davos não é tão hermética quanto parece, para começar.
– [Wex] sabe para onde [Osha e Rickon] foram – Lorde Wyman disse.
Davos entendeu.
– Você quer o menino.
– Roose Bolton tem a filha de Lorde Eddard. Para impedi-lo, Porto Branco precisa ter o filho de Ned... e o lobo gigante. O lobo provará que o menino é quem dizemos que é, se Forte do Pavor tentar negar. Este é meu prêmio, Lorde Davos. Contrabandeie-me meu senhor suserano, e eu tomarei Stannis Baratheon como meu rei.
(ADWD, Davos IV)
Em primeiro lugar, observe que Manderly não especifica Rickon pelo nome, mas diz "suserano", deixando Davos concluir pelo contexto qual dos filhos de Ned ele quer dizer. Mesmo que ele não saiba nada sobre Jon, ele fica sabendo por Wex que Bran também sobreviveu ao saque de Winterfell. Sendo irmão mais novo, Rickon não pode ser Lorde de Winterfell antes de Bran, que não é desqualificado por sua deficiência (ou ser uma árvore!) E, até onde sabemos, não abdicou ou morreu. Então, com essas complicações, quem é o suserano de Manderly?
Em segundo lugar, Manderly não fala em nome de Porto Branco, mas em seu próprio nome. O que acontecerá com seu acordo com Davos, que não foi jurado aos deuses antigos ou aos novos, se Manderly morrer e seu filho, Wylis, o suceder como senhor? Manderly deliberadamente provoca os Freys em Winterfell às vias de fato durante o último POV de Theon. Sobre a morte de Pequeno Walder, ele comenta: “Embora talvez isso tenha sido uma bênção. Se vivesse, teria crescido para ser um Frey”. Especula-se que Manderly não espera voltar de Winterfell vivo, assim como os homens do clã que marcham com Stannis preferem morrer banhados em sangue Bolton do que para as adversidades do inverno (ADWD, O Prêmio do Rei). A palavra que Lorde Wyman deu a Davos, sobre a qual Wylis pode negar conhecimento com sinceridade, é nula e sem efeito?
O Norte está prestes a enfrentar o pior inverno de muitas gerações, com um gelado apocalipse zumbi pra completar, após a morte de milhares de homens na Guerra dos Cinco Reis, fortalezas e colheitas arruinadas pela ocupação inimiga, sem expectativas de ajuda do Trono de Ferro, absortos como os sulistas estão em seus jogos de poder. Não é hora para os garotos-senhores, que são a ruína de qualquer casa, mesmo segundo Roose Bolton (ADWD, Fedor III). No entanto, se Jon for rei, certamente não faria mal para ele ter um herdeiro, já que é improvável que ele traga o seu próprio, pois jurou não tomar esposa ou ter filhos.
Manderly é capaz de tais truques? De tal traição? Todo o incidente das tortas de Frey sugere isso, em minha opinião.
[Davos] esperava ouvir Lorde Wyman falar, E agora eu me declaro pelo Rei Stannis, mas, em vez disso, o homem gordo sorriu um estranho sorriso cintilante e disse:
– Agora tenho um casamento para assistir. Sou gordo demais para subir em um cavalo, como qualquer homem com olhos pode ver claramente. [...]. Meu corpo tornou-se uma prisão mais lúgubre do que a Toca do Lobo. Mesmo assim, preciso ir para Winterfell. Roose Bolton me quer de joelhos, e sob o veludo da cortesia mostra a cota de malha de ferro. Preciso ir de barcaça e de liteira, cercado por uma centena de cavaleiros e por meus bons amigos das Gêmeas. Os Frey vieram pelo mar. Não têm cavalos com eles, então devo presentear cada um deles com um palafrém como presente de convidado. Os anfitriões ainda dão presentes de convidados no Sul?
– Alguns dão, meu senhor. No dia da partida dos convidados.
– Talvez você entenda, então.
(ADWD, Davos IV)
Manderly não tem escrúpulos em observar cuidadosamente a literalidade das leis da hospitalidade, mas violar seu espírito. Ele faz gestos amigáveis aos Freys e os mata assim que seus presentes de convidado o libertam de suas obrigações de anfitrião.
O Senhor de Porto Branco fornecera a comida e a bebida, [...]. Os convidados do casamento se fartaram em [...] três grandes tortas de casamento [...]. Ramsay cortou as fatias com sua cimitarra, e Wyman Manderly serviu pessoalmente, oferecendo as primeiras porções fumegantes para Roose Bolton e sua gorda esposa Frey, as seguintes para Sor Hosteen e Sor Aenys, filhos de Walder Frey.
– A melhor torta que já provaram, meus senhores – o gordo senhor declarou. – Empurrem tudo para baixo com um dourado da Árvore e apreciem cada pedaço. Eu sei que vou.
Fiel à sua palavra, Manderly devorou seis porções, duas de cada uma das três tortas […]
O Senhor de Porto Branco era a imagem perfeita do gordo feliz, gargalhando, sorrindo, brincando com os outros senhores e batendo em suas costas, pedindo aos músicos esta ou aquela canção.
– Nos dê A noite que terminou, cantor – gritou. – A noiva gostará desta, eu sei. Ou cante para nós os feitos do bravo jovem Danny Flint, e nos faça chorar. – Ao olhá-lo, era possível pensar que era ele o recém-casado.
– Está bêbado – disse Theon. [...] Lorde Manderly estava tão bêbado que pediu quatro homens fortes para ajudá-lo a sair do salão.
– Devíamos ouvir uma canção sobre o Rato Cozinheiro – ele murmurou, enquanto passava cambaleando por Theon, apoiado em seus cavaleiros. – Cantor, dê-nos uma canção sobre o Rato Cozinheiro.
(ADWD, O Príncipe de Winterfell)
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O Cozinheiro Ratazana tinha feito com o filho do rei ândalo um grande empadão com cebolas, cenouras, cogumelos, montes de pimenta e sal, uma fatia de bacon e um escuro vinho tinto de Dorne. Depois, serviu-o ao pai dele, que elogiou o sabor e pediu para repetir. Mais tarde, os deuses transformaram o cozinheiro numa monstruosa ratazana branca que só podia comer os próprios filhos. Desde então, vagueava por Fortenoite, devorando os filhos, mas sua fome ainda não estava saciada.
– Não foi por assassinato que os deuses o amaldiçoaram – dizia a Velha Ama – nem por servir ao rei ândalo o filho num empadão. Um homem tem direito à vingança. Mas matou um hóspede sob o seu teto, e isso os deuses não podem perdoar.
(ASOS, Bran IV)
No banquete de casamento, Manderly zomba maliciosamente de seus inimigos bem diante de suas caras, brincando com a ignorância do que ele fez. Além disso, ao fornecer a comida e a bebida, Lorde Wyman garante que ele e seus co-conspiradores não violem o direito de hóspede, que é uma forma de confiança mútua entre anfitrião e hóspede. De qualquer forma, ele tem alguma margem de manobra, porque provavelmente ainda considera Winterfell a casa dos Starks. Os deuses não puniriam mais intensamente Manderly por matar Boltons e Freys do que a Roose por enforcar as duas dúzias de posseiros encontrados no castelo, quando ali chegaram (ADWD, O Príncipe de Winterfell).
No entanto, o subterfúgio de Manderly não para por aí. Ele faz conluio com Mance Rayder e suas esposas de lança. Eles se encontraram na estrada, e Mance diz a Manderly que ele procura um caminho para Winterfell para roubar a noiva de Ramsay em nome de Jon Snow, o irmão dela. Sendo os vassalos mais meridionais dos Stark, tanto geográfica quanto historicamente, os Manderlys não sofrem tanto com ataques selvagens quanto, por exemplo, os Umbers e estariam melhor dispostos a ter o Povo Livre como aliados.
Perto do palanque, Abel arranhava seu alaúde e cantava Belas donzelas do verão. Ele se chama de bardo. Na verdade, é mais um cafetão. Lorde Manderly trouxera músicos de Porto Branco, mas nenhum era cantor, então, quando Abel apareceu nos portões com um alaúde e seis mulheres, fora mais do que bem-vindo.
(ADWD, O Príncipe de Winterfell)
Que coincidência que Lorde Manderly, que sempre pensa em tudo, não trouxe cantores para as festividades! Estranho, porque no banquete da colheita em Winterfell, alguns livros atrás, ele tem músicos e um cantor em sua procissão, com um malabarista para completar.
Os músicos de Lorde Wyman tocavam com bravura e bem, mas a harpa, a rabeca e a trompa foram em breve afogadas por uma maré de conversas e risos, o tinir de taças e pratos, e os rosnados de cães que lutavam pelos restos. O cantor cantava boas canções, Lanças de Ferro, O Incêndio dos Navios e O Urso e a Bela Donzela, mas só Hodor parecia estar ouvindo. [...]
(ACOK, Bran III)
Eu não acredito em tais coincidências. Manderly – que já decidiu assassinar Jared, Symond e Rhaegar Frey no momento em que conversa com Davos – provavelmente planeja prepará-los em tortas, servi-los aos seus parentes e pedir uma música sobre o Rato Cozinheiro. O que – a menos que ele queira cantar a música – exigiria um ou dois bardos.
Mance não é o único em Winterfell com quem Manderly tem um acordo prévio. Antes do mesmo banquete da colheita, Manderly levanta a idéia de construir uma frota de navios de guerra para Bran, Ser Rodrik e Meistre Luwin.
Além de uma casa de cunhagem, Lorde Manderly também propôs construir uma frota de guerra para Robb.
– Há centenas de anos que não temos força no mar, desde que Brandon, o Incendiário, tocou fogo nos navios do pai. Concedam-me o ouro necessário, e ainda este ano porei para flutuar galés em número suficiente para tomar tanto Pedra do Dragão como Porto Real.
(ACOK, Bran II)
Sor Rodrik e Meistre Luwin não se comprometem inicialmente, prometendo apenas conversar com Robb sobre o assunto, mas Sor Rodrik logo tem uma idéia.
Hother [Umber, Terror das Rameiras] queria navios. [...]
Sor Rodrik puxou as suíças:
– Vocês têm florestas de pinheiros altos e velhos carvalhos. Lorde Manderly tem construtores navais e marinheiros com fartura. Juntos, deveriam ser capazes de pôr na água dracares em número suficiente para defender as costas de ambos.
– Manderly? – Mors Umber [Papa Corvos] fungou. – Esse grande saco bamboleante de banha? [...]
– Ele é gordo – admitiu Sor Rodrik –, mas não é bobo. Irá trabalhar com ele, caso contrário o rei ficará sabendo o por quê. E , para espanto de Bran, os truculentos Umber concordaram em fazer o que ele ordenava, embora não sem resmungos.
(ACOK, Bran II)
Em A Dança dos Dragões, a frota está construída.
Passo do Castelo era uma rua com degraus, um largo caminho de pedra branca que levava da Toca do Lobo, pela água, até Castelo Novo, em sua colina. Sereias de mármore, com vasilhames de óleo de baleia queimando aninhados nos braços, iluminavam o percurso enquanto Davos subia. Quando alcançou o topo, virou-se para olhar para trás. De onde estava, podia ver os portos. Ambos. Atrás do quebra-mar, o porto interno estava repleto de galés de guerra. Davos contou vinte e três. Lorde Wyman era gordo, mas não era negligente, ao que parecia.
(ADWD, Davos II)
E não há a menor sugestão de que Roose saiba alguma coisa sobre isso. Ou seja, Terror das Rameiras ainda não lhe disse: “Fico pensando o que o Lorde Lampréia fez com toda a madeira que cortamos para ele. Deveríamos ter construído galés de guerra juntos”. Uma explicação seria que, apesar de Terror das Rameiras ter tomado partido dos Boltons e Papa Corvos o de Stannis, os Umbers ainda estão de fato trabalhando com Manderly.
Uma vez em Winterfell, Manderly tem nova oportunidade de conspirar.
[Roose:] "Alguém está matando meus homens." [...]
– Temos que olhar para Manderly – murmurou Sor Aeny s Frey. – Lorde Wyman não tem amor por nenhum de nós.
[Roger] Ryswell não estava convencido.
– Ele, no entanto, ama seus bifes, costelas e tortas de carne. Rondar o castelo na escuridão exigiria que deixasse a mesa. O único momento em que faz isso é quando procura a latrina para uma de suas longas horas agachado.
– Não afirmo que Lorde Wyman agiu por conta.
(ADWD, Um fantasma em Winterfell)
Ah- ha! Lord Manderly tem feito reuniões secretas pró-Stark sob o disfarce de visitar a privada? XD
Bem, talvez não (risadas). Falando sério, nessa mesma cena, Frey ressalta que Manderly chegou a Winterfell com trezentos homens, um terço dos quais são cavaleiros. Ele pode empregar seus funcionários de confiança para passar mensagens, bem como usar suas conexões já estabelecidas com os selvagens e os Umbers (embora os primeiros tenham quase certeza de ter segundas intenções). A lista completa de Casas que compareceram ao casamento, excluindo-se a Senhora Dustin e seu séquito, é a seguinte:
Estandartes estavam pendurados nas torres quadradas, batendo com o vento; o homem esfolado de Forte do Pavor, o machado de batalha dos Cerwyn, os pinheiros dos Tallhart, o tritão dos Manderly, as chaves cruzadas do velho Lorde Locke, o gigante dos Umber, a mão de pedra dos Flint e o alce dos Hornwood. Dos Stout, listras bifurcadas castanhoavermelhadas e douradas; dos Slate, um campo cinza com duas bordas estreitas brancas. Quatro cabeças de cavalo proclamavam os quatro Ryswell dos Regatos; uma cinza, uma negra, uma dourada e uma marrom. A brincadeira era que os Ryswell não conseguiam concordar nem sobre as cores de suas armas. Acima deles, pairava o veado-e-leão do garoto que se sentava no Trono de Ferro, a milhares de quilômetros de distância.
(ADWD, Fedor III)
Manderly e os Lockes estão em contato desde antes da chegada de Davos em White Harbor. Há um Locke na corte de Manderly, identificável por seu brasão, embora não tenha nome e, portanto, tenha parentesco incerto com Lorde Locke. Esse homem não está contra Roose, mas acha que Ramsay é um psicopata e prefere não vê-lo governar o norte. Mais uma vez, Ramsay é um grande fardo para a Casa Bolton. Um que Manderly e sua facção podem explorar:
[Frey:] Qualquer que seja o nome, ele logo estará casado com Arya Stark. Se você quer ser fiel à promessa, faça aliança com ele, pois ele será o Senhor de Winterfell.
[Wylla:] – Ele jamais será meu senhor! Ele obrigou a Senhora Hornwood a se casar com ele, então a trancou em um calabouço e a fez comer seus dedos.
Um murmúrio tomou conta da Corte do Tritão.
– A donzela diz a verdade – declarou um homem atarracado, em branco e púrpura, cujo manto era preso por um par de chaves de bronze cruzadas. – Roose Bolton é frio e astuto, sim, mas um homem pode lidar com Roose. Todos conhecemos piores. Mas esse filho bastardo dele... dizem que é louco e cruel, um monstro.
(Davos III, ADWD)
Os Hornwoods, é claro, têm boas razões para odiar Ramsay por ter torturado e assassinado sua Senhora viúva. Eles, assim como os Cerwyns e Tallharts, têm outros pontos para acertar com pai e filho, no entanto. Ramsay traiçoeiramente matou seus homens junto com Sor Rodrik no saque a Winterfell. Entre os mortos apresentados a Theon estão o herdeiro de Lord Cerwyn, Cley, e o irmão de lorde Tallhart, Leobald. Como se isso não bastasse, foram novamente homens de Hornwood, Cerwyn e Tallhart que Roose entregou aos Lannisters e Tyrells em Valdocaso. Sor Helman Tallhart, mestre da Praça de Torrhen, foi morto nessa batalha.
Por fim, uma coluna de homens a cavalo apareceu, saída da fumaça que pairava no ar. À cabeça vinha um cavaleiro com uma armadura escura. Seu elmo arredondado brilhava num vermelho lúgubre, e um manto rosa-claro caía de seus ombros. Parou o cavalo junto ao portão principal, e um de seus homens gritou para que o castelo se abrisse.
– São amigos ou inimigos? – berrou-lhes Lorren Negro.
– Traria um inimigo tão bons presentes? – O Elmo Vermelho fez um sinal com a mão, e três cadáveres foram despejados à frente dos portões. Um archote foi brandido por cima dos corpos, para que os defensores no topo das muralhas pudessem ver o rosto dos mortos.
– O velho castelão – disse Lorren Negro.
– Com Leobald Tallhart e Cley Cerwyn – o jovem senhor fora atingido no olho por uma flecha, e Sor Rodrik perdera o braço esquerdo, do cotovelo para baixo.
(Theon VI, ACOK)
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[Varys:] Ontem de madrugada, o nosso bravo Lorde Randyll apanhou Robett Glover nos arredores de Valdocaso e encurralou-o contra o mar. As perdas foram pesadas de ambos os lados, mas no fim os nossos leais homens prevaleceram. Dizem que Sor Helman Tallhart está morto, bem como mais de mil homens. Robett Glover volta a Harrenhal comos sobreviventes, em sangrenta desordem, sem sonhar que irá encontrar atravessados no caminho o valente Sor Gregor e seus bravos.
(Tyrion III, ASOS)
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Os portões de Valdocaso estavam fechados e trancados. [...]Quando a aurora rebentou, os guardas apareceram nos baluartes. Os agricultores subiram para seus carros e sacudiram as rédeas. Brienne também montou […]
Os guardas mandavam as carroças passar quase sem olhar [...] [O capitão] fez um gesto para os guardas. – Deixem-na passar, rapazes. É uma garota.
O portão abria-se para uma praça de mercado, onde aqueles que tinham entrado antes dela descarregavam [...] Outros vendiam armas e armaduras, e muito barato, a julgar pelos preços que gritavam quando ela passava. Os saqueadores chegaram com as gralhas pretas depois de todas as batalhas. [...]Também se arranjava roupa: botas de couro, mantos de peles, sobretudos manchados com rasgões suspeitos. Conhecia muitos dos símbolos. O punho coberto de cota de malha [Glover], o alce [Hornwood], o sol branco [Karstark], o machado de lâmina dupla [Cerwyn], todos eram símbolos do Norte.
(AFFC, Brienne II)
Infelizmente para os Boltons, se os Hornwoods, Cerwyns e Tallharts ainda não perceberam quem é responsável por seus infortúnios, Manderly pode informa-los (e certamente o fará).
Davos tentou se lembrar das histórias que ouvira.
– Winterfell foi capturado por Theon Greyjoy, que fora protegido de Lorde Stark. Ele condenou os dois filhos mais jovens de Stark à morte e colocou suas cabeças sobre as muralhas do castelo. Quando os nortenhos vieram derrubá-lo, passou o castelo inteiro pela espada, até a última criança, antes de ser morto pelo bastardo de Lorde Bolton.
– Não morto – disse Glover. – Capturado e levado para Forte do Pavor. O Bastardo vem esfolando-o.
Lorde Wyman assentiu.
– A história que você ouviu é a que todos nós escutamos, tão cheia de mentiras quanto um pudim de passas. Foi o Bastardo de Bolton quem passou Winterfell pela espada... Ramsay Snow, ele se chamava então, antes do rei menino torná-lo um Bolton. [...], não verdadeiramente, mas pensam que precisamos fingir acreditar, ou morreremos. Roose Bolton mente sobre sua participação no Casamento Vermelho, e seu bastardo mente sobre a queda de Winterfell.
(Davos IV, ADWD)
Até os pequenos habitantes de Porto Real não têm problemas em apontar os culpados por trás do Casamento Vermelho. Não é preciso ser um gênio para descobrir que Roose e Tywin estavam em conluio quando Roose milagrosamente sobreviveu ao massacre nas Gêmeas para ser nomeado Protetor do Norte pelo Trono de Ferro, com uma nova esposa de Frey ao seu lado. E então os Bolton têm a ousadia de trazer dois mil Freys para o norte, hospedando-os em Winterfell.
– Os senhores podem não saber – disse Qyburn –, mas nas tabernas e casas de pasto da cidade, há quem sugira que a coroa pode ter sido de algum modo cúmplice do crime de Lorde Walder.
Os outros conselheiros fitaram-no com incerteza.
– Refere-se ao Casamento Vermelho? – perguntou Aurane Waters.
– Crime? – disse Sor Harys. Pycelle pigarreou ruidosamente. Lorde Gyles tossiu.
– Aqueles pardais são particularmente diretos – preveniu Qyburn. – O Casamento Vermelho foi uma afronta a todas as leis dos deuses e dos homens, ela dizem, e os que tiveram uma participação no caso estão condenados.
(Cersei IV, AFFC)
Manderly provavelmente ouve a verdade sobre o saque de Winterfell via Wex, mas um jovem homem de ferro mudo não é a única testemunha viva do delito de Ramsay. Sobreviventes da batalha que ocorreu do lado de fora dos portões de Winterfell se juntaram à marcha de Stannis (ADWD, Jon VII), possivelmente a mando dos Mormonts. Da mesma forma, Robett Glover é um sobrevivente de Valdocaso e poderia facilmente alegar que Roose fora responsável por essa farsa, haja vista a indiferença deste último pela captura de Bosque Profundo.
No Vau Rubi, o atraso de Roose em atravessar o rio custa ao Norte outros dois mil homens – incluindo Norreys, Lockes e Wylis Manderly, que foram capturados – quando Gregor Clegane o alcança (ASOS, Catelyn VI). Com a traição dos Bolton exposta, Valdocaso e o Vau Rubi parecem repentinamente movimentos calculados da parte de Roose para sangrar seus companheiros nortenhos.
Mais importante ainda, Manderly traz para Winterfell boas novas dos Starks. Qualquer que seja o filho de Ned, Manderly pode fazer a única coisa que Roose sabe que fará as casas do norte o abandonarem em massa.
[Roose to Ramsay:] Parecemos fortes neste momento, sim. Temos amigos poderosos nos Lannister e nos Frey e o apoio relutante de grande parte do Norte... mas imagine o que vai acontecer quando um dos filhos de Ned Stark aparecer?
(ADWD, Fedor III)
A Senhora Dustin também.
No palanque, Lorde Wy man Manderly sentava-se entre dois de seus cavaleiros de Porto Branco, levando mingau com uma colher até seu rosto gordo. Não parecia estar apreciando nem um décimo do que saboreara comendo as tortas de porco no casamento. Em outro canto, Harwood Stout, de um braço só, conversava calmamente com o cadavérico Terrordas-Rameiras Umber.
(ADWD, O vira-casaca)
Segundo a teoria, Terror das Rameiras retransmite as palavras de Manderly, iniciando uma nova rodada no telefone sem fio. Stout é juramentado à Senhora Dustin e hospeda desde cedo Ramsay em sua fortaleza, sem dúvida infeliz ao ver as preciosas reservas de inverno de seu povo esvaziadas para apaziguar a vaidade mesquinha de Ramsay. Sem falar que Ramsay não faz nada para impedir que suas cadelas matem um dos cães de caça de Stout. (ADWD, Fedor III)
O poder dos Bolton no norte repousa sobre um leito de mentiras e ardis, que mal flutua no mar de ressentimento nortenho, e Manderly tem os meios e a vontade de perfurar essa frágil fundação. O que Manderly tem a dizer a Senhora Dustin? E qual a reação dela? Bem, isso é assunto para outro dia.
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2020.02.24 03:57 altovaliriano A Mulher Morena

“Sábado de personagens” ainda no domingo. Fazer o quê?
A mulher morena é uma das mais misteriosas personagens de As Crônicas de Gelo e Fogo. Seu nome e origem nunca foi revelado ao leitor. Pouco mais sabemos sobre ela, mas em resumo a mulher foi entregue por Euron a Victarion como um prêmio. Sabemos que ela é muda e que Victarion a considera bonita.
Porém, em determinado momento da história, fica evidente ao leitor de que a mulher morena é mais do que parece ser. A tripulação de Victarion resgata do mar Moqorro, um sacerdote de R’hllor enviado pelo Templo Vermelho para auxiliar Daenerys em Meereen, e leva-o a Victarion, pois o homem afirma estar sabendo de que o Capitão de Ferro corre perigo de morte. Quando um mal súbito atinge Victarion, ele e Moqorro vão à sua cabine e o seguinte ocorre:
Quando abriu a porta da cabine do capitão, a mulher morena se virou em sua direção, silenciosa e sorridente... mas, quando viu o sacerdote vermelho ao lado dele, seus lábios se afastaram de seus dentes, e ela sibilou em súbita fúria, como uma serpente. Victarion a acertou com as costas da mão boa e a derrubou no chão.
– Quieta, mulher. Vinho para nós dois. [...]
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
A hostilidade da mulher morena para com Moqorro parece uma indicação muito forte sobre a origem e propósito da personagem na história. A partir deste fato apenas, leitores foram levados às mais loucas especulações sobre a identidade da misteriosa serva-amante de Victarion. Entretanto, se o reino das especulações produz resultados estranhos, posso afirmar que as evidências presente no próprio texto não são menos estranhas. Se analisadas em sua literalidade, o texto produzido pelo próprio Martin aponta para direções completamente ininteligíveis.
Analisemos.

Fenótipo, aparência e semelhanças

Fenótipo é o resultado da expressão dos genes do organismo, da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois. No contexto deste texto, o fenótipo da mulher morena é algo que poderia nos dar uma dica sobre sua herança genética.
Esse herança genética PODE nos ajudar a determinar a cultura na qual ela nasceu, mas é claro que isso não permite nos concluir com absoluta certeza que ela pertence esta cultura. Um bom exemplo de personagem cujo fenótipo pode ser usado para nos confundir é Sarella Sand, que pertence à cultura westerosi, apesar de que sua aparência denotaria ter nascido nas Ilhas do Verão.
Entretanto, diante das poucas informações disponíveis sobre a mulher morena, esta análise se torna necessária. Em verdade, o próprio Martin parece estar induzindo os leitores a realizar estas investigações, pois ele mesmo deposita dicas disso no texto:
Sua pele era negra. Não o marrom castanho dos ilhéus do Verão com seus navios cisne, nem o marrom-avermelhado dos senhores dos cavalos dothrakis, nem a cor de carvão-e-terra da pele da mulher morena*, mas negra. Mais negra que carvão, mais negra do que o azeviche, mais negra do que as asas de um corvo.*
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Na passagem acima, vê-se que Martin descarta através de Victarion que a mulher morena pertence às culturas dos Ilhéus do Verão e dos senhores de cavalo Dothraki. A exclusão das Ilhas do Verão é especialmente útil, haja vista onde Euron ALEGA ter encontrado a mulher morena:
INGLÊS: As a reward for his leal service, the new-crowned king had given Victarion the dusky woman, taken off some slaver bound for Lys.
PORTUGUÊS: Como recompensa por seu leal serviço, o recém-coroado rei dera a Victarion a morena, roubada de algum mercador de escravos a caminho de Lys*.*
(AFFC, O Pirata)
Eu acho curioso a forma como fica apenas implícito de que Euron teria capturado a Mulher Morena nos porões de um navio de escravos indo para Lys, quando, na verdade, nada disso está escrito no texto. Não se menciona qualquer navio, nem que ela era uma escrava. Tão facilmente como tomou Falia Flowers quando invadiram o Castelo dos Hewett, Euron poderia muito bem ter tomado a amante de um mercador de escravos.
Mas evitemos a interpretação segundo a qual Martin, a esta altura da história, está tentando nos confundir com jogos de palavras. Que outras opções de origem teria uma mulher “bela, com uma pele tão castanha quanto teca oleada”?
Aqueles que partirem para O Mundo de Gelo e Fogo em busca de auxílio encontrarão logo a seguinte referência sobre os habitantes de Naath:
O povo nativo da ilha é uma raça bonita e gentil, com rostos redondos, pele escura e grandes olhos suaves cor de âmbar, em geral salpicados de dourado.
[...~]
O Povo Pacífico sempre teve um bom preço, dizem, pois são tão inteligentes quanto gentis, belos de se olhar e rápidos em aprender a obediência*. É relatado que* uma casa de prazer em Lys é famosa por suas garotas naathi*, que usam diáfanos vestidos de seda e são adornadas com asas de borboletas alegremente pintadas.*
(TWOIAF, Naath)
As descrições tem certa compatibilidade com as características relatadas da mulher morena. Entretanto, os característicos olhos amarelados teriam sido notados facilmente mesmo por alguém tão tapado quanto Victarion. Por outro lado, depois da demonstração de fúria perante Moqorro, acredito que pouco classificariam a mulher morena como “gentil”.
Caso continuemos a pesquisa no livro de meistre Yandell, logo encontraremos uma outra descrição sobre o povo de Leng que é bastante capciosa:
Os lengii nativos são talvez os mais altos de todas as raças da humanidade, com muitos homens entre eles chegando a mais de dois metros de altura, e alguns até com dois metros e meio. De pernas longas e esguios, pele cor de teca oleada*, eles têm grandes olhos dourados e supostamente podem ver mais longe e melhor do que outros homens,* especialmente à noite. Embora formidavelmente altas*, as mulheres lengii são notoriamente ágeis e encantadoras, de* beleza insuperável*.*
(TWOIAF, Leng)
A descrição da pele é inteiramente simétrica àquela da mulher morena (fornecida por VIctarion). Na verdade, é curioso perceber que a única vez que a expressão “teca oleada” é usada para descrever a pele de alguém ocorre com a mulher morena. A única outra vez em que essa analogia é usada é como o povo de Leng, fora da saga principal, em um livro acessório.
Entretanto, há mais problemas aqui do que soluções. Novamente temos a descrição do dourado dos olhos (que seriam difíceis de Victarion ignorar), a altura formidável e a beleza insuperável. Ainda que possamos alegar que Victarion é um homem alto, próximo dos 2 metros de altura (segundo estimativas dos leitores), seria difícil que ele ignorasse que a mulher morena fosse muito alta para uma mulher e de beleza insuperável.
Desse modo, acredito ser seguro descartar Leng e seguir. Não há mais nenhuma referência a características que se assemelhem à da mulher morena (fora das Ilhas do Verão, que já foram descartadas em nossas premissas acima), porém existe uma referência a um povo no estrangeiro que por vezes sofre o mesmo destino reservado à mulher morena:
Não é surpresa que Sothoros seja pouco povoado quando comparado com Westeros ou Essos. Duas dezenas de pequenas vilas de comércio se amontoam na costa norte ‒ vilas de lama e sangue*, alguns dizem: molhadas, úmidas e cheias de miséria, onde aventureiros, trapaceiros, exilados e* prostitutas das Cidades Livres e dos Sete Reinos vêm fazer fortuna.
Há riquezas escondidas entre as selvas, pântanos e taciturnos rios banhados pelo sol do sul, sem dúvida, mas, para cada homem que encontra ouro, pérolas ou especiarias preciosas, há uma centena que encontra apenas a morte. Os corsários das Ilhas Basilisco atacam esses assentamentos, levando cativos que serão mantidos confinados em Garra ou na Ilha das Lágrimas antes de serem vendidos para os mercados de carne da Baía dos Escravos, ou para as casas de prazer e jardins de prazer de Lys*.*
(TWOIAF, Sothoros)
Embora seja muito vago afirmar que esta é uma origem em potencial para a mulher morena (pois, virtualmente, é o mesmo que dizer que ela poderia ter vindo de qualquer lugar do mundo), a menção de que prostitutas das cidades livres que se aventuram em Sothoryos podem acabar em Lys pode nos ajudar a esclarecer algumas dúvidas sobre seu comportamento esquisito (vide abaixo).
Portanto, ainda que não possamos determinar sua origem, a análise acima nos permite começar a descartar algumas opções. Inclusive, percebemos que a mulher morena tem um pele de uma tonalidade ímpar (teca oleada), o que pode indicar que ela pertença a um povo que ainda não foi descrito pro Martin.
Entrentanto, há uma última analogia que não pode deixar de ser registrada:
“Não quero nenhuma de suas sobras”, dissera desdenhosamente ao irmão, mas quando Olho de Corvo declarou que a mulher seria morta se não a aceitasse, fraquejou. A língua dela tinha sido arrancada, mas exceto por este pormenor estava intacta, e era também bela, com uma pele tão castanha quanto teca oleada. Mas, por vezes, quando a olhava, surpreendia-se lembrando da primeira mulher que o irmão lhe dera*, para fazer dele um homem.*
(AFFC, O Pirata)
Sendo Euron alguém conhecido por apreciar jogos mentais, a escolha de alguém que se assemelhasse com a primeira mulher que Victarion havia recebido pode ter sido deliberada. Este detalhe pode ter sido essencial para capturar a memória afetiva de Victarion e fazer com que ele mais facilmente aceitasse o presente de Euron.
Não fica claro se por “primeira mulher” Victarion está falando de sua primeira esposa (que morreu no parto de uma menina natimorta) ou se ele estaria se referindo à primeira mulher com que se deitou. Curiosamente, esta dúvida se aprofunda quando vemos observamos os pensamentos de Victarion no capítulo liberado de Os Ventos do Inverno:
[Spoilers de Os Ventos do Inverno]Enquanto estava na proa do Vitória de Ferro vendo os navios mercantes de Uma-orelha desaparecem um a um ao oeste, as faces dos primeiros inimigos que matara voltaram a Victarion Greyjoy. Ele pensou em seu primeiro navio, em sua primeira mulher.
(TWOW, Victarion)
De todo modo, o importante é que a mulher morena desperta nele esta memória afetiva. Com efeito, o próprio Victarion não parece compreender porque aceitou a mulher ou mesmo porque não cumpriu seu desejo de sacrificá-la, a despeito de ter a perfeita noção de que qualquer presente de Euron é um presente de grego:
A mulher morena não respondeu. Euron havia cortado sua língua antes de dá-la para ele. Victarion não duvidada que o Olho de Corvo tivesse dormido com ela também. Era o jeito do seu irmão. Os presentes de Euron são envenenados, o capitão lembrara a si mesmo no dia em que a mulher morena veio a bordo*. Não quero nenhum de seus restos. Decidira, então, que cortaria a garganta dela e a atiraria ao mar, um sacrifício de sangue para o Deus Afogado.* De alguma forma, contudo, jamais chegara nem perto de fazer isso*.*
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Pior, esta sensação de familiaridade poderia justificar também a razão pela qual Victarion confiava seus segredos a ela. Não que a mudez da mulher não tenha parte nisso. Afinal, é o que os próprios pensamentos de Victarion indicam:
Cada vez mais, temia que tivessem navegado longe demais, em mares desconhecidos onde até mesmo os deuses eram estranhos... mas, essas dúvidas, ele confidenciava apenas para sua mulher morena, que não tinha língua para repeti-las.
[...]
Victarion podia falar com a mulher morena. Ela nunca tentava responder.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Contudo, isto não explica outros momentos em que Victarion observa ter uma conexão com a mulher morena que independem da confidencialidade verbal. Para estas situações, a memória afetiva me parece funcionar como uma justificativa muito melhor:
A mulher morena sabia o que ele queria sem que tivesse que pedir. Quando ele relaxou em sua cadeira, ela pegou um pano úmido e macio da bacia e o colocou em sua testa.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Outros exemplos disto são a forma como Victarion parece confiar na mulher morena não só mais do que em Meistre Kerwin, capturado em escudoverde (o que é até justificável, pois os nascidos do ferro parecem desconfiar dos meistres, especialmente em um que servia a uma Casa inimiga derrotada)...
– Pegue esta sujeira e vá. – Victarion acenou para a mulher morena. – Ela pode fazer o curativo.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
... mas talvez até mais do que confia em Moqorro:
– [...] Gostaria que eu o sangrasse?
Victarion agarrou a mulher morena pelo pulso e a puxou para si.
Ela fará isso. Vá orar ao seu deus vermelho. Acenda seu fogo, e me diga o que vê.
Os olhos escuros de Moqorro pareceram brilhar.
– Vejo dragões.
(TWOW, Victarion)
No aspecto sexual, mesmo diante de sete mulheres treinadas para o prazer pelo Yunkaítas, Victarion diz-se satisfeito com sua mulher morena até que chegue o dia de tomar Daenerys para si:
Os senhores de escravos de Yunkai as haviam treinado no caminho dos sete suspiros, mas não era para isso que Victarion precisava delas. Sua mulher morena era suficiente para satisfazer seus apetites até que pudesse chegar a Meereen e reivindicar sua rainha.
(ADWD, Victarion)
A confiança na mulher morena é a tal ponto acentuada, que Victarion passa a suspeitar que seu meistre poderia estar causando a infecção do ferimento em sua mão. Ela é uma das duas únicas pessoas tratando seu ferimento em todo o barco, mas ele não só a exclui da lista de suspeitos como confidencia a ela suas suspeitas sobre Kerwin:
– Se não foi Serry, então quem? – perguntou para a mulher morena. – Poderia aquele rato daquele meistre estar causando isso? Meistres conhecem feitiços e outros truques. Ele pode estar usando um para me envenenar, esperando que eu o deixe cortar minha mão fora. – Quanto mais pensava nisso, mais provável lhe parecia. – O Olho de Corvo o deu para mim, criatura miserável que é. – Euron tirara Kerwin de Escudoverde, onde estava a serviço de Lorde Chester, cuidando de seus corvos e ensinando seus filhos, ou talvez de outros nas redondezas. E como o rato guinchava quando um dos mudos de Euron o entregara a bordo do Vitória de Ferro, arrastando-o pela corrente em seu pescoço. – Se isso é por vingança, ele se engana comigo. Foi Euron quem insistiu que ele fosse levado, para evitar que causasse danos com suas aves. – Seu irmão lhe dera três gaiolas de corvos também, para que Kerwin pudesse mandar notícias de sua viagem, mas Victarion proibira que fossem soltas. Que fique de molho, se perguntando o que está acontecendo.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
É claro que pode-se arguir que Victarion simplesmente é burro e não vê coisas que simplesmente estão acontecendo sob seu nariz. Entretanto, o que me surpreende neste diálogo é que ele cita Kerwin ser um presente envenenado de Euron como motivo para sua suspeita, sendo que ele está falando diretamente para o primeiro presente que ele mesmo julgou envenenado.
Assim, me parece que isto demonstra que Victarion realmente desenvolveu um elo afetivo com a mulher, não APENAS que ele é burro.

Comportamentos e habilidades curiosos

A mulher morena é estranha e age de forma estranha.
A primeira coisa a se registrar são as suspeitas do fandom. Os leitores em geral acreditam que a mulher morena espia Victarion para Euron. Pouquíssimos arriscam dizer que ela é uma espiã dos magos de Qarth (Warlocks). Entretanto, tanto os primeiros quanto os últimos dizem que a espionagem se dá de forma mágica.
Alguns dizem que Euron entra na pele da mulher morena (assumindo como verdadeira a teoria de que Euron é um troca-peles poderoso) para interagir com Euron. Outros dizem que Euron ou os warlocks simplesmente usam os ouvidos e olhos da mulher morena para clariaudiência ou clarividência, sem propriamente ter controle sobre ela.
Porém, eu não acredito que essas especulações tenham fundamento textual, mas partem de um sentimento geral de suspeita que é causado pelo que está no texto. Examinemos cada caso.
Lembram-se que eu disse que a menção de O Mundo de Gelo e Fogo sobre “prostitutas das cidades livres que se aventuram em Sothoryos poderem acabar em Lys” iria nos ajudar a esclarecer o comportamento esquisito da mulher morena? Pois bem, chegou a hora.
Victarion estava guerreando no Vago, quando retorna a sua cabine para ter com a mulher morena:
Em sua apertada cabine de popa, foi encontrar a mulher morena, úmida e pronta*; a batalha talvez também tivesse aquecido seu sangue.*
(AFFC, O Pirata)
Não é estranho que uma mulher que havia sido capturada e entregue a Victarion como uma escrava estivesse “úmida e pronta” assim que seu atual captor irrompesse pela porta vestido em armadura, suado e sangrando?
É claro que simplesmente poderíamos, como Victarion (mau sinal...), assumir que a batalha a tivesse excitado. Ou que Victarion seja mais atraente do que podemos pensar.
Mas não seria igualmente possível pensar que este seria um indício de que a mulher morena tem experiência como concubina?
É sabido que Martin fez com que os meistres da Cidadela tivesse um conhecimento de medicina mais avançado do que aqueles disponíveis para os praticante da medicina da Idade Média do mundo real. Entretanto, não está claro que este grau avançado de desenvolvimento também aconteça nas demais civilizações do resto do mundo que Martin criou.
Na verdade, parece que não, pois Mirri Maz Durr cita que aprendeu artes curativas com o Arquimeistre Marwyn, o que parece indicar que a Cidadela detém os melhores conhecimentos médicos do mundo:
Uma cantora de lua de Jogos Nhai deu-me de presente as suas canções de parto, uma mulher do seu povo cavaleiro ensinou-me as magias do capim, dos grãos e dos cavalos, e um meistre das Terras do Poente abriu um cadáver e mostrou-me todos os segredos que se escondem sob a pele.
Sor Jorah Mormont interveio.
– Um meistre?
– Chamava-se Marwyn – respondeu a mulher no Idioma Comum. – Do mar. Do outro lado do mar. As Sete Terras, disse ele. Terras do Poente. Onde os homens são de ferro e os dragões governam. Ensinou-me esta língua.
(AGOT, Daenerys VII)
Ocorre que a mulher morena parece ter bons conhecimentos sobre como tratar um ferimento:
A morena lavou o ferimento com vinagre fervido*. [...] Victarion dirigiu-se à morena enquanto ela enfaixava sua mão com* linho*. [...]*
(AFFC, O Pirata)
A mulher morena estava enfaixando sua mão com linho limpo, enrolando a faixa seis vezes ao redor da palma, quando Aguado Pyke apareceu [...].
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Em verdade, o tratamento que a mulher morena vinha aplicando a Victarion era justamente o que o meistre aplicava após punção dos ferimentos:
Sangue era bom. Victarion grunhiu em aprovação. Sentou-se firme enquanto o meistre secava, apertava e limpava o pus, com quadrados de tecido macio fervidos em vinagre*. Quando terminou, a água limpa na bacia tinha se tornado uma sopa espumante. A visão por si só podia fazer qualquer homem enjoar.*
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
A mulher morena até demonstrou ter mais intimidade com este tipo de ferimentos do que o próprio meistre Kerwin. O rosado meistre não é referência de estômago forte, claro, mas a reação de nojo da mulher morena é tão econômica, que parece apontar para certa prática no assunto:
O pus que irrompeu era grosso e amarelo como leite azedo. A mulher morena torceu o nariz para o cheiro, o meistre segurou a ânsia de vômito e até Victarion sentiu seu estômago revirar.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Por outro lado, apesar de ficar parecendo pela passagem abaixo que Victarion também poderia conhecer estes procedimentos (o que não seria impossível, já que o Cão de Caça demonstrou conhece-los também quando estava com Arya), eu acredito que Victarion simplesmente está com a memória ruim, pois quem lavou primeiro o ferimento foi a mulher morena (vide citação acima):
Um arranhão de um gatinho, Victarion disse para si mesmo, depois. Lavara o corte, despejara um pouco de vinagre fervido sobre ele, enfaixara-o e deixou de pensar naquilo, acreditando que a dor diminuiria e a mão se curaria com o tempo. Em vez disso, a ferida tinha infeccionado, até que Victarion começou a se perguntar se a lâmina de Serry estava envenenada. Por que mais a ferida se recusaria a sarar?
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
De fato, como o procedimento está correto e a medicina westerosi é mais avançada do que a medieval, muitos leitores se teorizam que a mulher morena poderia estar de alguma forma envenenando Victarion, ou ao menos matando-o devagar ao fazer algo para não permitir a cicatrização do corte.
Há até mesmo uma passagem em que vimos que o único procedimento sugerido pelo meistre que não é adotado pela mulher morena é tentar drenar o ferimento em local aberto:
O meistre sugerira que o ferimento seria mais bem drenado no convés, no ar fresco e à luz do sol, mas Victarion proibira. Aquilo não era algo que sua tripulação pudesse ver. Estavam a meio mundo de casa, longe demais para deixá-los ver seu capitão de ferro começar a enferrujar.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Caso ela realmente estivesse piorando a condição de Victarion, evitar o convés seria uma atitude compatível. O problema é descobrir com que finalidade ela estaria fazendo isso. O que nos leva ao próximo e principal item desta lista
· Reconhece Moqorro como perigoso
A reação explosiva da mulher morena ao ver Moqorro parece significar que ela o acha perigoso. Mas perigoso como? Para quem? Bem, a resposta depende de saber quem realmente é a mulher morena e quais seus propósitos.
Aqueles que acham que ela está sendo possuída magicamente ou servindo de olhos e ouvidos para poderes de clarividência e clariaudiência, seja por parte de Euron ou dos Warlocks, pensam que estes sabem que Moqorro põe seus planos em riscos, pois os poderes do sacerdote vermelho permitem saber que a mulher morena é uma marionente.
Já aqueles que acreditam que a mulher morena está envenenando ou adoecendo Victarion pensam que a reação dela se deu em decorrência de que ela sabe dos poderes “curativos” do sacerdote e que todo o trabalho que ela está tendo será perdido no momento em que Moqorro entrar em ação.
E há aqueles que acreditam que a mulher morena sabe que Moqorro não está ali para curar Victarion, mas sim para trazer um sofrimento ainda maior. Nesta hipótese a mulher morena estaria tentando avisar Victarion sobre o perigo que Moqorro representa, mas não tem como expressar isso devido à mudez e à personalidade tosca de Victarion.
Porém, todos concordam em um ponto: a mulher reconheceu Moqorro. A pergunta não deveria ser “que tipo de perigo ela acha que Moqorro representa”. Isso acho dificílimo de adivinhar. Mas parece um pouco mais factível se especular sobre “de onde ela conhece Moqorro ou alguém como Moqorro”.
Para isso precisamos listar as características visíveis sobre Moqorro. Aquelas que fariam alguém entender quem ele é logo à primeira vista:
  1. Porte físico impressionante
  2. Cor de pele singular
  3. Tatuagens de chamas no rosto
Quanto ao porte físico, duvido que isso faça alguma diferença para a mulher morena, haja vista que há homens como Andrik, o Sério entre os homens de ferro.
A cor de pele da pele de Moqorro pode gerar duas reações. Uma demonstração simples de racismo, como ocorreu com os primeiros Ghiscari a chegarem às Ilhas do Verão (TWOIAF, As Ilhas do Verão). Ou a cor pode realmente vir de algo que lembre “um homem que foi tostado nas chamas até que sua carne carbonizou e caiu soltando fumaça de seus ossos”.
Nesse último caso, a cor da pele de Moqorro denunciaria algum grau avançado de poder místico. O fato de a mulher morena ter percebido isto induz a pensa que ela pode ter tido algum encontro com este tipo de pessoa no passado. Um encontro traumático, claro.
Por fim, se forem as tatuagens, simplesmente a mulher morena tem algo contra sacerdotes de R’hllor.
A parte interessante é que Moqorro não mostra interesse algum na mulher. Mas Moqorro não mostra interesse algum em ninguém, nem mesmo os tripulantes que pediram que Victarion o matasse.
Os homens de Euron são compostos de “mudos e mestiços”. Isso quer dizer que os mestiços não são necessariamente mudos. Vimos, inclusive, que um dos filhos bastardos mestiços de Euron fala. Portanto, cortar a língua da mulher morena foi uma atitude deliberada de Euron. Ou ela era parte da tripulação como os demais mudos?
Por outro lado, diante de tantas possibilidades de origens estrangeiras para a mulher, fica a pergunta: ela fala a língua comum? Sequer entende o que Victarion está falando?

Propósito e futuro

Se a mulher é uma espiã de Euron, então Euron está fazendo uma farta colheita. Mas de que serve toda esta informação agora? Será útil a Euron ou aos Warlocks no futuro saber que Moqorro está com Daenerys? Ou as notícias de que Daenerys está morta já podem ser suficientes?
Em suma, que futuro existirá para a mulher morena se tantas pessoas apostam na morte de Victarion? O próprio Victarion pensa em fazê-la de camareira:
– Ela será minha esposa, e você será minha camareira. – Uma camareira sem língua nunca deixaria escapar nenhum segredo.
Ele poderia ter dito mais, mas foi então que o meistre chegou, batendo na porta da cabine, tímido como um rato.
(ADWD, O Pretendente de Ferro)
Há também a possibilidade de que ela carregue um filho de Euron em si. Afinal, o próprio VIctarion suspeita de que Euron já havia se deitado com a mulher antes de passa-la a ele.
Por terminar as especulações sem spoilers, seria a mulher morena uma feiticeira com poderes próprios e um objetivo claro em Meereen?

Especulações com spoilers de Ventos do Inverno

O capítulo de Victarion em Ventos do Inverno não é completo. Ele termina com algumas notas sem transcrição literal dos eventos:
❖ A mulher morena sangra o braço de Victarion em uma bacia. Victarion esfrega o sangue no berrante, murmurando suavemente para ele “​Meu berrante… dragões…”;
❖ Victarion masturba a mulher morena, não há penetração. Ele pensa que não gosta de transar antes da batalha;
❖ A mulher morena o ajuda a colocar a armadura, ele faz um discurso vibrante para a tripulação, e eles velejam em direção a Meereen.
(TWOW, Victarion)
Como a mulher morena é citada em todas as notas finasi, algumas perguntas ficam no ar:
Se Euron ou os Warlocks estão assistindo VIctarion reinvindicar o berrante via mulher morena, eles teriam algo preparado para fazer caso isso acontecesse? Fazia parte dos planos?
Qual é a importância de Victarion masturbar a mulher morena? Teria alguma relação com o braço que ele usa para fazer isso? Victarion usaria seu braço fumacento para fazer algo do tipo? Por que diabos ele faria algo do tipo?
A mulher morena fica para trás no navio quando os nascidos no ferro descem para atacar Meereen. Ela pode sabotar alguma parte dos planos? Teria alguma relação com o Atador de Dragões?
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2020.01.04 03:14 altovaliriano O Leão na teia da Aranha

Texto original: https://warsandpoliticsoficeandfire.wordpress.com/2016/02/05/heirs-in-the-shadows-the-young-lion/
Autores: GoodQueenAly; @BryndenBFish
Título original: Heirs in the Shadows - The Young Lion

Introdução

Tyrek Lannister pode ser considerado pelos leitores pouco mais que um personagem terciário em As Crônicas de Gelo e Fogo. A avaliação não é irracional: nem mesmo mencionado pelo nome no primeiro livro, aparecendo apenas duas vezes antes de seu misterioso desaparecimento na revolta violenta em Porto Real em A Fúria dos Reis , o jovem Tyrek merece pouco mais do que uma nota de rodapé entre seus parentes Lannister mais proeminentes, muito menos no grande elenco de personagens. Caso notado, ele pode ser lembrado apenas como uma vítima, no mesmo plano que seu primo Willem: um infeliz peão das ambições dinásticas de Lannister, um inocente assassinado pelo povo revoltado da capital.
No entanto, Tyrek desapareceu tão completamente - e tão misteriosamente - que, afinal, seu "simples" desaparecimento pode não ser tão simples. Em vez de ser um dos muitos corpos retirados das ruas nos dias e semanas após o tumulto, Tyrek pode estar vivo e bem (ou pelo menos relativamente bem). Ainda mais, Tyrek pode estar esperando para fazer um reaparecimento dramático em Westeros, enquanto é instruído e preparado por um improvável "aliado". Quem iria querer o jovem primo Lannister e o que poderia estar reservado para ele no futuro?
[...]

Apresentando o Peão

Tyrek Lannister nasceu por volta de 286 dC, o único filho de Sor Tygett Lannister e sua esposa Darlessa Marbrand. Sor Tygett era o terceiro filho de Lorde Tytos Lannister, um irmão mais novo do futuro Lorde Tywin e Sor Kevan. Como os dois irmãos mais velhos de Tygett se casaram e tiveram filhos antes do nascimento de Tyrek, não houve grande pressão sobre esse terceiro filho para se casar e procriar também (embora ainda não saibamos quando Tygett e Darlessa se casaram).
Em uma família mais pobre, Tygett poderia ter sido levado para a Muralha, a Fé ou a Cidadela para reduzir os estoques familiares, mas os Lannisters eram ricos o suficiente para sustentar as famílias dos filhos mais novos. Tygett também não teve que abaixar os olhos para encontrar sua noiva: Darlessa era uma Marbrand, uma casa vassala respeitável dos Lannisters (e parente da mãe de Tygett, Jeyne Marbrand).
Na época em que o bebê Tyrek nasceu, ele era possivelmente o nono na fila de Casterly Rock (dependendo se seus primos Martyn e Willem Lannister e Joffrey Baratheon já haviam nascido e se o pai de Tyrek já havia morrido). Ainda que outros pretendentes tenham enfrentado probabilidades menores (Aegon V pode ter sido o décimo primeiro na fila no momento de seu nascimento), a possibilidade de um recém nascido sentar-se no assento dos Reis do Rochedo parecia muito improvável.
Ainda assim, o jovem Tyrek não teve nenhuma sorte. Como Lannister (e especialmente Lannister do Rochedo), neto da linha masculina de Lorde Tytos, Tyrek nunca teria falta de dinheiro ou influência. De fato, sendo a rainha uma Lannister (e havendo um herdeiro “meio”-Lannister da idade de Tyrek), carregar o nome de "Lannister" faria com que até um membro da família de status relativamente baixo como Tyrek ganhasse importância.
Seu pai, Tygett, recebeu alguns elogios durante a Guerra dos Reis Ninepenny: embora muito jovem - possivelmente até mais jovem do que Tyrek quando desapareceu - Tygett matou um homem em sua primeira batalha e depois matou um cavaleiro da Companhia Dourada. Portanto, Tyrek descendia de uma safra de boa qualidade das Terras Ocidentais e, pelo menos, poderia ter esperado se casar com uma donzela nascida nas Terras Ocidentais quando tivesse mais idade.
A rainha Cersei, no entanto, tentaria elevar seu jovem primo Lannister ainda mais do que ele poderia ter imaginado:
Não conseguiu deixar de reparar nos dois escudeiros: rapazes bonitos, loiros e bem constituídos. Um tinha a idade de Sansa, com longos cachos dourados; o outro teria talvez uns quinze anos, cabelos cor de areia, um fio de bigode e os olhos verdeesmeralda da rainha.
– Aqueles rapazes – Ned lhe perguntou– são Lannister?
Robert assentiu, limpando as lágrimas dos olhos.
– Primos. Filhos do irmão de Lorde Tywin. Um dos mortos. Ou talvez o vivo, agora que penso nisso. Não me lembro. Minha esposa vem de uma família muito grande, Ned.
Uma família muito ambiciosa, Ned pensou. (AGOT, Eddard VII)
Ned foi perspicaz em sua conclusão: a rainha Lannister teve bastante iniciativa no aprofundamento das relações dos Lannister na corte (uma característica que mais tarde ela criticaria na noiva de seus filhos, Margaery Tyrell). Consequentemente, Cersei convenceu o rei Robert a nomear o jovem Tyrek seu escudeiro, junto com o primo de ambos, Lancel (o filho mais velho de Kevan Lannister).
Não se sabe quando Tyrek começou a servir o rei, embora provavelmente não tenha sido mais de alguns anos (se muito) antes do início de A Guerra dos Tronos. Para efeito de comparação, os dois Walders em Winterfell começaram a servir Ramsay Bolton por volta dos oito ou nove e Edric Dayne a Beric Dondarrion aos dez. Assim, Tyrek deveria estar com Robert há cerca de três anos antes da morte do rei, no máximo.
Quanto mais alto o cavaleiro ou senhor, maior seria a honra de ser escudeiro (a razão pela qual, entre outras concessões, Walder Frey exigiu que seu filho Olyvar se tornasse escudeiro do então Lorde Robb Stark), e nenhuma honra maior poderia ser concedida a um menino Westerosi que ser escudeiro do próprio rei.
A nomeação como escudeiro do rei poderia ser o começo de uma carreira na corte para Tyrek, semelhante ao começo cortês do tio Tywin como um pagem para Aegon V. O príncipe Rhaegar, afinal, transformou seus escudeiros, Myles Mooton e Richard Lonmouth, em firmes aliados e amigos. Se Tyrek provasse ser um espadachim tão talentoso quanto seu pai, poderia se tornar o mestre de armas da Fortaleza Vermelha (uma posição que Tywin realmente tentou, mas falhou, em garantir para Tygett). Com um primo na Guarda Real, uma capa branca poderia até estar no futuro de Tyrek (de fato, uma colocação na Guarda Real poderia ter servido para remover cuidadosamente um excesso de Lannisters do Rochedo). Dyanne Dayne pode ter assegurado um casamento real devido à sua nomeação para a corte da rainha Mariah Martell. Um noivado com a princesa Myrcella provavelmente era impossível para um mero primo Lannister, mas na corte Tyrek não careceria de conexões poderosas - enquanto os Lannister permanecerem no poder.
No entanto, também pode ter havido um lado mais sombrio em Tyrek ter se tornado escurdeiro - um não explorado nos livros, mas que, no entanto, é importante considerar à luz do possível papel de Tyrek no futuro. Espera-se que escudeiros sigam seus cavaleiros em todos os lugares, e o exemplo de Justin Massey demonstra que Robert poderia levar seus escudeiros a lugares estranhos:
Massey quer a princesa selvagem também. Ele certa vez serviu meu irmão Robert como escudeiro e adquiriu o seu apetite por carne feminina. (ADWD, Jon IV)
Esse "apetite por carne feminina" quase certamente incluía os bordéis de Porto Real que Robert visitava com alguma frequência. Tyrek era um pouco jovem demais para participar da maneira que Stannis disse que Justin Massey fazia (ou mesmo da maneira que Lancel poderia ter feito, se incentivado por Robert), mas ele não teria que passar tempo com nenhuma prostituta para observar algo muito mais perigoso que os adúlterios do rei.
Os leitores sabem que Robert tinha pelo menos um bastardo de uma prostituta de Porto Real: a bebê Barra, nascido de uma jovem prostituta de Chataya. A bebê, como todos os bastardos conhecidos de Robert, tinha o cabelo preto de seus antecedentes Baratheon - um fato que Mindinho não deixou de notar, o fez levar Eddard para ver a bebê e revelar a conspiração incestuosa dos Lannister.
Certamente, seria demais supor que Tyrek, um garoto de 12 anos, tivesse descoberto que os verdadeiros filhos bastardos de Robert tinham aparência de Baratheon, e que seus primos em primeiro grau eram, na verdade, bastardos nascidos do incesto de Lannisters. No entanto, Tyrek talvez tenha visto demais, mesmo que ele próprio não tivesse juntado as peças do quebra-cabeça. O escudeiro mais jovem do rei provavelmente viu em primeira mão os filhos bastardos de cabelos pretos do rei (com nove bastardos não registrados do rei, parece provável que pelo menos um outro além de Barra e Gendry tenha nascido onde o rei passava a maior parte do tempo: a capital) e, presumivelmente, era amigo de confiança e companheiro dos filhos de aparência Lannister da rainha. Se esse conhecimento fosse posto a disposição de um indivíduo mais ardiloso do que o inocente Tyrek, o garoto poderia se tornar uma testemunha útil na derrubada do regime de Baratheon-Lannister.
No entanto, Tyrek não precisaria servir Robert como escudeiro (ou segui-lo em suas aventuras lascivas) por muito tempo. Em 298 dC, Robert morreu – aparentemente de um acidente de caça, mas de fato por um meio-assassinato criado por Cersei para impedir a descoberta de seu incesto. O veículo que ela usou foi o primo de Tyrek e também escudeiro, Lancel Lannister.
Aparentemente, Tyrek não acompanhou o rei em sua última caçada, mas ele pode ter ouvido trechos da trama via Lancel. Seu status duplamente íntimo - como primo em primeiro grau e companheiro escudeiro (os dois parecem ter sido os únicos escudeiros de Robert no momento de sua morte) - dão a Tyrek maior potencial de conhecer os fatos por trás do assassinato de Robert - fatos que também serviriam para derrubar Linha real de Cersei.
Naquele momento, Tyrek era simplesmente um antigo escudeiro real, então alocado na corte de Joffrey sem qualquer objetivo maior. Os eventos, no entanto, logo perturbariam a existência relativamente pacífica de Tyrek e o empurrariam para uma tempestade de caos político - e ambição secreta.

Um Desaparecimento Estranho

Para acrescentar a todo o mistério que cerca seu desaparecimento, em A Fúria dos Reis, Tyrek é visto apenas uma vez:
Lorde Gyles tossia, enquanto o pobre primo Tyrek vestia sua capa de noivo de pele de esquilo e veludo. Desde seu casamento com a pequena Senhora Ermesande, três dias antes, os outros escudeiros tinham começado a chamá-lo de “Ama de Leite”, perguntando-lhe que tipo de cueiros sua noiva usara na noite de núpcias. (ACOK, Tyrion VI)
Longe de ser a noiva filha de um glamuroso cortesão que Tyrek esperava que sua posição de corte lhe desse - ou mesmo da donzela das Terras Ocidentais que ele poderia ter antecipado em circunstâncias normais - o "primo pobre" de Tyrion fora casado com Ermesande Hayford. Dinasticamente, a combinação foi agradável: a Casa Hayford era uma respeitável dinastia das Terras da Coroa, com pelo menos uma casa de cavaleiros juramentada. Sua atual dama, Ermesande, era a última de sua linhagem, o que significa que as terras e rendas de Hayford seriam graciosamente transferidas para os Lannisters.
Infelizmente para Tyrek, Ermesande também era um bebê. O novo lorde de Hayford teria que esperar até os vinte e poucos anos para contemplar a consumação de seu casamento. No entanto, se era pessoalmente humilhante ser casado com uma garota ainda não desmamada, Tyrek não tinha instância para reclamar. Ele, como todos os seus contatos Lannister, era um peão em um grande jogo de política dinástica e se casaria na forma que pudesse trazer maior vantagem à Casa Lannister.
Tyrek, no entanto, não viu sua noiva infantil amadurecer. Em 299 dC, Tyrion arranjou o casamento da prima de Tyrek, Myrcella, com o príncipe Trystane Martell, de Dorne. A corte fez um evento para acompanhar Myrcella até as docas para vê-la partir para Lançassolar, e Tyrek - como primo da princesa e também representante dos interesses de Lannister - juntou-se à família real, cortesãos, guardas reais e até o Alto Septão na procissão. Um homem na corte, no entanto, estava visivelmente ausente: o mestre dos sussurros, Varys.
A cidade estava em um clima nefasto. A Guerra dos Cinco Reis havia isolado a Capital dos tradicionais celeiros de Westeros. Com as Terras Fluviais em chamas e a Campinas firmemente apoiando de Renly Baratheon no ínico, Porto Real teve que confiar em Rosby e Stokeworth para trazer suprimentos, e as restrições resultaram em fome entre as classes mais pobres da cidade. O que o jovem rei Joffrey não possuía em charme e tato político, mais do que compensava em crueldade. Tyrion, sua Mão, foi responsabilizado pela má sorte após a morte de Robert, odiado por sua retaliação contra Janos Slynt e Pycelle e por seus seguidores mercenários e selvagens. Rumores sobre o incesto dos Lannister e a corrupção real em geral já haviam se espalhado pelas ruas; o ar saturado precisava apenas da faísca certa para explodir.
Quando explodiu, a fúria foi horrível de se ver. Sor Aron Santagar, o mestre de armas da Fortaleza Vermelha, foi espancado até a morte por quatro homens, enquanto Sor Preston Greenfield, da Guarda Real, foi retalhado e esfaqueado tão brutalmente que sua armadura branca ficou manchada de vermelho e marrom. O Alto Septão fora arrancado de sua liteira e despedaçado por membros da multidão, e a Senhora Lollys Stokeworth fora estuprada nas ruas por vários homens. Nove Mantos Dourado foram mortos pela multidão, enquanto mais 40 da Patrulha da Cidade foram feridos nos combates; o número de plebeus mortos não foi registrado, mas provavelmente foi muito maior.
Não foi registrado entre os mortos, porém, o jovem Tyrek Lannister. Presumivelmente, "Ama de Leite" estava na "longa comitiva de outros cortesãos" atrás da liteira do Alto Septão, formada no final da procissão real. Esse posicionamento explicaria por que foi Horas Redwyne, também naquele grupo, quem informou que Tyrek não havia retornado. Tyrion, assumindo o comando logo após o tumulto, ordenou a Jacelyn Bywater, seu novo Comandante da Patrulha da Cidade, que encontrasse seu primo desaparecido:
Tyrek continuava desaparecido, tal como a coroa de cristais do Alto Septão. Nove homens de manto dourado tinham sido mortos, e havia quarenta feridos. Ninguém se incomodara em contar quantos haviam morrido entre a multidão.
– Quero Tyrek, vivo ou morto – Tyrion disse secamente quando Bywater se calou. – Ele não passa de um garoto. Filho do meu falecido tio Tygett. O pai sempre foi bom para mim. (ACOK, Tyrion IX)
Com a confusão e o caos do tumulto, não surpreende que Tyrek Lannister tenha se perdido. Sua aparência óbvia de Lannister e sua associação com a família real pode ter tornado Tyrek um alvo fácil para os manifestantes. Se ele fosse tratado com tanta brutalidade quanto Sor Preston ou Sor Aron, seu corpo poderia nunca ter sido encontrado entre os muitos mortos.
No entanto, o que é insatisfatório nessa explicação simples é o foco que o desaparecimento de Tyrek é dado por vários livros, muito depois que os incêndios na Baixada das Pulgas foram extintos. Em três momentos distintos, Tyrek e o mistério de seu desaparecimento após o tumulto são expressamente mencionados, muito embora nenhum personagens presentes pareça ser capaz de determinar o destino do pobre escudeiro.
O primeiro momento ocorre durante A Tormenta de Espadas. Tyrion, tentando uma reunião com seu pai (a nova Mão), encontra Sor Addam Marbrand na escada. Um cavaleiro bastante talentoso e amigo de infância de Jaime Lannister, Addam havia sido nomeado o novo comandante da Patrulha da Cidade, mas sua primeira tarefa provou ser um fracasso:
– Você vem dos aposentos de meu pai? – perguntou.
– Venho. Temo não tê-lo deixado no melhor dos humores. Lorde Tywin acha que quatro mil e quatrocentos guardas são mais do que suficientes para encontrar um escudeiro perdido, mas seu primo Tyrek continua desaparecido.
Tyrek era filho do falecido tio Tygett, um rapaz de treze anos. Desaparecera no tumulto, não muito tempo depois de se casar com a Senhora Ermesande, um bebê de peito que calhava ser a última herdeira sobrevivente da Casa Hayford. E provavelmente a primeira noiva na história dos Sete Reinos a enviuvar antes de ser desmamada.
– Também não fui capaz de encontrá-lo – confessou Tyrion. (ASOS, Tyrion I)
Pode ou não ser verdade que Sor Addam enviou todos os quatro mil guardas da cidade à procura do jovem Tyrek, mas o tamanho de sua força-tarefa em potencial só fez com que o fracasso em encontrar essa relação Lannister fosse maior – e mais intrigante. Sor Addam é um comandante respeitado, mas ninguém na capital era capaz de revelar maiores informações sobre o paradeiro de Tyrek, ou mesmo mais detalhes sobre o que aconteceu com o escudeiro Lannister durante o tumulto - um fato tornado mais notável em face da autoridade emanada por Addam. Lorde Tywin Lannister manifestou sua intenção de encontrar seu sobrinho, porém nem mesmo a mágica de seu nome conseguiu extrair mais uma gota de informação daqueles que poderiam saber sobre Tyrek.
É verdade que, durante a rebelião de Robert, Jon Connington não conseguiu extrair informações do povo de Septo de Pedra: ele havia oferecido subornos e ameaçado com punições, mas as pessoas se recusavam a revelar onde Robert Baratheon estava escondido na cidade. No entanto, lorde Tywin tinha uma reputação muito mais pavorosa do que Lorde Jon.
]Tywin não tinha vergonha de anunciar sua brutal extinção dos Reynes e Tarbecks por seu desafio aos Lannisters; alguns dos portorrealenses podem até se lembrar do Saque no fim da rebelião de Robert, quando os homens de Tywin mataram crianças na rua e estupraram mulheres em suas casas. Se os portorrealenses mentissem agora e fossem flagrados na mentira mais tarde, a retribuição que Tywin traria sobre eles e seus vizinhos seria implacável.
Então, por que ninguém deu a menor dica sobre o que aconteceu com Tyrek? Não há rumor de que ele teria sido morto (embora Bronn considerasse essa como a opção mais provável); em vez disso, Tyrek parece ter simplesmente sumido.
Mais tarde, o próprio Tywin enfatizou seu desejo de encontrar o filho de seu irmão em uma reunião do pequeno conselho:
– Dragões e lulas-gigantes não me interessam, independentemente de quantas cabeças tenham – disse Lorde Tywin. – Seus informantes terão por acaso encontrado algum rastro do filho de meu irmão?
– Infelizmente, nosso bem-amado Tyrek desapareceu por completo, pobre e bravo rapaz. – Varys parecia perto de rebentar em lágrimas. (ASOS, Tyrion III)
Pode-se questionar por que Tywin procuraria informações de Varys. Se milhares de policiais não puderam extrair o paradeiro de Tyrek daqueles que testemunharam o caos do tumulto, a próxima fonte de informação era naturalmente Varys e sua extensa rede de espionagem. O mestre dos sussurros pode não ser tão onisciente quanto muitos acreditam que ele é, mas seu catálogo de informantes é vasto e suas habilidades na coleta de informações são bem afiadas e praticamente inigualáveis.
Os plebeus podem relutar em admitir a oficiais sob a autoridade de Lorde Tywin que viram Tyrek assassinado e seu corpo destruído ou despejado no Água Negra, mas declarações casuais feitas em ambientes mais informais podem ser facilmente captadas por um agente da Varys e entregues ao mestre de sussurros. Era assunto oficial da coroa desde imediatamente após o tumulto encontrar Tyrek Lannister; era, ostensivamente, a responsabilidade premente de Varys coletar qualquer informação sobre esse ponto.
No entanto, embora Varys ostensivamente não tenha recebido informações, sua conduta nessa cena deve ser analisada. Não foi a primeira vez que Varys exibiu teatralmente uma tristeza dramática diante de um Lannister. Em A Fúria dos Reis, Tyrion organizou a prisão de Janos Slynt e seu exílio na Muralha, muito embora Slynt tivesse se recusado a revelar quem o havia ordenado a perseguir os assassinatos do bebê Barra e sua mãe. Após a cena com Slynt, Tyrion teve a seguinte conversa com Varys:
– [...] Foi a minha irmã. Foi isso que o Ah... tão... leal Lorde Janos se recusou a dizer. Cersei enviou os homens de manto dourado àquele bordel.
Varys sufocou um riso nervoso. Então, ele sempre soubera.
– Não me havia contado essa parte – Tyrion disse, acusadoramente.
– A sua querida irmã – Varys respondeu, tão desgostoso que parecia perto das lágrimas. – É duro contar isso a um homem, senhor. Tive receio de como receberia a notícia. É capaz de me perdoar? (ACOK, Tyrion II)
Mais uma vez, Varys conhecia um segredo que a Mão Lannister não conhecia. Encurralado para revelar a verdade ou passar uma mentira plausível, Varys optou por lágrimas dramáticas para transmitir uma sensação de pesar real à situação em ambos os casos. Suas habilidades na pantomima não haviam desvanecido, apesar de seus anos fora da profissão: como um pantomimeiro perfeito, Varys estava utilizando uma distração em sua demonstração de tristeza para desviar as atenções do público das questões prementes reais apresentadas a ele.
O truque não funcionou em nenhum dos dois homens - Tyrion insistiu em maior transparência do mestre dos sussurros, e Tywin estava pronto para "expressar a sua óbvia insatisfação" antes de ser desviado por Kevan - mas o fato de Varys usar a mesma tática duas vezes, diante de público similar, pode sugerir que Varys está mais uma vez privando os Lannisters de um segredo e que ele sabe exatamente o que aconteceu com o jovem Tyrek.
A conversa de Marbrand com Tyrion, no entanto, não seria a última vez que o herdeiro de Cinzamarca comentaria o caso do desaparecimento de Tyrek. Ao partir da capital, Jaime Lannister levou seu amigo de infância consigo. Permanecendo como convidados em Hayford - o assento brevemente ocupado por Tyrek - Addam falou o seguinte sobre a situação:
– Eu mesmo liderei uma busca, por ordens de Lorde Tywin – interveio Addam Marbrand enquanto tirava as espinhas de seu peixe –, mas não descobri mais do que o Bywater antes de mim. O rapaz foi visto pela última vez a cavalo, quando a força da turba quebrou a formação de homens de manto dourado. Depois disso... Bem, sua montaria foi encontrada, mas o cavaleiro não. O mais provável é terem-no derrubado e matado. Mas, se foi assim, onde está o corpo? A multidão deixou os outros cadáveres no local, por que não o dele? (AFFC, Jaime III)
Addam Marbrand levanta um ponto importante. Os corpos de Santagar e Greenfield foram descobertos mais tarde - mutilados, quase a ponto de não serem reconhecidos, mas identificáveis ​​-, sendo que a multidão não faz nenhuma tentativa de descartar os dois, que eram obviamente funcionários da corte. Certamente, o castigo pelo assassinato de um Lannister, primo em primeiro grau do rei (assumindo que a multidão soubesse quem Tyrek era), seria terrível. No entanto, o assassinato alguém de nascimento nobre como Santagar, ou um cavaleiro da Guarda Real, provavelmente também levaria terríveis punições.
As multidões de tumultos estavam em um estado caótico, mais em busca de sangue do que em fazer cálculos frios sobre suas vítimas, e com Tyrek não teria sido diferente. Por que apenas o corpo de Tyrek seria descartado de maneira tão completa que não restava nenhum vestígio dele?
Lyle Crakehall, outro homem do oeste na companhia de Jaime, fez a seguinte observação:
– Ele teria sido mais valioso vivo – sugeriu Varrão Forte. – Qualquer Lannister traria um robusto resgate. (AFFC, Jaime III)
O pensamento, no entanto, foi rápida e efetivamente descartado por Marbrand:
– Sem dúvida – concordou Marbrand –, e no entanto nunca houve um pedido de resgate. O rapaz simplesmente desapareceu. (AFFC, Jaime III)
Mais uma vez, Marbrand foi direto ao cerne da questão. Bronn havia observado anteriormente a oferta de Varys de uma “bolsa gorda” pela devolução de Tyrek, e sem dúvida Marbrand também acreditava que o eunuco mestre de espionagem tornara pública a oferta. Havia muitas oportunidades para os portorrealenses ganharem dinheiro com o desaparecimento de Tyrek, mantendo-o como refém quando a revolta estourou ou, posteriormente, alegando conhecimento do destino de Tyrek (talvez colocando a culpa pelo assassinato em vizinhos detestados).
No entanto, não havia um pingo de informação que pudesse revelar o que aconteceu com o escudeiro Tyrek. Uma gorda bolsa Lannister raramente falhara em soltar línguas antes, mas mesmo assim os rumores do destino de Tyrek não puderam ser arrancados dos habitantes da Baixada das Pulgas.
No comentário de Marbrand, Jaime fez sua própria conclusão - que os portorrealenses, tendo matado Tyrek, jogaram seu corpo no rio por medo da ira de Tywin - mas isso é insatisfatório, mesmo para o próprio Jaime. Por um lado, Tywin não estava na capital na época do tumulto e não retornaria até a Batalha do Água Negra. Na verdade, os portorrealenses poderiam temer o retorno de Lorde Lannister, mas o corpo de Tyrek teria que ser destruído durante o tumulto (uma vez que Tyrion enviou uma equipe de busca para ele logo ao retornar à Fortaleza Vermelha), fazendo do medo de Tywin uma motivação improvável.
Aprofundando-se na questão, Jaime avaliou o que Tyrek poderia representar:
Mas, mais tarde, sozinho no quarto de torre que lhe fora oferecido para a noite, Jaime deu por si com dúvidas. Tyrek servira o Rei Robert como escudeiro, ao lado de Lancel. O conhecimento podia ser mais valioso do que o ouro, mais mortífero do que um punhal. Foi em Varys que pensou então, sorrindo e cheirando a lavanda. O eunuco tinha agentes e informantes por toda a cidade. Seria coisa simples arranjar as coisas de forma que Tyrek fosse capturado durante a confusão... desde que soubesse de antemão que era provável que a turba entrasse em tumulto. E Varys sabia de tudo, ou pelo menos era isso que gostava de nos fazer acreditar. Mas não deu nenhum aviso a Cersei sobre esse tumulto. Nem desceu aos navios para se despedir de Myrcella. (AFFC, Jaime III)
Pode parecer óbvio demais que o destino de Tyrek nos seja transmitido através dos pensamentos internos de Jaime. Jaime certamente tem todos os fatos sobre o Tyrek aqui, mas o importante a se notar é que Jaime falha em juntar as peças. Ele sabe que Tyrek era um escudeiro, sabe que Lancel também era escudeiro, sabe que Lancel efetuou o plano de assassinato de Cersei, sabe que Varys poderia ter arrebatado Tyrek - mas depois para de pensar no assunto.
O monólogo interno de Jaime pode ser comparado à chance de Arya ouvir a trama entre Varys e Illyrio nos porões da Fortaleza Vermelha em A Guerra dos Tronos. De certa forma, é muito coincidente e direto - os leitores conseguem obter um ponto de vista dos dois conspiradores astutos discutindo abertamente seus planos acerca dos Targaryens exilados - mas porque Arya é apenas uma criança, não uma ladina, seu relatório da conversa é confusa e gentilmente descartada por Eddard. Jaime pode adivinhar que Tyrek pode ser útil, mas o modo como Varys poderia usá-lo está além do desejo ou habilidade analíticos de Jaime.
A evidência não resulta em uma conclusão simples. Todos os membros desaparecidos da comitiva real haviam sido devolvidos à Fortaleza Vermelha ou tiveram seus corpos encontrados - exceto Tyrek. Uma busca realizada após o tumulto não conseguiu encontrar mais do que o palafrém de Tyrek. Uma enorme força-tarefa da Patrulha da Cidade não fez nada para dissipar o mistério em torno do desaparecimento do garoto. Varys, o especialista em espionagem, parece ter deliberadamente ocultado informações que recebeu sobre Tyrek. Para onde o garoto poderia ter ido?
Pode ser que Tyrek não tenha sido assassinado nas ruas da Baixada das Pulgas – mas que ele esteja, de fato, vivo e escondido, sob os cuidados de Varys.

O Leão na teia da Aranha

O fato de Varys ter usado o motim em Porto Real para seqüestrar o jovem Tyrek parece uma conclusão possível, até mesmo provável. É improvável que Varys tenha planejado todo o tumulto em Porto Real - as pessoas estavam com fome e raiva o suficiente para não necessitarem de preparação -, mas uma instigação sutil poderia levar os portorrealenses a se aglomerarem nos pontos desejados, dentro dos quais Varys ou seu agente na multidão poderiam arrebatar Tyrek e o colocar sob custódia da Aranha.
Se ele era de fato o mentor por trás do tumulto, Varys havia improvisado uma hábil pantomima. A mulher com a criança morta que interrompeu a procissão real fora colocada na curva de uma rua morro acima; a comitiva real não apenas se moveria devagar, mas o fim da comitiva ficaria fora de vista. É provável que a mulher e o homem que jogaram sujeira em Joffrey tenham sido plantados, colocada em posição de detonar o conhecido pavio curto de Joffrey.
A mulher que se encaixa no gosto de Varys pelo teatral; e o atirador de estrume também parece obra dele, uma vez que a sujeira foi jogada de cima de um telhado. Previsivelmente, Joffrey enviou seu "cão" para a multidão para mutilar as pessoas obedientemente e assim, como era de se eseperar, a multidão de pessoas famintas e espumando tomou a brutalidade de Sandor Clegane como incentivo para retaliar. Plantando cuidadosamente seus agentes, Varys poderia garantir que o tumulto começasse na frente do desfile real, permitindo que o rei de repente corresse perigo a fim de distrair o sequestro de Tyrek na parte de trás da procissão e antes da curva do Caminho Lamacento.
O que Varys iria querer com Tyrek? Primeiro, Tyrek tem uma forte direito de sangue a Rochedo Casterly. Embora esteja agora distante do lugar em que nasceu, Tyrek saltou algumas posições desde então. Lorde Tywin está morto, Jaime inelegível por conta de seu manto branco e Tyrion, um regicida condenado e um traidor, está há dois continentes de distância de seu assento ancestral. Cersei, a Dama de Casterly Rock, está esperando para ser julgada por incesto, adultério e regicídio; ela provavelmente terá sucesso no julgamento, mas seu domínio sobre a coroa permanece tênue. Depois de Cersei e seus filhos viria Kevan Lannister, mas Sor Kevan foi recentemente assassinado - por ninguém menos que o próprio Varys. O filho de Kevan, Lancel, se tornou religioso após a Batalha do Água Negra, renunciou ao assento em Darry para se juntar aos Filhos do Guerreiro, ao passo que Willem foi assassinado por Rickard Karstark; seu irmão gêmeo Martyn e o pequeno Janei permanecem vivos, embora o paradeiro deles seja desconhecido. O próximo reclamante seria o próprio Tyrek.
Varys precisa de um herdeiro Lannister, para estabelecer uma nova ordem política em Westeros. Por quase duas décadas, Varys e Illyrio criaram o jovem Aegon como o príncipe ideal, futuro Senhor dos Sete Reinos, um salvador glorioso para resgatar o reino do caos. A invasão estrangeira, no entanto, pode ser apenas uma parte dessa nova conquista de Aegon: qualquer conquistador bem-sucedido (especialmente um sem dragões) exige o apoio da nobreza local para não apenas derrotar seus inimigos, mas estabelecer um regime viável para o futuro.
Dorne parece preparado para apoiar o principezinho “Targaryen”: posando como filho de Elia Martell, Aegon parece pronto para incitar muitos dorneses, já inquietos, a agir contra a odiada dinastia Lannister. O próximo e ousado investimento de Aegon em Porto Real garantirá sua posição como conquistador das Terras da Tempestade, e pelo menos dois poderosos senhores da Cmapina - e um número incerto de "amigos" - parecem prontos para se juntar à sua causa.
Para o resto dos Sete Reinos, no entanto, Varys precisará formular um plano de ataque diplomático. Tyrek, um Lannister do Rochedo, um legítimo Lorde leão (assim que algumas peças forem arrancadas do tabuleiro), pode servir como um fantoche útil para ganhar as Terras Ocidentais para o futuro Aegon VI.
É claro que, para sentar o jovem Aegon no Trono dos Reis Dragão, Varys precisa derrubar o rei-criança Tommen (e se desfazer da princesa Myrcella). A hoste que o príncipe de Varys estava liderando nas Terras da Tempestade será um forte punho de aço para defender seu ponto de vista, mas Varys também precisa da luva de seda de embasamento legal para arrancar a coroa de Tommen de seus cachos dourados.
A tática mais óbvia (e verdadeira) seria provar que Tommen e Myrcella eram bastardos nascidos do incesto, sem qualquer pretensão ao Trono de Ferro, assim como qualquer outro westerosi. Sua bastardia já era um boato comum em todo o reino, graças a Stannis, mas para encerrar a discussão, Varys precisava de alguém que pudesse oferecer provas.
Tyrek esteve com o rei, possivelmente o acompanhou a bordéis e viu seus bastardos de cabelos pretos como Barra. Além disso, Tyrek poderia testemunhar o papel que Lancel desempenhou ao provocar a morte de Robert, minando ainda mais a posição de Cersei. Cuidadosamente treinado por Varys, Tyrek poderia prestar testemunho que arrebataria a herança de seus primos, abrindo caminho para Aegon restabelecer a dinastia Targaryen.
Então, uma vez que Tommen e Myrcella fossem denunciados como bastardos, Tyrek permanece como a escolha ideal para ser nomeado Senhor de Casterly Rock por seu agradecido novo rei Aegon VI (Martyn e Janei apresentariam um desafio dinástico, mas considerando que Varys não tinha escrúpulos em assassinar o pai deles [Kevan], parece improvável que ele permita que esses pretendentes rivais também vivam). Desconectado dos escândalos dos Lannister em Porto Real, Tyrek é um candidato atraente para governar o oeste e se tornar parte da nova ordem westerosi de Aegon.

Conclusão

Em 1999, George RR Martin ofereceu esta breve e tentadora opinião sobre Tyrek Lannister:
RMBoye: Pergunta simples, de verdade - será que vamos descobrir o que aconteceu com o "Ama de Leite", Tyrek?
George_RR_Martin: Sim, você vai. Tento não deixar muitas pontas soltas. Mas às vezes é preciso aguardar.
Talvez os comentários dele devam ser feitos com mais do que um grão de sal; afinal, na mesma entrevista, ele insistiu que o crescimento dos livros pararia no sexto. Talvez já tenhamos visto Tyrek, no jovem bonito, com a bolsa de dragões de ouro, que Arya nota ter morrido na Casa de Preto e Branco. Talvez a Navalha de Occam esteja correta aqui: que Tyrek foi morto no tumulto sangrento e que os manifestantes jogaram seu corpo no rio para evitar o castigo severo que os Lannisters e a coroa provavelmente lhes causariam.
No entanto, o assassinato por um plebeu desconhecido, ou uma morte inexplicável na catedral de um culto de assassinos, parece uma revelação ruim para a qual o autor precisaria aconselhar termos paciência. De fato, parece mais provável que Tyrek esteja de fato vivo e que Varys tenha os meios, motivos e oportunidades para arrancá-lo da capital e segurá-lo para seus próprios usos.
Somente Os Ventos do Inverno servirá para mostrar se Tyrek retornará com o suposto Aegon VI e ocupará seu lugar em Rochedo Casterly. No entanto, o mistério absoluto em torno do desaparecimento de Tyrek continua alimentando especulações, e os leitores podem tentar prever como é que esse escudeiro de menor importância dos Lannister retornará à narrativa de modo grandioso.
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2019.10.01 20:47 ankallima_ellen As Aventuras de Gabi nas Terras do Estrogênio – Quadragésima Sexta Semana

Transicionar é, por muitas vezes, um ato de desespero. Quiçá, a última alternativa ao suicídio. Procrastinada por anos a fio, perdidos numa vã tentativa de se adequar ao inadequável. Resolução ponderada pelos sofrimentos: os de outrora e os de porvir. Um rompimento não apenas com uma persona autoimposta, mas principalmente com as expectativas da sociedade. Pais, familiares e amigos. Não sei se foi sorte ou azar, mas o acaso me reservou um período muito conturbado para tomar essa decisão. Fervilhava uma violenta polarização política que paulatinamente negava os parcos direitos da comunidade LGBTQI+ conquistados ao longo de muitos anos de árdua luta. A famigerada ideologia de gênero ocupava lugar de destaque nos debates, afinal, menino veste azul e menina, rosa. O único casamento sacramentado pela igreja é entre um homem e uma mulher. Qualquer desvio é pura heresia. Medo era tudo o que eu conseguia sentir. Quanto tempo uma garota trans recém saída do armário e completamente despida da armadura da passabilidade duraria nessas ruas opressoras?
Claro que podia esperar um pouco para me revelar ao mundo. Viver apenas aos finais de semana na segurança da minha morada, permitiu que me apaixonasse por ela: a garota que sempre fui. Conforme ganhava asas e ansiava pela liberdade as semanas passavam cada vez mais morosamente. Sabia que minha sanidade não resistiria muito. Comecei a sondar o terreno. Posicionei-me a favor da causa LGBTQI+ em minhas redes sociais. Fui às ruas militar contra o futuro despresidente e sua cruzada fomentada pelo fanatismo religioso. As esperadas respostas qualquercoisofóbicas vieram, alguns amigos e colegas se distanciaram ou me criticaram. Contudo, o que mais doeu foi o posicionamento dos meus pais. Filho meu não vai à rua fazer política. Resigna-se à opinião de quem está há anos na indústria e sabe o que é melhor para a economia do país. Direitos humanos não são importantes, conquanto o país cresça, foi o que entendi.
Percebi que a minha transição poderia custar meus pais. As pessoas nas quais sempre me espelhei. Forjei minha personalidade para ser o orgulho deles. O filho ideal, infalível, perfeito. Sempre disponível para satisfazer suas vontades. Será que estava disposta a pagar esse preço? Eu que vivi por todos esse tempo num emaranhado emocional com eles e suprimi por anos a vontade de transicionar por puro medo de decepcioná-los. Não que eles falassem explicitamente que não aceitariam uma filha trans. De fato, em casa, nada era dito abertamente, tudo era deixado subentendido. Tanto que vivia elucubrado quais seriam suas opiniões para me moldar adequadamente. Suas atitudes, entretanto, claramente homofóbicas e transfóbicas deixavam claro o quão disruptiva seria minha revelação.
Talvez tivesse sido a adolescência prematuramente abortada que me deixara eternamente na posição de filho. Com medo de crescer e assumir o meu devido papel. Ora, há lugar mais confortável e seguro do que colo de mãe? Por quase década e meia, apesar do oceano entre nós, senti-me resignada a aceitar minha parte da barganha. Aterrorizava-me o pensamento de perder todo aquele pretenso carinho e amor. Garantiam-me que não os encontraria em nenhum outro lugar. Muito menos nos braços da amada. Família é laço de sangue. Deve vir sempre em primeiro lugar.
A análise e a profunda reflexão requerida ao longo da transição para discernir quem eu era do que havia inventado para me adequar às expectativas dos meus pais revelou o quanto havia idealizado minha infância e adolescência. Pareciam-me tão perfeitas, mas, sob o escrutínio de uma recém percebida disforia dissolveram-se em períodos de profundo sofrimento, inadequação e frustração por não ser verdadeiramente eu. E mesmo que meus pais não tenham sido agentes sencientes de toda essa repressão, precisava cortar relações, afinal um oceano entre nós não bastou, para poder me enxergar, aceitar e encontrar meu lugar no mundo. Coisa de adolescente rebelde, que deveria ter feito décadas atrás. Porém, como amadurecer se vemos nosso corpo mudando da forma errada? É muito mais confortável permanecer como uma eterna criança. Brincar de bonequinho e fingir que nada de errado está acontecendo. Quem sabe agora que retomei a adolescência do jeito certo não me encontro?

Beijos e uma ótima semana!

Gabi, a que está soterrada em pilha de trabalho e sem tempo para escrever.
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2019.09.28 20:56 masternavarro A história de uma ninhada...

Isso ficou bem maior do que eu pretendia. Estou há duas horas escrevendo no celular. Talvez esteja horrível o textão, provável que ninguém leia até o final. Só precisava escrever. Tentar minimizar o desespero que estou passando nesse momento.
Edit: O cirurgião ortopédico me ligou há pouco pra explicar a cirurgia e dizer que não teve lesão na bexiga ou órgãos internos do Pão (o que é bom sinal. Senão o quadro seria bem pior).
Mas ainda assim disse vai ser uma cirurgia complicada que tem seus riscos, mas ele me soou bem profissional e seguro da própria capacitação. Porém ele também disse que o bichinho está sentindo muita dor, e só será operado na segunda. Agora estou em agonia me imaginando nas patinhas dele, sozinho, confuso, longe das irmãs, machucado. Visitarei ele todos os dias até receber alta pra dar um carinho e dizer que tudo ficará bem.
No final de 2018, após muita deliberação, eu e minha namorada decidimos sair da casa de nossos respectivos pais e alugar um apartamento juntos. Conversávamos bastante sobre ter um bichinho de estimação e, diversas vezes, quase compramos um coelho no impulso, mas nunca aconteceu.
Minha mãe sempre teve muitos gatos a vida inteira. Ela, assim como eu, tem um laço muito forte com os felinos. Nem consigo contar de cabeça quantos já tivemos ao longo da minha vida, mas lembro de todos, suas personalidades, seus trejeitos, maneira com que demonstravam carinho. Cada um único, de sua própria maneira.
Mesmo com tantos gatos ao longo da vida, há de se imaginar que desde muito cedo comecei a compreender a mortalidade de um ser vivo, mas não foi o caso. Nossos três primeiros, Rimbaud, Porco e Arnaldo, vieram ao mundo antes de mim, e só foram embora após minha maioridade.
Foi um ano horrível, cada um dos meus companheiros, da vida inteira, partindo simultaneamente, com poucos meses de diferença entra cada um. Tentei me manter forte, ser o ‘homem da casa’. Como éramos apenas eu, minha mãe e meu irmão (um bebê na época), eu me sentia na obrigação manter a compostura e mostrar que estava tudo bem, que tudo ia ficar bem. Era durão durante o dia e chorava horrores em silêncio durante a noite.
O tempo passou, outros gatos iam e vinham, porém nunca cheguei a ter um laço emocional forte com nenhum outro, como tinha com aqueles três primeiros.
Retornando ao passado recente, novembro de 2018. Uma das gatas da minha mãe, chamada Pipi, engravidou em seu primeiro cio. Ela sempre foi magrinha e raquítica (vira lata resgatada). Até adulta ainda parecia uma filhotinha. Só descobrimos a ninhada depois que ela deu à luz.
Nasceram-se assim um casal de irmãos, um meio Maine Coon, maravilhoso, que hoje em dia é gigantesco, caminha pela casa como um rei, rebolando sua pelugem loira e charmosa, e sua irmã, feiosa, de coloração estranha, magrela e pequenina.
Como minha mãe não podia ficar com os dois, ela pediu pra que eu escolhesse um pra morar comigo e minha namorada. É claro que escolhi a feiosa raquítica. Sempre me identifiquei com os mais fraquinhos. Nomeamos ela de Micro Empreendedora Individual (MEI).
Sendo assim, foi realizado nosso desejo de ter um bichinho de estimação. Tínhamos nossa gata arisca e feiosa, que de vez em quando vem nos dar carinho, mas prefere ficar quieta no próprio canto.
Alguns meses depois, minha mãe foi novamente surpreendida com um parto repentino da Pipi. Não sabemos como aconteceu, pois tentávamos mante-la dentro de casa, para que não cruzasse novamente. Ela deve ter escapulido na surdina durante alguma madrugada.
Dessa vez, era uma ninhada de 5 gatinhos que, infelizmente, veio acompanhada de uma grave hemorragia. Minha mãe correu para o hospital veterinário 24h, no meio da madrugada, mas não conseguiram salvá-la. Tínhamos então cinco órfãos em mãos.
Sabe, é muito trabalhoso criar um gatinho órfão, ainda por cima recém nascido. Eu e minha namorada levamos os seis para nosso apartamento, com a missão de nutri-los e fazer com que sobrevivessem.
A cada duas horas, dia e noite, preparávamos uma fórmula especial para filhotes e dávamos na mamadeira pra eles. Esse processo em si já era trabalhoso. Alguns se recusavam a comer e tínhamos que dar à força, o que demorava ainda mais.
Além disso, após cada refeição, fazíamos eles arrotarem, um a um e, em seguida, usávamos algodões levemente mornos e úmidos para estimular com que fizessem cocô e xixi. Depois de dar comida, tínhamos que colocar uma compressa quente no local onde dormiam, para que mantivessem sua temperatura corporal e ficassem confortáveis.
Claro que eu não estaria escrevendo isso se fosse tudo um mar de rosas. A parte que pesa no emocional vem à seguir.
Após duas ou três semanas desse processo de criar os gatinhos, ainda não tínhamos dado nome a nenhum deles, com medo de nos apegarmos e sofrermos caso algum viesse a falecer, afinal são muito frágeis por não terem tido amamentação materna.
Apenas nos referíamos a eles por sua coloração. Eram dois gêmeos completamente amarelos, outros dois gêmeos com um misto de amarelo e branco e (todos machos) e, por fim, a outcast do grupo. Uma fêmea completamente preta.
Nessa fatídica terceira semana, houve um incidente. Eram cerca de 6 da manhã e estava na vez da minha namorada cuidar deles, enquanto eu dormia. De repente ela começa a me gritar pedindo ajuda, do lado da cama. Acordei desorientado e assustado, me apressando pra acudi-la no que fosse.
Os gêmeos amarelos caíram numa panela de água fervente que estava ao lado pra esquentar o leite, compressa, etc. Demorei alguns poucos segundos pra raciocinar o que estava acontecendo. Não me lembro muito bem da ordem dos eventos, mas tentei pegar um deles imediatamente, porém ao colocar a mão na água, o reflexo foi mais forte que eu, fazendo com que eu recuasse.
Minha namorada foi mais forte. Ela sempre é. Não conheço pessoa que consiga manter a compostura e a calma durante uma situação de crise melhor que ela.
Colocou as duas mãos dentro da água fervente e tirou os gatinhos. Corremos com eles pro banheiro, pra tratar dos ferimentos. Apenas me lembro da situação como um borrão. Eu chorando, enquanto fazia uma prensa com uma toalha molhada, minha namorada fazendo o mesmo.
De tempos em tempos essa visão me assombra quando vou dormir. Um dos gatinhos estava com ferimentos bem piores. Pedi pra minha namorada ir pra outro cômodo cuidar do que estava melhor. Disse pra ela que estava tudo bem e eu ia resolver, que ia ficar tudo bem. Mais uma vez era aquele sentimento de tentar ser o ‘homem da casa’, tentar aliviar a dor de alguém e jogar o peso nas minhas costas.
Não ia ficar tudo bem. Eu sabia muito bem disso.
Fiquei horas deitado no chão ao lado desse gatinho. Ele estava sofrendo, eu não sabia o que fazer. Tentava eu mesmo fazer com que parasse de sofrer? Talvez só piorasse a situação.
Considerei muitas possibilidades nessas horas, mas eu não teria coragem de fazer nada. Apenas fiquei ali... deitado, fazendo companhia pra uma criatura que nem teve a oportunidade de abrir os olhos pra ver o mundo. Torcendo pra que cada respiração fosse sua última.
Quando ele finalmente cedeu, chorei de alívio. Enrolei ele em um paninho e fui dar a notícia. Choramos de alívio, tristeza e trauma juntos. Mais tarde nesse dia fomos enterrar ele numa praça da cidade.
Continuamos seguindo em frente, cuidando dos demais gatinhos da mesma maneira que já estávamos fazendo. O outro irmão que sofreu o acidente não estava tão crítico, mas levamos num veterinário no mesmo dia, pra ver o que fazer.
Nessa consulta ao veterinário, demos um nome pra ele. Amarelinho.
Durante mais uma semana, dávamos tratamento especial pra ele. Passávamos os cremes receitados, fazendo tudo o que podíamos pra essa criaturinha tão pequena, cada dia torcendo pra que ele melhorasse.
Eu nunca pedi tanto pra que algo desse certo na minha vida, rezei pra entidades que nem acredito.
Uma semana depois, o Amarelinho faleceu enquanto dormia.
Embrulhamos ele, choramos mais ainda e enterramos ele no local mais alto da cidade.
Continuamos cuidando dos demais. O dia que o Amarelinho faleceu foi o mesmo dia em que a primeira da ninhada abriu os olhos.
Algum tempo depois, os três restantes já estavam de olhos abertos, aprendendo a andar, mas ainda necessitavam de atenção a cada poucas horas. Foi na mesma época em que estávamos começando a tentar introduzir algo além da fórmula na alimentação deles.
Um dos gêmeos amarelo-branco começou a recusar a mamadeira. Por dois dias tivemos que força-lo a comer. No segundo dia, ele estava bem letárgico.
Sendo assim, levamos ele ao hospital veterinário. Apertamos as finanças pra conseguir pagar a internação e os tratamentos, mas a essa altura, já tínhamos nos apegado.
Foram quatro dias internado. Também chamamos ele de Amarelinho. Novamente, eu nunca quis tanto na minha vida que algo desse certo.
No início do terceiro dia internado, me ligaram pra dizer que o quadro dele estava melhorando. Ao anoitecer, ligaram novamente pra informar que ele havia piorado e, os exames de sangue indicavam uma infecção. Na noite do dia seguinte me informaram que o Amarelinho havia falecido.
Não conseguíamos ir ver o corpinho dele. Não tínhamos força de espírito suficiente pra isso. Preferimos ficar com a última foto que tirei dele antes de interna-lo. Mandamos cremar.
Esses eventos foram terríveis pro nosso emocional. Essas criaturas tornaram-se nossos filhos. A dor de perder algo que você criou e nutriu desde o nascimento é indescritível.
Acho que nosso relacionamento ficou mais forte depois disso.
Por que estou escrevendo isso agora? Passaram-se 8 meses desde esses ocorridos. Os dois gatos restantes cresceram muito bem, agora moram conosco e com a irmã mais velha, MEI. Demos o nome de Preta e Pão pra cada um e, são os gatos mais carinhosos que já tive.
Poucas horas atrás, o Pão sofreu uma queda de cerca de 4 metros na varanda, vimos na hora. Eu entrei em pânico. Minha namorada manteve a calma, pegou ele enquanto tentava me acalmar. Disse que a perna dele estava bamba. O gatinho estava chorando de dor.
Ela pegou ele no colo, segurou para que não mechasse o machucado. Eu não consegui olhar, estava em desespero. Descemos para a garagem, ela sentou no banco de trás do meu carro com o gato no colo e eu dirigi, em choque para o hospital veterinário.
Liguei pra lá enquanto dirigia, avisei que tinha uma urgência e chegaria em poucos minutos. Fomos prontamente atendidos, sedaram o Pão e fizeram um raio-x.
A perna dele está completamente quebrada e precisa de cirurgia. Porém, sua bexiga estava bem maior que o normal no Raio-x, o que poderia indicar uma ruptura, mas precisavam fazer um ultrassom para ter certeza.
Deixamos ele lá. Chegamos em casa e choramos novamente. Agora estou sentado no chão do banheiro, escrevendo isso, enquanto espero me ligarem para dar retorno sobre a situação dele.
Só os exames imediatos já saíram bem caros. Não sei, nem me importo como vamos pagar a/as cirurgias. Dei autorização pra realizarem todo procedimento que precisarem e pedi pra me atualizarem assim que surgir algo novo.
Não ligo se ficar endividado. Não ligo se tiver que vender meu carro de merda pra pagar. Só quero que meu filho saia de lá bem e recuperado.
Novamente, nunca pedi tanto para que algo desse certo na minha vida. Agora me resta esperar.
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2019.07.22 03:17 TYagami Domadores de Almas - Destino, Espiritualidade e Apocalipse

Não acho que o nome tenha te trazido até aqui, mas se você não segue nenhuma religião, mas tem uma crença, e ainda por cima tem contato com espíritos, acho que já podemos começar nossa conversa.
Primeiramente, muito prazer.Eu nem sei o que eu estou fazendo aqui pra começo de conversa porque jamais me imaginei fazendo isso...
Caí aqui no Reddit meio que de paraquedas. No meio de uma conversa com um amigo meu, ele me disse para vir aqui e criar um post contanto minha história porque querendo ou não, tem mais pessoas envolvidas e muitas delas já sabem também que foram escolhidas para um "algo maior". Mas... Ao invés de enrolar mais, vou explicar do começo.

Meu primeiro contato com algum espirito foi aos 3 anos de idade. Eu me lembro de ter visto uma mulher de pele clara, cabelo comprido preto e usava uma roupa branca, parecia uma camisola. Uma criança normal se assustaria, já eu... Por algum motivo eu decidi falar com ela.
- Quem é você? - Perguntei.
- Um alguém. Só um alguém. - Respondeu. - Quer ser meu amigo? Sorriu a moça.
- Tá. - Respondi.
No momento em que eu respondi, ela sumiu e eu apaguei.
Alguns anos se passaram e nunca mais tinha visto aquela moça. Pra mim, aquilo tinha sido apenas um sonho. Engano meu.
Não entrarei em detalhes sobre a moça no momento para não deixar a história muito extensa e principalmente pra mim não perder o foco do post. E antes que perguntem, sim, ela ainda está comigo.
Eu sempre fui uma criança bem extrovertida, de uma imaginação muito fértil e sempre amei desenhar. Então, por conta da criatividade, as coisas que eu via/ouvia/sentia que eu não podia contar pra ninguém, eu decidi começar a escrever uma história: Domadores de Almas. Não, não são pessoas que controlam almas... Na verdade, são espíritos que são mandados para a Terra (o carnal) para encontrar pessoas capazes de receberem certos poderes/habilidades e também para que até esses espíritos ficassem mais fortes, conseguindo liberar até mesmo 100% de seu poder total. O porque desses espíritos terem vindo até nós? Um mal ia nascer a partir dos 7 pecados e esse mal irá destruir os dois lados, por isso eles receberam essa missão.
História legal, né? kk
Só que parecia que algo ou alguém não queria que eu escrevesse essa história porque sempre que eu ia escrever o capitulo 4, algo acontecia. Se fosse no caderno: A folha rasgava por conta da borracha, a ponta do lápis quebrava, a caneta estourava... Se fosse no computador: O word travava, o pc travava e até a força chegava a cair!
Ainda não "acreditou", né? Tá bom.
Com 19 anos me batizei na igreja evangélica. Pois é. Sou evangélico. Mesmo com tudo o que sempre aconteceu na minha vida, decidi seguir a Cristo rs e não me arrependo. A história? Bom, estava parada. Nunca dava pra continuar, então deixei ela de canto. Mentira. Eu pensava que era algum bloqueio meu e tentava de novo, mas ai era desde o começo e com isso as mudanças e alterações vieram, coisas que deixaram a história mais real e um pouco mais pesada também.
Toda pessoa quando cria ou faz algo tem a vontade de mostrar para a família, né? Desde os 12 anos quando eu comecei a escrever essa história eu sempre quis mostrar ela pra minha mãe e pra minha irmã mais velha. Meu pai nunca ligou muito. Sabem o que elas falavam? "Que era do demônio". Gente, como é do demônio se eu nunca li, vi, estudei ou até mesmo procurei sobre algo do tipo? Mesmo vendo e ouvindo coisas, eu tinha medo! Não gostava! Mas não quer dizer que eu procurava. ME DESCULPA SE QUANDO PASSAVA DRAGON BALL Z EU GRITAVA "SATAN, SATAN" NA SALA COM A MÃO PRA CIMA, MAS ACREDITA EM MIM, EU NUNCA PESQUISEI! E MR. SATAN É O NOME DO TIOZINHO ALI!!
Lembram? Me converti, entrei pra igreja e fui conversar com meus pastores sobre o assunto. Resumindo? Apaguei a história e queimei todos os meus desenhos referentes a minha história. Todos que de acordo com o espirito santo tinham que ser queimados/destruídos.
Eu, minha mãe, minha irmã mais velha e meus pastores descemos para uma rua aqui perto de casa que é calma e levamos os desenhos (todos que achamos), uns tapetes e uma mesa de plastico branca que íamos jogar fora. Aproveitamos pra queimar tudo junto. Peguei uma folha, molhei com álcool Zulu na ponta, peguei o esqueiro e acendi. Tava lá, a chama azul, toda bonitinha e o papel ainda branco. Branco. Não queimava. O papel não queimava. Ok, álcool de cozinha é fraco. Vamos na ponta seca. ... ... ... ... É... Acho que o problema não era o Zulu. O papel não quer pegar fogo mesmo. Parti pro tapete. Fui e pensei: "Pelo menos os fiapinhos vão pegar fogo...". Nem os fiapos do tapete pegavam fogo. A chama azul lá parada e nada acontecia. Ninguém tava acreditando. Meus pastores pegaram o carro deles e levaram tudo para o monte onde lá pegou fogo sem exitar.
Quase entrei em depressão depois disso. Eu não desenhava mais. Não escrevia mais. Nunca fui fã de copiar desenhos, sem gostei de criar os meus. Aí, num certo dia eu tive um sonho. Era muito real pra ter sido só um sonho. Eu estava num campo. Um lugar lindo. Um céu limpo com poucas nuvens, uma brisa gostosa. Do meu lado direito tinha uma montanha que por ela descia uma cachoeira e do lado esquerdo era só campo. Na minha frente tinha alguém, mas eu não conseguia ver seu rosto. Era como se o Sol estivesse atrás dele impedindo com que eu visse sua face. Ele usava uma roupa branca com uns detalhes amarelos ou eram dourados. Ele me olhou, esticou a mão em minha direção e disse:
- Vem. Vamos conversar.
Sua voz era calma. Forte, mas passava tranquilidade. Por algum motivo eu não conseguia falar e então ele continuou.
- Sabe... Tem muita coisa que gostaria de falar, mas a principal é... Sabe o porque de não conseguir escrever a história do capitulo 4 em diante? O porque de tudo isso acontecer? - Perguntou e esperou. - Porque do capitulo 4 em diante você envolveria pessoas reais. Seus amigos, os que você colocou como personagem, todos eles passariam pelo mesmo que você passa e poderia ainda acontecer coisa pior por conta da história deles. Compreende agora? - Apenas assenti que sim. - Agora sobre seus desenhos, você pode dar continuar com eles, mas com um porem. Vamos usar o ser humano como exemplo. Um homem comete vários crimes em sua vida, mas num certo ponto ele decide mudar. Ele decide ser diferente. Se arrependeu de tudo o que fez e agora segue uma vida ajudando as pessoas, fazendo a diferença. Entendeu onde eu quis chegar? Mesma pessoa, mas com atitudes diferentes. Seus personagens, ainda pode fazê-los, mas eles não podem voltar a ser quem eram. Tudo bem?
Antes que eu pudesse pensar em responder, fui acordado.
Depois disso voltei a desenhar e comecei uma história nova, mas uma coisa começou a acontecer e eu estava com medo de contar pra alguém e ser taxado de louco. mais ainda
No dia 3 de Fevereiro de 2018, no primeiro final de semana de Carnaval, foi onde "tudo começou".
3 amigos meus estavam comigo aqui em casa. Íamos pro bloquinho tanto no Sabado quanto no Domingo, mas alguma coisa tinha acontecido que não fomos no Sabado e íamos no domingo. Eu então recebi uma mensagem de um amigo meu me chamando para ir na casa dele comer pizza e beber alguma coisa, disse que estava com uns amigos, ele disse que não se importava e fomos todos. Nos dividimos em "2 grupos". Eu, Ele e um amigo meu fomos comprar bebida. A mulher dele, e os meus dois outros amigos ficaram lá com ela. Do nada, no meio da caminhada, entramos no assunto espiritualidade. Assim que chegamos na casa dele, ele me olhou e pediu pra perguntar sobre o que eles estavam conversando e em que parte eles estavam. Quando perguntei, sim, eles estavam na mesma parte que a gente, e foi ai que o assunto "bombou" e ficamos conversando sobre isso o resto da noite. No meio da conversa, ele me olha e diz:
- Tá, vamos lá. A sua moça tá aqui na minha direita dando em cima da minha entidade, né? - Perguntou ele.
- Como você? Como é que você sabe? - Perguntei.
- Ele... Isso não tem graça! - Respondeu minha moça toda sem jeito.
- Agora... - Ele então continuou. - Aquele ali é seu outro, não é? - Perguntou apontando para frente.
- Espera. Ela eu entendo você saber porque as vezes eu não resisto as piadas dela e olho pra ela sem graça, mas ele? Eu nem olhei pra ele e você sabia que ele tava ali? - Perguntei. Eu não estava acreditando.
- Do que ele tá falando? - Perguntou um amigo meu.
- E que moça? - Perguntou uma amiga minha.
Foi nessa noite que meus amigos souberam dos meus amigos. E foi nessa noite que eu descobri também que não eram amigos imaginários e que tudo o que eu tinha vivido, era 100% real.
Contei pra ele dos meus desenhos, da história e de como tudo acabou e ele ficou nervoso. Muito nervoso.
- Porque você fez isso? Apagar sua história e queimar seus desenhos? Pra que? Se tinha algo te atrapalhando era só falar comigo que eu eliminava esse ser.
- Então... Eu não fiz porque 1°: Pensei que fosse Disney minha e 2°: Não sabia de você e muito menos de mim.
- Tá, mas de verdade? Eu tenho certeza que você foi destinado a escrever essa história e sabe o que eu acho? Que depois que você apagou a história, você tá vendo todas as cenas acontecendo de verdade na sua frente. Do mesmo jeito que você tá me vendo agora, você vê as cenas. Tô mentindo? - Sorriu ele.
Ali meu mundo caiu. Lembram ali em cima quando disse que algo começou a acontecer depois que eu parei com a história? Então. Foi isso. E eu não tinha contado isso pra ninguém. E eu não conversava com esse meu amigo mais.
Depois dessa noite muita coisa na minha vida mudou. Eu precisei incorporar meus dois amigos porque esse meu outro amigo queria conhecê-los porque precisava saber se iam me fazer mal ou não. Ele queria falar com eles e esse teria sido o único meio ali já que eu já tinha dado abertura para os dois. Depois disso, além de ganhar alguns "dons" acabei ficando sem asma e meu problema de coluna.
2 meses depois enquanto voltava para o escritório depois do almoço, tem um galho abaixado, muito caído no meu caminho e uma das suas folhas ia me acertar se eu empurrasse ela ou me abaixasse. Eu bati na folha e com isso o galho levantou, mas voltou depois pro lugar que tava. De repente...
-Ai... - Ouvi uma voz infantil vindo de trás de mim.
- Acho que batemos em alguém. - Respondeu um dos meus amigos.
Quando eu olho para trás, atrás daquela folha tinha alguma coisa. Eu parei, olhei, vi duas mãozinhas segurando a folha, ele estava escondido.
- Cês tão vendo isso também? - Perguntei e eles disseram que sim.
Fui devagar até a folha e quando estava chegando, vi uma cabecinha me olhando e assim que percebe que eu a percebi ela volta pra trás da folha.
- Tem alguém ai...? - Perguntei.
- Por favor não me bate de novo, eu não fiz nada, eu só tava aqui na minha folhinha.
- Calma, eu não vou te bater e me desculpa, foi sem querer. Eu não sabia que você estava aqui.
- Ah, tudo bem então. Sua energia é boa. - Sorriu ele saindo de trás da folha. - Só a do seu amigo aí que me assusta. A energia dele é pesada. Me dá medo.
- QUE COISINHA FOFA! - Ouvi minha amiga gritando saindo de dentro de mim e indo pra cima dele apertando suas bochechas.
Vou cortar o dialogo...
Depois de conversarmos um pouco, acabei chegando na história. A reação dele não foi uma das melhores...
- O QUÊ? VOCÊ É UM DOS ESCOLHIDOS? - Gritou o pequeno. tem 19 centímetros ele.
- Escolhidos? Do que?
- Do Apocalipse. Um dos que vão ficar aqui pra batalha.
- Isso é real? Porque assim... Quando eu era pequeno que eu tinha lido apocalipse e pedia nas minhas orações pra estar na Terra ao lado de Deus e tudo mais, eu não esperava que fosse real ou que fosse dar certo.
- Não importa como foi! Eu quero ficar com você. Vou te proteger. Você me aceitando como parceiro ou não, vou te proteger. Passei muito tempo nessa arvore esperando um motivo pra sair dela e finalmente achei. Vou com vocês.
Só que... Parece que alguém mais ouviu nossa conversa...
No dia seguinte eu acordei com um grito de uma criança de madrugada.
- O que aconteceu? - Perguntei. Eu sabia que não era um sonho, porque quando sou acordado por eles é diferente.
- Nossa conversa ontem... Ouviram.
- Como assim "ouviram", pirralho. Desembucha. - Disse meu amigo rosnando.
- Calma. Me explica isso melhor.
- Eu não sei o que aconteceu, mas deveria ter alguém seguindo vocês já e agora o mundo inteiro já tá sabendo de você e que "você tá montando um exercito pro apocalipse".
- Exercito? Eu só queria escrever uma história...
- Desculpa, a culpa foi minha da gente ter conversado na rua e eu nem lembrei de fazer uma barreira também.
- Agora já foi. - Rosnou meu amigo.
No dia seguinte, no meu grupo do WhatsApp grupo do tinder rs. Entrou um rapaz do DDD 81 que depois que viu minha apresentação no grupo me chamou no privado e depois simplesmente saiu do grupo. Conversei com ele e tudo mais e depois perguntei o motivo dele ter saído.
- Já te encontrei. Não preciso de mais nada no grupo. - Respondeu o rapaz.
- Eu tô falando pra você que esse viado é do babado, mas você não me escuta... - Disse minha amiga.
- Own, que fofo. - Respondi.
- Fica tranquilo que daqui, que mesmo longe eu vou estar te protegendo. - Continuou.
- Aaaah, se eu ganhasse 1 macho a cada palpite certo meu... - Debochou minha amiga.
- Posso fazer uma pergunta? Qual sua religião? - Perguntei.
- Não tenho uma religião. Acredito em Deus, mas também acredito em outras coisas.
Quando ele disse isso... Alem de confirmar que minha amiga estava certa, também comprovou que era alguém "como eu", que tem amizades assim com espíritos e tudo mais. A gente continuou conversando, ele acabou conversando com ela, mas por um mal entendido, ele sumiu. Ela disse pra ele que "Tinha que passar por ela e pelo meu outro amiguinho pra me ter"... Foi triste. Mas seguimos. Mas não acabou por aqui. Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Portugal... Gente de vários lugares por algum motivo conseguiam meu numero, não sei como, a gente conversava e dava no mesmo. Não a parte da minha amiga falando aquilo, mas era todo mundo do "meio".
No meio do ano, em Junho de 2018 se não me engano recebi uma ameaça aqui em casa. Cercaram a minha casa e me mandaram um "aviso"
- Pode avisar para todos esses seus amigos "Domadores" que o "exercito" de vocês não chega aos pés do nosso.
Ele tinha entrado aqui em casa com outras entidades, ameaçaram de destruir meus amigos e me mandou mandar esse recado para os meus amigos que estavam nesse grupo do WhatsApp sobre o assunto.
Depois disso fomos atrás de ajuda. Eu nem sabia que dava pra atacar alguém espiritualmente, ou melhor, eu nem acreditava que pelo espiritual poderiam ser feitas tantas coisas... Eu era recém-nascido no assunto praticamente. Não tive treinamento nenhum.
Uma amiga então me disse que tinha um grupo perto da casa dela que eram do meio. Pedi para ela falar com eles dizendo que precisávamos de ajuda e fui ao encontro deles. A diferença entre nós dois? Meu grupo e o deles? O que nós conhecemos por "Apocalipse" eles conhecem por "Ragnarok". Eles estavam dispostos a nos ajudar e chegaram até a nos propor uma "aliança" entre nosso grupo e a alcateia deles, mas... Sabem minha "amiga"? Não sei se é ela que tem as visões ou se graças a ela eu consigo ter elas, mas vimos que parte deles estariam no outro time e... Eu me apego fácil as pessoas.
- Sabe que se a visão for real, alguns deles morreram pelas nossas mãos, não é? Melhor nos afastarmos sem nenhuma inimizade pra caso venhamos a nos encontrar na rua do que algo pior venha a acontecer. Sei que vai doer mais em você do que em mim. Ou melhor, em nós. - Disse meu amigo. o que rosna
Eu concordei. Ele estava certo.
Depois disso, um amigo meu que é do "meu grupo" me disse:
- Cara, porque não vai no Reddit, cria um post contando tudo e vê se consegue encontrar mais pessoas? Tá, é uma faca de dois gumes porque pode ser que apareçam pessoas querendo nos ajudar, mas também podem aparecer pessoas que vão querer nos matar a qualquer custo! O que nós, não só nós sabemos, mas todos sabem... O tempo está próximo mesmo. Não acho que essas coisas aconteceriam a toa. Acho que custa tentar. - Disse esse meu amigo.
- O que vocês acham? - Perguntei para os meus amigos.
- Não podemos sujar nossas mãos de sangue agora, mas se tentarem machucar você, não exitarei em incorporar para te proteger. - Rosnou meu amigo.
- E se forem para nos ajudar, os ajudaremos também! Com tudo o que pudermos. Se for um boy gato eu ajudo mais ainda hihi - Brincou minha amiga.
- Antes disso eu tenho que voltar a escrever a história. Só ai vou confirmar mesmo que eu aceito meu destino. - Disse.
- Infelizmente nós dois já aceitamos o nosso. - Sorriu minha amiga dando um tapa no braço do meu outro amigo.
- Domadores até o fim?
- Uma vez domadores, sempre domadores. Não importa o que aconteça. - Sorriram.
Depois que decidi que ia fazer a história e seguir com isso, tive outro sonho, naquele mesmo lugar, com aquele mesmo homem. Dessa vez eu estava em pé.
- Tem certeza de que vai seguir em frente com isso? - Perguntou ele.
- Sim. Tenho. Se eu fui destinado a escrever essa história, a estar mesmo nessa luta, mesmo que eu vá ficar com muito medo quando chegar a hora, eu vou em frente. Sem falar que... E se essa história tiver informações que possam ajudar algumas pessoas ou avisá-las sobre o que está por vir. Se acontecer algo com elas e eu não tiver avisado, vai doer bem mais em mim do que nelas, porque eu tinha a informação, mas quis guardar elas pra poupar umas 10, então... Não compensa.
- Então está certo. Que assim seja.
E ai acordei.


E é por isso eu tô aqui. Não sei se vai aparecer o horário no post com a data tudo certinho, mas agora são 22:20 de um Domingo, dia 21/07/2019 e tá dando pra sentir uma pressão muito forte vindo do lado de fora da minha casa. Eu não ia escrever esse post hoje, nem sei até quando eu ia continuar enrolando pra escrever isso, mas... Por algum motivo... Peguei meu celular pra jogar Grand Chase e o Reddit abriu. Se eu entendi? Não entendi. E como eu sei que a vida dá dessas, então eu pensei: Porque não? Deve ser a hora.
Ps: Não adianta me chamar de louco, sei que sou. kk
Ps 2: Não vou revesar o post como eu sempre faço com qualquer texto meu que eu reviso sempre umas 3 vezes. Então, escrevi, postei. kk
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2019.06.12 18:25 KoboldLanceiro Leitura crítica do conto "Paredes"

Paredes

As trilhas que se aventuravam pela Floresta de Lövren eram ímpares.
Os grandes pinheiros eram muralhas que protegiam os viajantes da incerteza da natureza além das trilhas.
Há pouco havia amanhecido. O sol iluminava o topo das árvores pela primeira vez no dia, a manhã estava fria, as folhas úmidas flutuavam no vento e o corpo de Frederick protestava contra a decisão de se levantar da cama tão cedo.
A viagem até o grande lago era longa. Se saísse cedo pela manhã era possível alcançar a margem das águas escuras pela noite. Frederick alimentou os dois cavalos que puxariam sua carroça pela trilha. Tinha organizado os suprimentos na noite anterior já que o nervosismo tinha lhe tirado o sono. Tomou sua xícara de café com calma enquanto olhava pela janela da cozinha. A pouca neve que havia caído era um bonito contraste com o verde da mata e o azul do céu.
Ele podia ver a fronteira da Floresta no horizonte à frente da sua janela. Sua respiração quente criava vapor com o vento frio e o café esquentava a palma de suas mãos e seu corpo. Frederick se sentia confiante sobre a viagem que viria. Ele havia se decidido sobre a viagem há algumas semanas e o cansaço não seria nada quando chegasse ao seu destino. Diziam que o lago à noite era único e em todas as vezes que contava para sua esposa sobre seus planos, Frederick deixava claro o quanto queria ver com seus próprios olhos tudo que as águas guardavam.
Assim que terminou seu café caminhou em direção ao quarto do seu filho. Frederick reparava e reprovava as paredes da casa. O branco desbotado não criava a sensação de lar que ele sempre imaginou. Gostaria que seu filho crescesse em uma casa mais aconchegante e estava tentando juntar dinheiro para isso. Ele tinha as cores perfeitas para o ambiente já decididas e não via a hora de poder pintar as paredes sem vida. Quando entrou no quarto do pequeno Matias o bebê tinha acabado de acordar e ameaçava chorar. Frederick pegou seu filho no colo, deu um beijo em sua testa e o levou até o quarto de Martha.
O homem parou alguns minutos na porta enquanto admirava sua esposa. Martha havia dado à luz a Matias há pouco menos de um mês e ainda sentia as dores do parto. Pouco tempo depois do nascimento do seu filho ela adoeceu e Frederick cuidava de tudo enquanto Martha repousava. O homem foi até sua esposa e a acordou gentilmente. Os dois conversaram por alguns minutos e se despediram. Martha já sabia da pequena viagem de Frederick e estava animada pelo marido. Ele andava falando disso já havia algum tempo e finalmente arranjou tempo para ir. Martha queria acompanhar Frederick, é claro, mas sabia que os dois teriam outras oportunidades. Ela precisava se sentir melhor para poder passar mais tempo com o pequeno Matias.
Enquanto os dois conversavam Martha brincava com seu filho. As dores que ela sentia a impediam de se movimentar muito e depois de algum tempo Frederick colocou o bebê de volta em seus braços.
Frederick tentou desajeitadamente colocar mais um cobertor em cima de Martha com uma mão enquanto equilibrava Matias no outro braço, a deu um beijo de despedida e deixou que sua esposa dormisse mais. Foi até a carroça no pequeno curral e a organizou com os grandes cobertores de pele, fazendo um pequeno abrigo. Fez carinho nos dois cavalos que o puxariam pela trilha, se agasalhou e montou na carroça. A madeira rangeu e ameaçou se partir quando o veículo começou a se mover. Frederick havia herdado a carroça de seu falecido pai, e mesmo a madeira estando velha e quebradiça, ele nunca pensou em trocá-la. A carroça não parecia feliz com a viagem.
Enquanto a carroça se aproximava da Floresta, o vento e os pássaros enchiam o ambiente. O ar frio era leve e transmitia calma a Frederick, mas assim que atravessou a fronteira dos grandes pinheiros, a atmosfera mudou completamente. De repente só se ouvia o barulho da carroça e da respiração dos cavalos. Frederick sabia que muitos animais viviam naquele local, mas não conseguia ver nenhum sinal deles. O silêncio da Floresta era absoluto até o momento em que sua carroça rompeu a barreira dos pinheiros. Agora o viajante se sentia ofendendo aquele novo mundo à sua volta.
O vento frio que que ia de encontro com seu corpo não fazia com que os galhos se mexessem. Tudo dentro da Floresta era estático. A mata parecia presa no tempo, e Frederick não tinha ideia do quão perigoso isso podia ser. Os cavalos pareciam nervosos e caminhavam com hesitação. As rédeas eram estaladas para lembrar aos animais que eles tinham um trabalho a fazer, que em resposta cumpriam seu dever com má vontade. Os imensos pinheiros iam até o céu enquanto se entortavam a tentavam tampar o céu.
A maior parte da manhã passou sem surpresa. Frederick pareceu se acostumar com a sensação que a Floresta transmitia, mas isso não a fez mais agradável. Não era a primeira vez que ele havia entrado no território, é claro, mas a novidade era se aventurar tão fundo nas trilhas. Algumas horas antes da pausa que faria para o almoço, a trilha foi obstruída pela silhueta de um animal metros à frente. Os cavalos pararam ainda distantes e Frederick resolveu investigar já que sua condução se recusava a caminhar.
Foi se aproximando lentamente com seu rifle em mãos. Sentia suas pernas tremerem e preferiu pensar que era só por conta do frio que sentia. Ao chegar mais perto percebeu que um lobo cinza jazia jogado na estrada. Frederick congelou quando percebeu o lobo, mas se aliviou quando notou que animal estava morto. Uma grande ferida abria seu corpo do alto da garganta até o início da cauda. O lobo estava praticamente dividido em dois. Frederick averiguou que os órgãos do animal estavam espalhados por todos os lados e que os olhos haviam sido arrancados.
Tudo indicava que aquilo tinha acontecido há poucos minutos. O sangue do lobo ainda se espalhava pelo chão e os órgãos eram movidos por espasmos. Frederick conseguia ouvir a respiração fraca de um animal que morreria a qualquer momento. O homem aguardou impacientemente que o lobo morresse de uma vez. Queria acabar com as dores do animal, mas se sentiu incapaz. Algo sobre como o animal foi atacado deixava Frederick incerto. Tinha medo de que o culpado ainda estivesse por perto, sendo um outro animal ou não, e se sentia observado.
Frederick tentava racionalizar em como não havia conseguido ouvir o animal ser atacado. Não notou nenhum rastro por perto. Frederick tinha muitas dúvidas e nenhuma resposta. Preferiu agarrar-se à ignorância do que descobrir as respostas que não gostaria de saber.
Quando Frederick deixou de ouvir a respiração do lobo, após alguns cruéis minutos, decidiu arrastá-lo para fora do caminho. Puxando o animal pelas patas dianteiras o colocou entre os pinheiros ao lado da trilha. Frederick sentia que algo puxava o lobo para o lado contrário. O cheiro de sangue começava a causar ânsia em Frederick enquanto ele pensava ter visto mãos velhas e cadavéricas puxando o animal para o chão e ele rapidamente, sem concluir sua ideia, voltou à carroça. Acelerou o passo dos cavalos e deixou para trás o cadáver. Percebeu que suas mãos estavam sujas de sangue pela primeira vez e tentou, em vão e com nervosismo, limpá-las no casaco.
Era hora do almoço quando Frederick fez sua primeira pausa na viagem. Numa pequena clareira o homem montou uma pequena fogueira e colocou sob o fogo sua panela portátil. Desceu à direita da trilha para o rio que cortava a Floresta para lavar suas mãos enquanto a panela esquentava o ensopado que ele havia preparado na noite anterior.
Colocando as mãos no rio viu o vermelho que pintava suas mãos ser levado correnteza abaixo. Se perdeu em como à medida que o sangue ia saindo suas palmas voltavam à sua cor desbotada.
A água gelada puniu as mãos de Frederick depois de ficar imersa alguns segundos a mais que o ideal. Quando o homem acabou e se levantou novamente, sentiu como se o mundo rodasse e ouviu um barulho vindo da outra margem do rio. Frederick estava tonto e tentava encarar as árvores enquanto sua visão se distorcia. A outra margem parecia se distanciar cada vez mais e os pinheiros se afastavam e abriam um caminho que ia se retorcendo e escurecendo. Tudo a sua volta parecia se derreter e ser levado pelo rio enquanto ele tentava se manter em pé. No meio dessa trilha Frederick viu uma pessoa. Foi difícil entender o que ele estava vendo mas percebeu uma silhueta feminina. A figura com braços sujos das mãos até os cotovelos encarou o homem, que perdeu noção do tempo que ia se passando.
Frederick viu que a mulher dizia algo, mas ele não conseguia ouvir. Frederick quis chegar mais perto, mas o rio agora parecia ameaçador. As águas estavam completamente negras e a correnteza forte ameaçava leva-lo para o fundo.
Em um clique enquanto Frederick piscou os olhos tudo voltou ao normal. Ele se sentia um pouco tonto e sentiu seu estômago se revoltar por conta da fome. Caminho de volta até seu pequeno acampamento enquanto colocava suas mãos no bolso para poupá-las de sentir mais frio. Já não havia sangue em suas mãos, mas Frederick não sentia que elas estavam mais limpas que antes.
Preparou duas refeições de ensopado de coelho com alguns legumes e pedaços de pão velho. Não se apressou em almoçar e curtiu cada colherada que colocava na boca. Sentir a comida quente aquecer seu corpo quase conseguia tirar sua mente de tudo que havia visto durante sua viagem. Quando finalmente guardou o que usou no almoço e se ajeitou novamente para seguir viagem, sentia-se motivado a chegar até o lago.
A viagem durante a tarde pareceu render muito mais que o normal. Frederick só reparou quantas horas tinham se passado quando precisou acender um lampião para iluminar seu caminho. Já estava muito fundo na Floresta e dessa vez nem o barulho da carroça parecia fazer diferença. O silêncio era tudo. As vezes a tonteira ia e vinha, mas depois de algum tempo ele se acostumou com a sensação incômoda. Sua mente vagava entre as lembranças da mulher entre as árvores e do lobo na trilha. Lembrou-se de casa e de Martha e se perdeu na visão do lobo e em suas mãos sujas. Mas mesmo assim seguia em frente. Depois de várias horas de viagem desde seu almoço, a luz dos dois lampiões dianteiros finalmente iluminou o início de uma grande clareira. Frederick tinha chegado ao seu destino.
O lago era lindo à luz da lua. Os altos pinheiros e os vagalumes que flutuavam no ar davam a impressão de que Frederick havia encontrado um oásis. O centro do lago era coberto por uma densa neblina que aos poucos avançava até à margem. Frederick desceu da carroça com a barriga fria com o nervosismo. Suava frio e suas mãos tremiam. O homem retirou o rifle das costas e o repousou no banco da carroça.
Lentamente se aproximou das margens do rio e colocou seus pés dentro da água. Caminhou até que a água alcançasse seus joelhos e se viu dentro da neblina. Sentiu-se ameaçado quando ouviu movimento na água à sua frente e observou a neblina abrir caminho para uma mulher que vestia preto e um colar com uma pedra verde que parecia pulsar. Sua pele era de um tom acinzentado e seu cabelo era curto e despenteado. Os olhos da mulher eram negros como o céu da noite e seu sorriso tinha algo que incomodava. Ele parecia ser grande demais ou que estava um pouco distorcido no rosto da pessoa a sua frente. O homem não conseguia entender o que causava tanta inquietação sobre o sorriso.
Mas independentemente do que estava o incomodando Frederick finalmente encontrou a mulher que procurando há muito tempo. Ele estava diante da Bruxa. A viagem não havia sido em vão.
A Bruxa pegou a mão de Frederick e a beijou lentamente. O homem sentiu que iria desmaiar. Ele olhava nos olhos da mulher e se sentia jogado no vazio. Aquilo vinha perturbando seus sonhos desde que se mudou para a fazenda com sua esposa. Ele estava feliz de finalmente tê-la encontrado. Mas não sabia se aquilo era a coisa certa a se fazer.
A Bruxa sussurrou coisas no ouvido de Frederick e o homem ouviu atenciosamente. Enquanto ela falava ele fechou os olhos e respondiam às perguntas acenando com a cabeça. Perdeu a noção de quanto tempo havia ficado dentro do lago, mas quando a mulher soltou sua mão e ele abriu seus olhos novamente, por um momento viu o que a Bruxa era de verdade. Frederick ficou maravilhado com o que via enquanto todo o seu corpo lutava em vão para sair dali. O homem se perdeu no labirinto da insanidade que ele mesmo havia construído em sua mente. Sua obsessão pela Bruxa tinha o levado até aquele momento.
Sorriu para si mesmo aliviado e sua tímida risada desconstruiu o perfeito silêncio daquela noite.
Saiu do lago e foi em direção à carroça. Sabia que não havia acabado. Subiu na parte de trás da carroça e correu suas mãos pelos vários cobertos de peles. Quando colocou seu filho Matias em seus braços pela primeira vez desde o almoço, o bebê chorou e protestou contra o vento frio que tocava seu rosto. Frederick foi caminhando em direção ao lago enquanto ninava seu filho. Na margem a Bruxa esperava ansiosamente pelos dois. O pai deu um beijo na testa do filho e o entregou para a mulher do lago. Os dois se olharam e a Bruxa sorriu para Frederick. O homem se sentiu orgulhoso, respeitado e amado.
Enquanto nos braços da Bruxa as roupas brancas de Matias eram manchadas pelo vermelho viscoso que sujava os braços da mulher.
Admirou enquanto a mulher desenhava símbolos na testa do bebê, que a observava atentamente em resposta. Quando os dois desapareceram na neblina, Frederick subiu na carroça novamente e começou a viagem de volta para sua casa.
Suas mãos estavam novamente sujas. Mas dessa vez, o sangue em sua pele não o incomodava mais.
Frederick não sabia como havia voltado para casa, nem quando tempo havia levado. Quando voltou a si sua carroça estava deixando os grandes pinheiros e ele via sua fazenda com as luzes acessas. Enquanto Frederick estava fora, Martha tinha se levantado e percebido que Matias não estava mais em casa. A mulher se desesperou em pensar que o marido havia levado seu filho recém-nascido para viajar na Floresta no início do inverno. Martha tentou ao máximo ficar acordada até que Frederick voltasse, mas os remédios e o cansaço físico venceram. Ela só conseguiu rezar e esperar.
Frederick entrou em casa com sua pequena mochila e o rifle em suas costas. Na sala de estar encarou as paredes e sentiu raiva. Ele nunca gostou da cor e sabia que tudo tinha sido ideia de Martha. Sentiu um ódio incontrolável e no corredor que levava para o quarto viu a Bruxa o convidando para entrar.
Frederick se armou de seu rifle e caminho até o quarto.
Não se importou com os gritos de Martha, porque finalmente ele iria pintar as paredes com a cor que sempre quis.
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2019.06.06 17:38 El_Buga [DQ] Lina

Lina abriu os olhos. Era tudo o que restava fazer. Diante dela, estava o mesmo teto que diligentemente a cobriu e protegeu por décadas, fornecendo à idosa um fino véu de segurança, por mais frágil que fosse essa sensação nos dias atuais. Comprara aquele apartamento, relativamente bem localizado e apenas no ducentésimo-trigésimo-oitavo andar do edifício, no último período de crescimento econômico. Cerca de uns quarenta anos atrás. Já não lembrava a data direito.
Admirou rapidamente o homem que dormia ao seu lado, Jorge, de idade semelhante à dela. Era tudo o que restava fazer. O homem com quem decidiu que passaria o resto de seus dias alternava entre ressonar e roncar. Nem sabia se ainda restavam muitos dias para ela, de qualquer forma. Não que isso importasse. Mas não se arrependia de sua escolha, nem por um instante.
O aumento de sua atividade cerebral terminou conjurando a tela diante de seus olhos, em pleno ar, dando-lhe bom dia. Jorge resmungou alguma coisa. A senhora fez um gesto com o dedo indicador, chiando bem baixinho, como que pedindo silêncio ao recém-surgido holoterminal. Um indicador de volume surgiu na tela e reduziu o volume em 90%. Esquecera de configurar o áudio do modo sono do aparelho, pois chegara em casa cansada no dia anterior: ainda que bem localizado, seu apartamento não era exatamente próximo ao Setor Comercial. A viagem pelos ares era longa e cansativa, e o transporte público, que nunca fora tão parco, tornava a viagem um suplício. Péssima hora pro anterior resolver quebrar. Mas, se tem algo que jamais mudou, é que eletrônicos sempre nos abandonam nas horas mais inconvenientes. Substitui-lo era tudo o que restava fazer. Não queria tornar-se uma suspeita aos olhos do governo ao repentinamente sumir da grande rede por um período prolongado.
Ainda assim, seu holoterminal anterior durara quase vinte anos, algo considerado impressionante — antes, quando a maior parte das pessoas trocava assim que um novo e mais potente modelo era posto à venda, e também agora, onde poucos tinham condições financeiras de adquirir um. Passara muito tempo sem acompanhar os avanços tecnológicos por conta disso, e agora via que este novo modelo tinha várias novas capacidades: entre elas, a de responder a comandos mentais. Mas Lina preferiu a velha interface de toque, que felizmente ainda era uma opção. Sentia que ela tinha mais controle e precisão desta forma. Ademais, sua mente já era tão confusa, que ela temia acabar fazendo com que a máquina realizasse ações indesejadas, respondendo a ocasionais pensamentos andarilhos.
Dispensou a tela flutuante com um gesto de sua mão. A tela deslizou em pleno ar, rapidamente tornando-se translúcida, e gradativamente desaparecendo, como uma música que se encerra. A senhora levantou-se da cama: iniciaria seu simplório ritual de todas as manhãs. Era tudo o que restava fazer.
Chegando até a cozinha, mergulhada na penumbra pela ainda incipiente luz do Sol do lado de fora, procurou e encontrou a cafeteira. Com um olhar de Lina, o aparelho começou a emitir ruídos leves, obedecendo ao comando mental da senhora. Cafeteiras não podiam produzir nada que não fosse café, então os mesmos riscos não se aplicavam aqui.
Recostou-se na parede e mergulhou nos pensamentos, sua mente embalada pelos ruídos da cafeteira e do tráfego aéreo, que já começava a se intensificar do lado de fora do edifício. Ainda que fosse tão lugar-comum nos dias atuais, ela não conseguia deixar de pensar em como a tecnologia era simultaneamente algo fantástico e algo potencialmente terrível… sobretudo nos últimos anos. Deteve seu olhar na cafeteira, que já enchia seu único compartimento, de vidro, com café. Estava diante de moléculas de oxigênio tendo seus átomos reorganizados e reunidos em compostos diferentes: todos unindo-se para formar café, com a intensidade e doçura exatas que ela preferia — dados esses obtidos diretamente de sua mente por meio de seu holoterminal, que conectou-se com a cafeteira. Jorge, seu esposo, já preferia que a cafeteira produzisse um café mais doce e menos forte — e que ela francamente achava intragável.
O aparelho continuou a vagarosamente dispensar café até encher sua caneca. Ela retirou-a, e em seguida caminhou até a sala de estar. Era tudo o que restava fazer. As cortinas automaticamente abriram-se, seu novo holoterminal mais uma vez interpretando seus pensamentos e convertendo-os em ações, atuando sobre os aparelhos do apartamento.
Não havia nuvens naquele dia: a chuva estava programada apenas para o fim de semana, segundo o site do sistema de controle climático. Lina viu-se diante de uma intensa linha de tráfego aéreo, atravessando diretamente o ainda enorme disco solar no horizonte, fazendo com que os raios de Sol, com sua radiação e luminosidade devidamente filtradas pelos vidros adaptativos, cintilassem erraticamente pelo ambiente. Aquela seria uma visão e tanto, se não fossem pelos espigões de quinhentos ou mais andares em volta atrapalhando. Alguns cinzentos e alguns de aspecto cromado, estes últimos refletindo a luz solar como se fossem holofotes.
Bebericando seu café, Lina suspirou profundamente. Era tudo o que restava fazer. Foi assaltada pela mesma lembrança de sempre. Já tinha dias desde que aqueles dois estiveram em seu apartamento, tendo chegado ali apavorados: fugitivos da polícia, que chegou ao ponto de alvejá-los de forma covarde, com projéteis de grosso calibre. Um deles dilacerou a canela da menina, que veio carregada pelo rapaz que a acompanhava, que estava incrivelmente pálido, de tão apavorado. Felizmente, a jovem levava consigo um remédio composto de nanorrobôs, capazes de reconstruir seus tecidos em minutos. Salva pelo gongo. Por pouco não sucumbiu à hemorragia severa que lhe acometeu.
A associação que Lina fazia, daqueles dois jovens estranhos com seus sobrinhos, era inevitável. Eles eram muito parecidos, até no comportamento. Sentia uma saudade apertada dos dois. Não mereciam o destino que tiveram. Culpados por terem nascido fora das normas do governo atual. Sentenciados pelos júris, juízes e executores que agora detinham absoluta autoridade sobre a vida e a morte de cada alma viva naquele planeta. E enquanto Lina divagava, um desses júris, juízes e executores passou rapidamente diante de sua janela. Um dos drones patrulhava, escaneando todos os apartamentos. Ainda estavam desconfiados, mesmo depois de todo aquele tempo. Torcia pra que os dois tivessem conseguido escapar — o que parecia ser o caso, uma vez que as autoridades negaram ter encontrado os dois, e os drones ainda rondavam aquela área. Se os tivessem capturado, teriam feito toda questão de anunciar. Quase que com um sorriso nos rostos — no caso, os que tivessem rostos.
Lina notou que a tela flutuante agora exibia uma imagem tridimensional dos seus finados sobrinhos. Um holovídeo gravado dias antes da tragédia que os acometeu: antes armazenado no holoterminal antigo, e transferido para o novo durante o processo de atualização que ocorrera no dia anterior. E agora, diante da imagem, ela via que os dois que estiveram em seu apartamento não eram realmente parecidos com eles. Mas ainda assim, algo dentro dela insistia. Teimava que, nas mãos daqueles dois e de seus pares, estava a chave do futuro. Foi o que a impeliu a arriscar-se a ajudá-los, como já havia feito com outros anteriormente. Porque aquilo era tudo o que restava fazer.
Um sinal de erro surgiu na tela. Normal. Intuição é um idioma alienígena para aquelas coisas. Esse lado irracional do ser humano era algo que nenhum holoterminal iria compreender. E a senhora certamente preferia que continuasse assim. Não gostaria de ser questionada por autoridades por conta de um pensamento errante. Mas era certo que, em algum lugar, estavam trabalhando para resolver aquele problema o mais rápido possível.
Ouviu Jorge espreguiçar-se no quarto. A luz do Sol já vencia a barreira do fluxo de tráfego aéreo, emergindo de trás dela.
Bebericando seu café, Lina suspirou profundamente.
Era tudo o que restava fazer.
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2019.04.23 07:40 Samuel_Skrzybski STEEL HEARTS - PRÓLOGO

Uma nota pré-texto, apenas para situar melhor o leitor: na primeira parte do prólogo, que começa em "Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar", o personagem em questão é o nosso protagonista, Saravåj. Já na segunda parte, que começa a partir de "Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar", o personagem muda e passa a ser o rei da Pasárgada, Matiza Perrier. O prólogo é um contraponto entre os dois, embora o faça sem citar nomes. E se você não entendeu nada a respeito do que eu falei até aqui: dá uma olhada na introdução de Steel Hearts, se quiser, que tá linkada ai em cima.
Enfim, boa leitura! :)
[EDIT: Eu usei o underline para iniciar os diálogos porque o Reddit reconhece o travessão como marcador de tópico.]
Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar.
Ele sentiu a luz do sol em seu rosto, anunciando que a escuridão da noite já havia passado e que o céu era claro mais uma vez. Os seus sentidos despertaram pouco a pouco, como os de quem acorda de um coma após uma década de inatividade. Em um suspiro profundo, pôde sentir o odor de móveis velhos daquele quartinho arranjado e exíguo, mas inegavelmente organizado com maestria milimétrica em cada mínimo detalhe por ele próprio. Confirmou para si mesmo que estava, de fato, vivo.
Vagarosamente, os seus olhos também ganharam vida. Assim que o seu par de olhos se abriu pela primeira vez naquele dia, sua íris castanho-claro focou, sem se mexer um milímetro para a direita, sem se deslocar um milímetro para a esquerda, em uma tábua que estava fora do lugar no teto de madeira bege-clara de seu cubículo. Lhe incomodava demasiadamente aquela quebra abrupta no padrão de tábuas alinhadas e retilíneas. Namorou aquele lasco de madeira solto durante infinitos minutos. À essa altura, seu mecanismo interno também começou a funcionar e debutou a processar informações.
Ele planejou mil e uma formas de solucionar este problema que tanto lhe afligia, com a pia e ridícula convicção de que, quando tornasse àquele mesmo panorama quando o breu noturno caísse novamente, aquela tábua defeituosa continuaria ali, sem sequer ser tocada por um dedo que fosse. Talvez por cansaço físico e mental dele. Talvez por sua própria incapacidade de tecer um projeto suficientemente perfeito para dirimir o que lhe amorfidava. Ou, talvez, por não ser nada além de uma tábua antiga e quebrada. Até que, por fim, ele se concentrou exclusivamente no melódico canto dos pássaros que vinha do lado de fora. Dos presentes da natureza que ele recebia por morar naquele recinto, sem dúvida, a música dos pardais era o mais belo e mais agradável de todos.
Por todos os deuses e deusas do cosmo! Os pássaros! Os pardais-espanhóis!
Ele se levantou violentamente, repelindo para longe a sua coberta, o seu travesseiro e todo empecilho que estivesse em seu caminho, como se estivesse no ápice de sua energia diária, e se colocou, em questão de segundos, na frente da imensa janela de vidro que se localizava estrategicamente na dianteira de sua cama.
Esfregou os olhos. Depois os arregalou. Repetiu o processo algumas vezes.
Quem se colocava, como ele, à frente daquela majestosa janela, tinha uma visão privilegiada de uma enorme figueira que existia naquele vilarejo. Chamava a atenção, ao primeiro olhar, pelo tamanho. Não poderia ser diferente. Aquela árvore era um verdadeiro gigante. Ao mesmo tempo, era uma figueira muito velha, é verdade. Já deveria estar gozando da terceira fase de sua vida. De seus dois mil anos, no mínimo. Seus galhos já eram totalmente retorcidos. Sua raíz era grossa e invadia o solo que lhe rodeava, como um monstro botânico que tenta alcançar a superfície. Contudo, em contraponto, as suas folhas reluziam a vida. Todas elas. O pigmento verde-esmeralda destas era o mesmo de uma plantinha que acabara de desabrochar. Todo o seu caule era consistente e forte, sustentando com exuberância todos os seus inúmeros galhos. Seria uma calúnia atroz afirmar que, mesmo que de muito longe, se tratava de um mero agigantado pedaço de madeira oco e sem vida. Nos pés do caule da monumental figueira, existia uma pequena placa pregada junto à árvore, também de madeira, mas em tom muito mais claro. Nela, lia-se a frase em latim "Hic insignis femina forti ager deambulavit in terra" em letras garrafais, mas visivelmente pintadas com uma tinta branca ralé e desbotada, tornando as inscrições apagadas pelo efeito do tempo praticamente ilegíveis.
Todavia, ele não estava lá para endeusar aquela dádiva da mãe-natureza. Os seus olhos tinham outro eixo. Naquela árvore, muito além da fitologia e de toda tonalidade verde-vivo que lhe envolvia, existia uma verdadeira sociedade de pardais-espanhóis. Haviam vinte ou trinta famílias de pardais que levavam suas vidas nos galhos daquela grandiosa figueira já há anos. Todos eles, passarinhos miúdos, ariscos e ligeiros, características naturais de sua espécie, que levavam em suas penas tons que variavam de marrom-escuro até colorações mais acinzentadas.
Na árvore, se organizavam como se houvesse um contrato social entre eles. Como se os pardais fossem, de fato, seres pensantes, dotados de raciocínio lógico e com a capacidade de agruparem-se em um meio social concreto, previamente definido por regras a serem seguidas por todos. A figueira era a estalagem. Cada galho, uma residência. Não haviam duas ou mais famílias de pardais por galho. Em todos os ramalhos que se fragmentavam do caule, existia somente um ninho de pardal-espanhol, como se todos eles concordassem que aquele era o número ideal de famílias por galho. No raiar do dia, os pássaros se agitavam, aforando os ouvidos de quem quisesse ouvir com a sua graciosa música inerente. Neste átimo, o pássaro-mor de cada ninho voava pelo horizonte, em busca do sustento de sua parentela. E ao final do entardecer, retornava ao seu lar, socializando com os seus os ganhos do dia. Desta forma, aquele agrupamento de pardais engrenava. E só seria uma indiscutível violação de juramento afirmar que a subsistência dos pardais-espanhóis na figueira era, efetivamente, próspera, por efeito do vilão da estalagem. Um abutre.
De corpo robusto e de asas de envergadura majestosa, tinha dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta vezes o tamanho de qualquer pardal-espanhol. Era um autêntico ogro ao lado de um pardalzinho. E, ao contrário da prevalência dos membros de sua espécie, não era de aparência macabra. A plumagem de seu tronco era marrom-clara, como a das águias. E a sua coroa não era pelada, como a maioria dos abutres, que mais se assemelhavam a um morto-vivo do que a uma ave. Continha penas brancas como a neve em seu crânio. Também tinha em seu arsenal de combate garras afiadas como agulha de alfaiate, um bico longo e pontudo e um olhar que imporia pavor até mesmo em um Argentavis. O abutre lembrava muito mais uma ave de rapina do que um urubu. Localizava-se sempre no ponto mais alto da figueira, como a estrela de Belém em uma árvore natalina.
O abutre, sem dúvidas, era o amo daquela sociedade. O dono. O rei. Todos os pardais-espanhóis se viam fracos e indefesos diante de uma ave tão superior em tamanho e em força e se curvavam diante do abutre, ainda que mordendo a língua de desgosto. De todos os pássaros da figueira, o abutre era o único que não se aventurava no mundo além daquela lendária árvore em busca da sobrevivência diária. Muito pelo contrário: agia como um cobrador. Durante todo nascer do sol, sem feriado nem dia santo, o abutre voava de galho em galho, de residência em residência, de família de pardalzinho em família de pardalzinho, tomando para si uma parcela das sementes, grãos, cereais e pedaços de legumes que as famílias de pardal haviam faturado no dia anterior. Na maioria das vezes, era a metade. Por algumas vezes, entretanto, o abutre não fazia economias e se apoderava de mais - e muito mais - da metade dos alimentos de um ou outro ninho de pardal-espanhol, deixando estes reféns de sua própria sorte, suplicando aos deuses para que naquele dia o saldo alimentício do chefe da família fosse dobrado. Em troca desta colaboração forçada, os pardais-espanhóis não recebiam absolutamente nada. Nem proteção do abutre. Nem nada que dependa da solicitude do malévolo pássaro-rei. Não era justo. Mas "realidade" e "justiça" são palavras que raramente caminham de mãos dadas. O medo que os frágeis pardais tinham do abutre, tão corpulento, tão vasto, tão amedrontador, impedia-os de organizar uma revolta contra aquele pássaro das trevas. Era parte da rotina ceder metade dos seus lucros, sem mais nem menos, ao seu próprio carrasco.
E assim a sociedade de pássaros que vivia naquela louvável e anciã figueira funcionou durante muito tempo.
Até aquele dia.
Naquela manhã, tudo foi diferente.
O abutre deu início à arrecadação do alquilé dos pardais, como o de costume. Até que, após confiscar para si alguns pequenos grãos e sementes sem imprevistos, voejou até um galho que se localizava em um dos pontos mais altos do lado esquerdo da figueira.
Ali residia um pardal-espanhol solitário. Não tinha família. Morava sozinho em seu ninho. Era tão pequenino e franzino como os outros. Carregava em seu corpo penas marrom-claro, quase que idênticas às do abutre. Também tinha uma listra branca que corria por todo o seu corpo, o que lhe diferia dos demais. Ela tinha início na parte inferior de seu olho direito e só encontrava fim quando terminava o torso do pardal.
Naquela manhã, ele resistiu. Se apresentou à frente do abutre, que era um genuíno arranha-céu em frente ao passarinho, como quem se recusa a cumprir uma ordem e desafia o seu algoz. O abutre estufou o peito, na tentativa de intimidar o pardal-espanhol revoltoso. Em vão.
Antes que o abutre pudesse adotar qualquer segunda atitude visando espantar o seu adversário, o pardalzinho o atacou, em um movimento precípite e, acima de tudo, inesperado. O abutre foi lançado para fora do galho pela força da velocidade que o pardal imprimiu e os dois pássaros passaram a brigar no ar. No combate corpo a corpo, o pardal-espanhol compensava a ausência de força com uma agilidade que o abutre não conseguia acompanhar. O abutre se tornara incapaz de usar o seu tamanho e a sua robustez avantajada à seu favor. O inverso aconteceu: a grandeza física do abutre fazia com que ele fosse um alvo fácil de ser atingido por seu rival. A força, meio que o abutre usou para ser condecorado o pássaro-mor hegemônico daquela figueira durante tanto tempo, trazia junto de si a lentidão, o que fazia com que aquela ave, antes tão temida e respeitada por seus subordinados, não conseguisse inibir as investidas do nanico e veloz pardal-espanhol. O pardal nocauteava o abutre várias e várias vezes, mudando de uma direção para outra como uma flecha, antecipando os movimentos tardios de seu inimigo. O contrário não acontecia. Naquele instante, o abutre servia somente de saco de pancadas para o pardal.
A ameaça que a revolta daquele heróico pardal-espanhol representava à soberania do abutre serviu de gatilho para muitos outros pássaros residentes da figueira, também descontentes com a iniquidade daquela dura submissão, que deixaram os seus ninhos para também golpear e bicar o abutre simultaneamente. Em pouco tempo, mais da metade da sociedade de pardais-espanhóis estava ali, lutando por sua plena liberdade. O abutre tentava se defender do bando como podia. Se contorcia, esticando as suas garras freneticamente para todas as direções até o limite de sua flexibilidade, na tentativa de abater um ou outro pardal. Se já era árduo para ele engalfinhar-se com um pardal-espanhol só, guerrear contra um bando inteiro tornava-se insustentável. O abutre debatia-se em gemidos escandalosos de dor, na risível esperança de enxotar todos aqueles incontáveis pássaros para longe de si.
Até que, de tanto que insistiu e esperneou, o carrasco conseguiu prender um de seus êmulos em uma de suas garras - a esquerda. Aquele pardalzinho foi, instantaneamente, neutralizado. As unhas pontudas do abutre, que mais pareciam pequenos punhais, atravessaram a plumagem marrom-clara daquele pequeno pássaro sem lástima nenhuma, perfurando-o exatamente no centro da extensa listra branca que se avultava por todo o seu corpo, peculiaridade que lhe diferenciava de todos os outros pardais. Era ele. O pardal-espanhol rebelde. O motor daquela rebelião. O patrono dos pardais-espanhóis malcontentes com as injustiças cotidianas daquela estalagem. Aquele - o único! - que aceitou com prontidão o perigoso jogo de confrontar o temeroso abutre. Justamente ele, entre as dezenas de pássaros. O destino, perpetuamente muito irônico, pôs-se a rir da infeliz coincidência. O pardalzinho revolucionário era, de modo inegável, muito astuto. Mas nem que tivesse o quádruplo de sua resistência física, seria capaz de sobreviver estando entre as implacáveis garras cortantes do abutre. Ele não teve sequer a chance de lutar por sua supervivência. Os seus órgãos internos foram espremidos. A morte foi instantânea. O cadáver, sem embargo, continuou nos gatázios do abutre, como se fosse um troféu - ou prêmio de consolação - para o impiedoso pássaro-rei.
Os demais pássaros revoltosos, à exemplo de seu recém-falecido condutor, seguiram a bicar o abutre, com cada vez mais violência, como se não fossem meros passarinhos tênues e mansos. Mais pareciam, naquela rebelião, verdadeiros animais selvagens. O bando de pardais-espanhóis era uma máquina de guerra, pronta para esquartejar o seu inimigo a qualquer instante. Era questão de tempo até que o abutre tivesse o mesmo trágico fim do pardal causador de toda aquela anarquia necessária. Do pardalzinho que ele acabara de tirar a vida friamente. O destino, por sua vez, não tardou muito. O abutre já mal tinha forças para para estrebuchar, reconhecendo pouco a pouco o seu melancólico e penoso porvir. E este não podia sequer pleitear a vida por suas habituais injustiças. Todo aquele sofrimento do abutre era íntegro. Merecido. Conveniente. Depois de tanto atazanar os pardais daquela figueira, era a hora do acerto de contas.
Em um movimento descontrolado, um dos pardais-espanhóis mais exaltados em meio àquela calorosa confusão bicou o comprido pescoço do abutre ferozmente, estourando com retidão cirúrgica sua veia jugular. O golpe foi fatal. Morte instantânea. A morte, inegavelmente, é juiz. Se a vida, por muitas vezes, favorece aos maliciosos, a morte, sui generis, jamais falha. Pune a todos, sem distinguir. Um jato de sangue arroxeado jorrou da goela do abutre, manchando com aquela seiva honrosa boa parte dos pardais que estavam em torno do pássaro sucumbido quando a bicada da vitória foi desferida. A revolução dos pardais estava completa. Não havia mais carrasco. Não havia mais verdugo. Não havia mais medo, nem aluguel. Enfim, o abutre libertou o corpo sem vida do passarinho revoltoso de suas garras e, simbolicamente, todos os pardais que integravam aquela sociedade.
O monumental corpo ensanguentado do abutre e o defunto esmagado do pardal-espanhol rebelde caíram lentamente pelo ar, lado a lado. E tocaram o chão exatamente no mesmo instante, fazendo valer, mais uma vez, uma velha máxime da vida: quando o jogo acaba, todas as peças, por mais diferentes que sejam entre si, voltam para a mesma caixa, sem se queixar.
Ele assistiu tudo de camarote.
"É tão estranho. Os bons morrem antes", ele pensou consigo mesmo.
Ele, então, voltou-se para a sua cama. Deu meia-volta, despiu-se dos trapos velhos que usava para dormir e vestiu o seu traje de batalha mais nobre, que levava uma enorme capa vermelho-vinho às costas, que recaía por quase toda sua armadura de ferro medieval, a qual ele também envergou. Sentiu-se, como sempre, mais são portando aquela farda solene. Olhou por intensos segundos para o seu próprio reflexo no espelho que havia em frente à cabeceira, com um ar aristocrata de confiança. Apoderou-se, ademais, de duas espadas que estavam encostadas no pé dianteiro de sua cama. Uma banhada à prata e outra banhada à bronze, tinham a estatura, à grosso modo, moderadamente menor do que uma vassoura comum. De lâmina mais fina e de peso mais leve em comparação com as espadas universais dos templários, colocou suas duas gládias nas bainhas que também carregava em suas costas. Por fim, deixou o seu quartinho amanhado, organizado como nunca, exceto pela tábua desprendida no teto de seu cubículo - aquela amaldiçoada tábua! - fechando a porta amadeirada deste para jamais tornar a abri-la.
O vento, enfim, soprava à seu favor: era tempo de ressureição.
Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar.
De ressaca. Sentia em seu crânio pontadas de dor, que iam e vinham. O cenário ao seu redor denunciava o motivo de seu mal-estar: infinitas garrafas de vinho e de licor vazias em torno dele, além de incontáveis taças douradas, também vazias ou consumidas somente até a metade. Ele despertou em um magnificente trono real dourado, produzido tendo o ouro puro como sua matéria-prima e decorado com jóias preciosas, coloridas e resplandecentes - havia tido o seu sono ali naquela madrugada, sentado. Aquele trono dourado era o ponto mais alto daquele salão. Tanto que, era preciso subir alguns degraus para chegar até ele - não por acaso. A ideia era, de fato, representar o ápice da soberania que um mortal poderia desfrutar. O lugar mais alto que alguém poderia ocupar na pirâmide social.
Ele, com os olhos entreabertos e com os movimentos anormalmente vagarosos, aparentando ainda estar um pouco ébrio, começou a esparramar com as mãos as cartas de baralho que estavam no braço direito do trono real, deixando com que algumas caíssem ao chão. As cartas, espalhadas por todo salão real, retratavam as várias e várias jogatinas e capotes da madrugada anterior, os quais ele mesmo fomentou. Ele havia patrocinado uma farra regada à bebidas alcoólicas caras na madrugada daquele dia, junto de seus companheiros mais íntimos. Por mais uma vez. Os eventos alcoólatras apadrinhados por ele eram corriqueiros, praticamente diários.
Ele seguia espalhando as cartas do baralho, até que uma lhe chamou a atenção. Era um rei. Um rei de espadas. Não era o roupão vermelho do rei, fragmentado em mandalas, que lhe atraía. Muito menos as espadas coloridas que ele segurava em cada uma das mãos. Nem o bigode, nem o cabelo, nem a coroa. O olhar. Os olhos daquele rei eram diferentes dos demais. Eram intimidadores. Transbordavam malícia e davam um sentido maquiavélico àquela carta. De todos os reis do baralho, aquele, sem dúvidas, era o mais perspicaz. O que tinha a maior agudeza de espírito. O mais astuto, talentoso, inteligente e toda e qualquer palavra que remete a um privilegiado intelecto ardil. Ele pegou a carta em suas mãos e apreciou-a por alguns instantes, rindo. Até que, levou o rei de espadas até o braço esquerdo do trono do rei, onde havia uma taça de ouro da noite anterior, cheia de vinho até a metade. E então, mergulhou a carta no vinho, por diversas vezes, repetidamente.
_ Beba, reizinho. Beba. Que, por hora, é o melhor que se faz. O álcool foi inventado pelo homem para suprimir o tédio diário, você sabe bem. As mulheres também vão te distrair com seus corpos, se você assim quiser. Mulheres e bebidas. É por isso que a nossa passagem terrena vale a pena, não? Beber para as mulheres. Beber por causa de mulheres. Beber junto das mulheres. Afinal de contas, o mundo está de braços abertos para te servir. Os miseráveis tem a honra de dividir uma geração contigo, alguém tão genial, tão brilhante, tão divino. É dever deles a solicitude para com você, não acha? Grandes conquistas virão, reizinho. Muito maiores do que qualquer ratazana européia um dia já pôde imaginar. Mas enquanto as glórias ainda não se concretizam, beba. Somente beba. Até desaparecer-lhe o fígado.
Uma voz juvenil, neste momento, cessou o seu delírio abruptamente.
_ Meu rei! Mil perdões por interromper-lhe!
Era um jovem e raquítico soldado. Parecia nervoso por estar em presença de alguém tão importante. Tinha como suas vestes o uniforme-modelo dos cavaleiros da Ordem do Templo, utilizado nas cruzadas do século anterior. Todavia, distinguia-se destes pela tonalidade azul-marinho substituindo a vermelho-sangue e por conter um brasão com a letra "P" no lado esquerdo do peito de sua armadura.
_ Já interrompeu, ora! Por que me solicita o perdão, asno?
_ Então perdoa-me por lhe solicitar o perdão, meu rei, se isto ameniza o meu deslize. Vim somente lhe transmitir um recado da rainha. Ela me pediu para vir lembrar-lhe que está quase na hora de discursar para o povo. A rainha e os membros da elite já estão na sacada do castelo. Sua louvável presença é a única que falta para o início do discurso real.
_ Ah! Claro! Já havia me esquecido. A ressaca me veio mais forte do que o habitual nesta manhã. E se não estivesse tão em cima do horário, queria embriagar-me antes do enunciado. Você já imaginou? Tente imaginar, se o seu retardado intelecto não te impedir. Discursar completamente bêbado! O povo, sem dúvidas, acharia fantástico! O que achas, capacho? Dê-me sua opinião, por mais desprezível que seja.
Enquanto falava, ele levantou-se e desceu os degraus do trono real com dificuldade, cambaleando.
_ É... Seria memoroso! Com toda a certeza!
_ És um bom rapaz, soldadinho. Você é dos meus, eu tinha a pia convicção! Inclusive, acho que a sua figura é a que falta para completar nossas diversões alcoólicas que ocorrem depois do último badalar do sino. O que me diz, meu companheiro? Licor e vinho à vontade depois do horário dos mortos! Está de acordo?
_ Verdadeiramente, meu rei?
O soldado recém-formado olhou para ele com o olhar mais inocente que se pode imaginar.
_ É claro que não, capacho! Onde já se viu? Uma barata do exército imperial feito você em meio aos mais finos nobres! Tira-te as patas do meu salão real, imbecil!
O soldado saiu imediatamente da sala privada do rei, trêmulo. Ele, em todo o tempo com um largo sorriso no rosto, gargalhou de suas próprias anedotas. Ainda assim, a informação que o seu subordinado lhe transmitiu estava correta. Faltavam poucos minutos para o discurso semanal do rei para os seus populares. Era mais um domingo gelado de inverno. Ele seguiu pelos cômodos e corredores do Castelo de Woodyard. Conforme caminhava, escutava um coro uníssono, em êxtase, que se tornava mais forte conforme ele se aproximava da sacada do castelo.
_ Vida longa ao rei! Vida longa ao rei! Vida longa ao rei!
Ele, enfim, chegou até a sacada. O povo ali presente, em frente ao castelo, engrossou ainda mais o hino quando o viu. Com os braços abertos, de aparência amigável e singela, ela acenou para o povo que estava abaixo, como sempre. A rainha, idem, estava ali, sempre à sua direita, ora envolvida pelos braços dele, ora também saudando o público.
_ Bebi o dobro do que você bebeu nesta madrugada, meu amor. E despertei três horas antes de ti. Cômico, não acha?
_ A força feminina! É o que nos mantém no poder!
Sua esposa era uma mulher de quase trinta anos de idade. Os efeitos do tempo, entretanto, inegavelmente eram muito gentis com ela. Aparentava ser dez anos mais jovem. A rainha chamava a atenção, sem sombra de dúvidas, pela beleza física: mulher de corpo esbelto, e de rosto tão atraente quanto.
Ele, enfim, deu início ao pronunciamento real. De cunho populista e com muita convicção em toda frase que proferia, ele exaltou a laicidade de sua monarquia. Alegou que não admitiria, nem por cima do seu cadáver, que a coroa compartilhasse o governo com o Papa. Como o de costume, apontou o dedo para a Igreja Católica, condenando-a pelo massacre estúpido daqueles que ela julgava como infiéis. Posteriormente, reiterou o seu compromisso com as camadas mais baixas da sociedade. Se auto-intitulou como o pai dos pobres. Alegou que reduziria o preço do trigo pela metade. E ganhou ainda mais a simpatia de seus ouvintes quando comunicou que distribuiria pães de forma gratuita em alguns pontos dos vilarejos de seu reino, garantindo o direito básico da alimentação para todos e todas. Penhorou, também, que os soldados, tanto os da elite quanto os do império, seriam valorizados e teriam a sua dignidade garantida. Afinal, segundo ele, na sua visão de governabilidade não existiam reis e capachos. Existiam seres humanos buscando um bem comum. E, finalmente, levantou a sua principal bandeira: garantiu que, enquanto ele tivesse a coroa sobre a sua cabeça, homens e mulheres seriam iguais. Os mesmos direitos. As mesmas funções. Os mesmos papéis na sociedade. Exaltou com as mais fascinantes palavras o arquétipo da mulher independente e empoderada. Discorsou primorosamente durante quase trinta minutos sobre a suma importância da equidade dos sexos em um meio social evoluído.
O povo foi ao delírio, como já era costumeiro no pós-dicurso do rei. O barulho era ensurdecedor. Toda gente gritava o seu nome à todo pulmão, confiando cegamente na benevolência de seu líder. Ele era uma unanimidade entre o povo. Não havia uma alma viva que abrisse a boca para reclamar de sua forma de reinar. De suas ideologias modernas. Era um verdadeiro rei hegemônico. O mais perto que se havia de Deus em solo terreno. Ele, por sua vez, sequer lembrava do que havia dito em seu discurso alguns minutos antes. Sua cabeça estava em outro lugar. Nas nuvens. Só conseguia pensar nas fartas moedas da corrupção caindo sobre suas mãos - que financiavam esbórnias, orgias, bebedeiras e afins suas, da rainha e de seus aliados mais próximos - e no futuro promissor de seu império populista, que em um dia não tão distante haveria de se expandir para os quatro cantos da Europa, em um reinado jamais visto antes na história da humanidade.
Assim que terminou o seu enunciado ao público, em meio aos berros que manifestavam apoio ao seu reinado, ele arregaçou a sua manga esquerda, revelando o mesmo o rei de espadas de outrora, a mesma carta que ele havia embebido no vinho. Ele havia a escondido em seu uniforme imperial quando saiu do salão real.
_ Vês isso, reizinho? Isso não é nada. É um grão de areia perto do império gigantesco que Júpiter te reserva. Terá o mundo aos seus pés, é inevitável. A ordem cósmica quis assim. As próximas maltas vão aprender sobre o seu nome. Sobre tudo que te envolve. E até sobre o seu sabor de licor preferido. E você? Você só deve saber o seu próprio nome. É o que mais importa. Reizinho, é assim que gira o ciclo da vida: manda quem pode, obedece quem tem juízo. E eles tem. Você vê cada vez mais de perto que tem. O universo deve respeito por aquele que já nasceu abençoado. E ninguém vai ser capaz de te impedir, reizinho. Ninguém. Nem mesmo Deus.
Obrigado por ler e aguardo ansiosamente pelo feedback! :)
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2019.04.20 23:39 Samuel_Skrzybski STEEL HEARTS - INTRODUÇÃO (PARTE 1)

Infelizmente, eu já vi que o sub de escritores brazucas não é lá muito populoso. Eu não sei se um dia alguém vai chegar a ler a introdução da minha narrativa, mas se você está aqui, lendo a minha nota pré-texto, eu peço humildemente o seu feedback. No meu círculo social, rigorosamente NINGUÉM tem tempo e paciência para ler tudo e me dizer o que achou - e eu entendo perfeitamente kkkkkk. E, se me permite um segundo pedido: se for me dar um toque, seja na gramática, seja na minha forma de decorrer a história, faça críticas construtivas, por favor.
E sobre a introdução: se um dia a minha história porventura se tornar um livro - e eu não faço nenhuma questão que isso aconteça - ele se iniciaria após todos os fatos que eu vou narrar abaixo - e estes fatos iriam se revelando no decorrer dos capítulos. Essa introdução tem o único e exclusivo objetivo de dar um entendimento melhor ao leitor atual - você! - sobre o "universo Steel Hearts": contexto histórico da trama, histórico das personagens, eventos que moldam a narrativa e afins. Em um eventual livro, essa introdução seria inexistente e ele se iniciaria no prólogo - o qual eu já escrevi e vou postar aqui também, ainda hoje ou amanhã. E até o momento atual, o prólogo é onde a minha história está empacada :{
Enfim, sem mais delongas: boa leitura! :)
[EDIT: Eu vou ter que dividir a introdução em duas partes, para conseguir postar - eu não sabia que o Reddit tinha um limite de caracteres. Eu vou postar a Parte 1 agora e a Parte 2 eu posto em alguns minutos, logo na sequência.]
Cronologicamente, a trama se inicia em 1412.
Dois jovens oficiais do Reino da Catalunha se perdem no interior de uma floresta de mata densa em uma patrulha rotineira e descobrem uma reserva imensa de ferro, cobre e bronze no interior de uma caverna - esta, batizada de Madriguera de Sán José. Todos estes citados, minérios primordiais para a construção de equipamentos de combate e, no auge da Idade Média, eram de extremo valor. Após apurações mais profundas, foi descoberto que a reserva era muito maior do que se imaginava e se estendia por todo um território, conhecido como Península de Acqualuza. Naturalmente, os olhos de toda a Europa Medieval se voltaram para as terras de Acqualuza, que era território da Catalunha - região onde atualmente se localiza a Espanha - por direito, comandada desde 1383 pelo rei Carlos Villar. O que antes era só mais um pedaço de terra passou a ser visto por Carlos Villar como um trunfo para instalar o seu reinado como a maior potência militar e econômica da Europa e, por tabela, do mundo.
Entretanto, alguns anos mais tarde, o rei da Catalunha foi assassinado por sua própria filha primogênita, Alice Azcabaz Villar, movida pela ganância e pelo poder. Após assumir o trono em 1414, Alice, sem nenhuma experiência como governanta em seus 19 anos recém-formados e se vendo incapaz de colocar ordem em um reino inteiro sozinha, firmou uma aliança com a família Winchestter, uma tradicional linhagem nobre da Inglaterra, que se instalou na Península de Acqualuza e passou a governar a mesma.
É importante ressaltar que Acqualuza não se resumia apenas a ferro, cobre e bronze. Existia um povo vivendo naquela região. Uma civilização. Pessoas que se instalaram naquele lugar por gerações, muito antes de descobrirem que a península, na verdade, era uma verdadeira "galinha dos ovos de ouro". Os Winchestter foram protagonistas de um governo totalmente corrupto, que durou dois anos. Exportaram minérios, espadas, lanças, escudos, armaduras e afins da mais alta qualidade para os quatro cantos da Europa e enriqueceram de uma maneira rápida e efetiva. Mas, em contrapartida, o povo de Acqualuza vivia na miséria, na pior crise socioeconômica de sua história. A verdade é que a família Winchestter, juntamente de Alice Azcabaz, visavam somente os seus interesses pessoais. Enquanto a fortuna pessoal dos Winchestter decolava, a Península de Acqualuza entrava em rota de colisão, mergulhada na pobreza extrema. Os cidadãos acqualuzenses viravam quarteirões e quarteirões em filas intermináveis para a distribuição gratuita de pães velhos e mofados, para que não simplesmente morressem de fome. E por mais que a educação, saúde, segurança e desenvolvimento social da região fossem precários, o povo parecia anestesiado. Como se estivesse tão fraco e oprimido que sequer conseguisse levantar a voz para questionar os seus governantes.
Era nítido que o governo acqualuzense era instável, o que chamou a atenção dos ingleses. Talvez a maior potência econômica e militar da Europa no momento, a Inglaterra, conduzida por seu renomado exército imperial e pelo jovem e controverso rei Sabino III, estudava maneiras de depor o governo dos Winchestter e tomar as ricas terras de Acqualuza para si - o que soava como justo para os ingleses, afinal, os atuais governantes do território acqualuzense eram dos seus. A carta na manga dos ingleses era o povo de Acqualuza e as condições desumanas nas quais estes viviam. A estratégia, inicialmente, era enviar soldados ingleses travestidos de cidadãos acqualuzenses para o território dominado pelos Winchestter e forçar uma revolta contra o governo vigente. Os forasteiros organizaram tumultos, passeatas e até fizeram ameaças aos nobres, em uma tentativa de fazer o próprio povo fazer o trabalho sujo de derrubar os monarcas do poder por eles, evitando um ataque direto e um consequente e nefasto atrito entre Inglaterra e Catalunha, com quem mantinham uma cordial relação diplomática. Os cidadãos da península até esboçaram uma reação com os primeiros protestos, mas logo adormeceram novamente. Vendo o comodismo que o governo imoral da família Winchestter instalou nas terras de Acqualuza, Sabino III optou por uma solução mais radical: a criação da CAJA.
A CAJA nada mais era do que uma organização secreta, patrocinada pelo governo da Inglaterra e composta por militares do mais alto escalão do Exército Nobre Inglês e por assassinos de aluguel de elite. O objetivo? A princípio era, durante uma noite, impedir que os postes de lamparinas a óleo vegetal fossem acesos na Península de Acqualuza. E assim, na escuridão total, um pelotão seria responsável por invadir, saquear e depredar o castelo dos Winchestter e outro grupo realizaria a maior chacina já vista na Europa Medieval: estes invadiriam casas de cidadãos comuns e matariam a sangue frio qualquer ser vivo que encontrassem pela frente. E, como cereja do bolo, deixariam os corpos ensanguentados expostos nas ruas de Acqualuza para que todos os sobreviventes se deparassem com a tragédia ao nascer do sol. Um mar de sangue inocente que os ingleses julgavam como necessário: com a carnificina, a Inglaterra esperava que o traumático choque de realidade mostrasse ao povo acqualuzense de uma vez por todas que os Winchestter eram incapazes de proteger, tanto os cidadãos, quanto a eles próprios, e enfim compreender todas as consequências da péssima administração dos nobres ingleses em suas terras. A matança tinha data e hora para acontecer: 10 de Novembro de 1415, a partir das 18h30.
E neste contexto, somos apresentados a Constantin Saravåj Mandragora - ou simplesmente Saravåj. Nascido na Iugoslávia, na região dos Bálcãs e a 1200 km de Londres, era filho de uma família de camponeses extremamente pobre e sem perspectiva nenhuma de ter uma qualidade de vida minimamente digna. Todavia, desde os primórdios de sua vida, era uma criança criativa, inteligente e escandalosamente diferente das demais. Assim como seus pais e toda a Europa Medieval, acompanhava pelos jornais o drama do povo de Acqualuza, que ganhou notoriedade internacional. Lendo jornais de origem britânica, Saravåj aprendeu o inglês por conta própria. E foi por intermédio desses folhetos estrangeiros que o menino ficou sabendo da existência de Dúbravska. Um sábio monge acqualuzense que se isolou da civilização em meados de 1360 e passou a viver sozinho em cordilheiras, em um estado infinito de meditação. Era considerado pelos cidadãos de Acqualuza como o mais próximo de Deus que tinha-se na Terra - havia quem dissesse que ele tinha contato direto com o Todo-Poderoso. Quando ficou nítido que não existia nenhum panorama de melhora para o povo acqualuzense da situação de calamidade em que se encontravam, os mais importantes homens da Península de Acqualuza começaram a procurar por Dúbravska, na esperança de que este tivesse a fórmula perfeita para contornar todo sofrimento de seu povo. Quando contatado por meros cidadãos comuns, o monge afirmou que a Península de Acqualuza tinha um período de guerras incessantes pela frente, onde a paz seria impossível e seus governantes seriam seus maiores inimigos. E profetizou que, após o período de trevas, somente uma criança de coração puro e livre de maldade seria capaz de liderar um reinando que enfim devolveria a paz para Acqualuza. Algumas horas mais tarde, no pôr-do-sol, Dúbravska entregou sua alma para Deus e realizou a sua assunção aos céus, e nunca mais foi avisado por ninguém. Quando terminou a sua leitura, Saravåj sentiu um arrepio que correu todo o seu corpo e não teve dúvidas: era ele próprio a criança da profecia.
Alguns anos mais tarde, inconformado com a sua situação e de sua família e revoltado com a forma com a qual os nobres engoliam as classes inferiores, Saravåj foi para a Inglaterra incentivado por sua mãe em busca de mais oportunidades assim que se tornou um homem adulto, em uma árdua caminhada, onde cruzou a Europa em 25 dias até chegar em Cherbourg-Octeville, na Gália, de onde seguiu de balsa para a Inglaterra. Na terra da rainha, pela primeira vez na vida a sorte sorriu para ele - e em dose dupla: o garoto de até então 18 anos entrou e cresceu rapidamente no exército inglês e também apaixonou-se reciprocamente por Camilly Shaw, sem um pingo de dúvidas, uma das mulheres mais atraentes de todo o Reino da Inglaterra: o seu cabelo lembrava os radiantes raios solares, de tão loiro. Também era dona de claros olhos azuis cor-de-mar. A garota era membro e a natural herdeira de uma respeitada família de militares de elite. Pela primeira - e única - vez, Saravåj descobriu o amor. Saravåj filiou-se como peão ao Exército Nobre Inglês em 1413 e à CAJA em 1415. Sua mãe, em uma das cartas que mandava da Iugoslávia semanalmente para Saravåj, foi totalmente contra a ideia de saber que o seu próprio filho derramou o sangue de pessoas inculpadas e encorajou Saravåj a trilhar os seus caminhos longe do militarismo. Sugeriu que mudasse o seu foco para ler livros e adquirir conhecimento, como era o sonho dela. Saravåj sabia que era utopia. Prometeu para sua progenitora que seria a primeira e última vez. O garoto iugoslavo, idealizando o seu futuro com Camilly acima de qualquer coisa, tinha medo da ameaça que os Winchestter poderiam vir a se tornar um dia, sem conhecer o maquiavélico plano do governo inglês de usar a tirania dos Winchestter como justificativa para aumentar as suas riquezas com as terras de Acqualuza.
No dia 10 de Novembro daquele mesmo ano, Saravåj invadiu de surpresa na calada da noite o imenso castelo da família Winchestter, junto de colegas de esquadrão e de assassinos profissionais em uma noite que deveria ser de comemoração para os monarcas, com as suas típicas e corriqueiras festas regadas à música clássica e todo tipo de bebida alcoólica. No saldo final, o garoto, que sempre se destacou com espadas em punhos, assassinou Diógenes Dionisi, o próprio patriarca da família Winchestter. Foram incontáveis as baixas de membros dos Winchestter naquela madrugada. Do outro lado da moeda, o morticínio foi um sucesso: o nascer do sol foi acompanhado pelo choro de homens e mulheres abraçados com os ensanguentados corpos sem vida de seus entes queridos. O vermelho-sangue banhava todas as ruas de Acqualuza, em um cenário tão surreal que sequer parecia realidade. Esta noite ficou marcada por toda eternidade na história como "O Domingo Sangrento".
Com a morte de diversos membros da família Winchestter e com a desestabilização total dos mesmos, o povo de Acqualuza, enfim, despertou. Passeatas violentas que levavam como slogan a frase "OS MONARCAS NÃO NOS AJUDAM!" eram diárias na Península de Acqualuza. Zoey Deschamps, a viúva de Diógenes Dionisi, assumiu o mandato de seu ex-marido juntamente de Alice Azcabaz, em uma diarquia frágil e que sofria forte desaprovação do povo, em um período de seis meses que ficou conhecido como "Caveirão". A gota d'água foi o suicídio da rainha Alice Azcabaz, a própria pioneira da tomada de Acqualuza, que se enforcou após não suportar a pressão e as ameaças que vinham de seus próprios compatriotas. Com a morte de Alice, Zoey abdicou do trono, fazendo com que a Península de Acqualuza caísse em anarquia total.
Sem o exercício nenhum tipo de governo nas desejadas terras acqualuzenses, a Inglaterra tinha o cenário perfeito bem à sua frente. Contudo, optou por agir com cautela. Sabino III, sabendo que o povo de Acqualuza ficaria acuado e com um pé atrás após a péssima experiência com um governo gringo - e inglês - em suas terras, enviou seus mais competentes diplomatas para a Península de Acqualuza, na intenção de negociar a almejada anexação das terras de ferro, cobre e bronze com os representantes do povo acqualuzense, em um consenso bilateral, que fosse benéfico para ambos os lados, e pouco a pouco, foi colocando os seus oficiais dentro de Acqualuza, na esperança de criar raízes inglesas na península. Na teoria, a Península de Acqualuza se tornaria parte e dependente do Reino da Inglaterra em troca de estabilidade governamental. O povo sabia que eles precisavam de um rei e que a anarquia só iria levá-los ao fundo do fundo do poço. Não haviam muitas saídas que não fosse aceitar o acordo proposto por Sabino III.
Entretanto, havia uma maçã podre neste cesto que atendia por nome e sobrenome: Matiza Perrier. Um prepotente e irreverente gênio nato, inglês descendente de iugoslavos, membro do Exército Nobre da Inglaterra e que participou do saqueamento do castelo da família Winchestter ao lado de Constantin Saravåj no 10 de Novembro. Porém, paralelamente aos seus serviços prestados ao Reino da Inglaterra, Matiza liderava uma organização de interesses sombrios conhecida como Pasárgada. Os pasargadanos tinham um objetivo em comum com os imperiais ingleses: tomar as ricas terras da Península de Acqualuza para si. Mas utilizavam meios diferentes - e mais inteligentes - para isto. A Pasárgada era o grande ventríloquo por trás de cada atitude do reino inglês. Era quem mexia as peças no tabuleiro: manipulou o governo da Inglaterra para que este manipulasse os cidadãos acqualuzenses para que estes derrubassem os Winchestter do poder. No fim das contas, quem se beneficiaria da ausência de um rei na península e sentaria no trono seria Matiza Perrier - e ele tinha meios indefectíveis para isto. Tanto que, subitamente, como um raio que cai sem nenhum aviso prévio, as negociações entre a Inglaterra e o povo de Acqualuza pararam. Quando os nobres, oficiais e diplomatas ingleses se deram conta e olharam para o alto, só puderam assistir estáticos e de camarote a coroação de Matiza Perrier como rei de Acqualuza, que a partir daquele momento passou a ser um reino independente dos catalães, nomeado de "Pasárgada". Zoey Deschamps - agora noiva de Matiza Perrier - arquitetou por trás das cortinas as condições necessárias para que a Pasárgada atravessasse as negociações entre a Inglaterra e o povo acqualuzense e tomasse a península para si. Os cidadãos acreditaram com toda inocência do mundo que um governo novo e, acima de tudo, não-inglês, era o ideal para eles naquele momento.
Quando a notícia de que uma desconhecida oposição havia vencido a disputa pelo trono chegou aos ouvidos de Sabino III, ele ordeu a retirada imediata de todas as suas tropas das terras de Acqualuza. Muitos conseguiram fugir para regiões vizinhas - entre estes, Constantin Såravaj - mas muitos mais jamais puderam voltar para suas casas. No dia 10 de Julho de 1416, a Pasárgada assumiu oficialmente a Península de Acqualuza e o agora rei Matiza fez o seu primeiro discurso ao seu povo. O comandante da Pasárgada proferiu palavras bonitas e se mostrou um defensor ferrenho dos direitos humanos e da inclusão social das classes menos favorecidas, ganhando como recompensa uma salva de palmas ensurdecedora do povo e a simpatia dos mesmos. Mas contradisse-se quando ordenou que seus oficiais, de modo acaçapado, executassem sem dó nem piedade todo homem que tivesse um brasão inglês no peito nos limites de seu território. Saravåj assistiu imóvel muitos companheiros sendo brutalmente esquartejados durante o tumulto, mas foi bem-sucedido em sua fuga. Se instalou, assim como a grande maioria dos ingleses sobreviventes, na pequena vila camponesa de Balistres, pertencente ao Reino da Gália (onde atualmente se localiza a França) e que fazia fronteira direta com a Península de Acqualuza.
Em Balistres, Constantin Saravåj enfim pôde encontrar-se com sua amada após sua fracassada e última missão militar. Após uma longa conversa, Camilly convenceu Saravåj a deixar o Exército Nobre da Inglaterra e se instalar na vila de terras férteis de Balistres juntamente a ela. Muitos ex-oficiais ingleses seguiram o mesmo caminho e colocaram o seu uniforme imperial na gaveta para se dedicar a uma vida pacata em Balistres. Entretanto, o nobre guerreiro iugoslavo ainda se preocupava muito com o que acontecia em Acqualuza. Em seus pensamentos, sentia muito pelo povo daquele lugar. A Pasárgada era uma ameaça muito maior do que os Winchestter. Tanto para a Europa Medieval quanto aos seus próprios cidadãos. Seria uma mentira dizer que a qualidade de vida do povo da península não melhorou muito com o governo da Pasárgada. Mas a corrupção continuava - a diferença é que, desta vez, acontecia de uma maneira inteligente. O grande coringa de Matiza Perrier era o próprio governo anterior à Pasárgada: os pasargadanos não erradicaram a corrupção. Apenas a diminuíram. Ainda assim, muitos recursos que deveriam ser destinados ao povo acqualuzense eram usados visando somente os interesses pessoais de Matiza Perrier e de seus aliados mais próximos. Em uma comparação inevitável com o governo descaradamente ilícito dos Winchestter, a impressão era a de que Matiza estava tirando leite de pedra e levantando a Península de Acqualuza da lama. A astuta ideia era, além de roubar, alienar o povo. Sem instrução econômica, os acqualuzenses idolatravam Matiza, que aumentava a sua popularidade com seus periódicos discursos infestados de falso moralismo. No balanço geral, uma minoria do povo enriqueceu e a grande maioria apenas se tornou menos pobre. Uma sociedade cada vez mais segregada entre ricos e plebeus. Tudo ocorria da forma mais perfeita possível para que Matiza Perrier enfim começasse a colocar as suas peças no campo adversário para dar início a um temível império pasargadano.
Saravåj, um dos pivôs da agora extinta CAJA, até queria fazer algo para que o povo de Acqualuza abrisse os seus olhos mais uma vez. Mas era totalmente desencorajado por Camilly. A garota queria que Saravåj se concentrasse na vida a dois. Camilly afirmou que para ela, pouco importava passar os seus próximos setenta anos como mera camponesa. Que não reclamaria se comesse cenoura, couve e batata todos os dias. A única coisa que realmente importava era estar ao lado de Saravåj. Juntos, vivos e seguros. Os seus futuros filhos poderiam viver uma infância alegre, brincando no campo e longe das guerras e de toda crueldade do mundo, realidade rara na Era das Trevas da Idade Medieval. A imagem de uma família perfeita e unida, mesmo que ainda somente na imaginação e muito longe de ser concretizada, era linda. Sendo assim, tanto Sabino III quanto Constantin Saravåj desistiram das terras da Península de Acqualuza, reconhecendo finalmente, que agora estas mesmas eram de domínio da Pasárgada. A paz reinou em Balistres durante alguns meses. Saravåj e Camilly residiram felizes naquela vila e fizeram inúmeros planos para os próximos anos. As colheitas foram um sucesso. A segurança, estruturada por antigos e competentes soldados do escalão de elite do exército da Inglaterra, era impecável. As crianças tinham acesso à educação de qualidade, tanto militar quanto acadêmica. Após muito esforço de seus residentes, Balistres via em seu horizonte uma década próspera e abundante.
Até que, durante um pôr-do-sol, a Pasárgada, faminta por ampliar os seus domínios, invadiu o vilarejo gaulês. Constantin Saravåj e seus companheiros bem que tentaram defender as suas terras com unhas e dentes, mas em vasta desvantagem numérica, foram facilmente reprimidos. Por mais uma vez, a Pasárgada patrocinou um massacre. Muitas pessoas, leigos e militares, foram mortas. A maioria delas, jovens que partiram deste plano sem concretizar os seus sonhos. Nesse ínterim do ataque do reino de Matiza Perrier ao vilarejo de Balistres, Camilly Shaw feriu-se com gravidade. Após ter uma lança atravessada em seu peito, a garota começou a perder muito sangue. Os remanescentes que restaram da investida pasargadana transcorreram para a metrópole de Nice, uma das maiores cidades da Gália e uma das pouquíssimas que contavam com assistência médica especializada. Novamente, a Pasárgada venceu e incorporou a terra de Balistres aos seus territórios.
Em Nice, Camilly foi uma das primeiras a receber atendimento dos paramédicos. Após uma rápida e sucinta análise, o iátrico afirmou a Saravåj que a hemorragia de sua dulcinéia era um quadro clínico irreversível para a medicina da época. Camilly Shaw deveria ter, na melhor das hipóteses, algumas horas de vida. E como se não bastasse, o médico ainda constatou que a garota estava grávida há algumas semanas e teria o infeliz destino cruel de falecer juntamente de seu bebê. Foram as palavras mais duras que já entraram pelos ouvidos de Saravåj. O garoto sentiu que estavam arrancando-lhe brutalmente a parte mais importante de sua essência. Camilly era motivo pelo qual Constantin Saravåj realizou atrocidades pela CAJA. Pelo qual desistiu da carreira militar. E, acima de qualquer outra coisa, a garota era o motivo pelo qual Saravåj estava disposto a matar e a morrer, se fosse necessário. Durante a caminhada até Nice, Camilly fez com que Saravåj prometesse que, independentemente do que viesse a acontecer dali em diante, ele não iria derramar uma lágrima sequer. Nem por ela, nem por ninguém. Mas o garoto iugoslavo foi incapaz de cumprir a sua promessa quando soube que iria perder a mulher da sua vida e seu primeiro filho de uma só vez. "Se Camilly morrer, por que ou por quem eu tanto matei?", pensava Saravåj, entre lágrimas e soluços. Matrimônio. Sonhos. Planos. Tudo virou pó de um instante para o outro. Em pouco tempo, o garoto estaria sozinho no mundo. Soava injusto, mas já não havia tempo para prantos. Durante a trágica notícia, inúmeros mensageiros da Gália chegaram aos berros em Nice, gritando pelas ruas de maneira histérica para quem quisesse ouvir que a Pasárgada estava invadindo a Gália de modo feroz. As tropas da grande metrópole gaulesa precisavam se organizar para um provável combate e os cidadãos daquela localidade eram jogados à deriva, sendo obrigados a se refugiar como pudessem.
Por mais uma vez, os sobreviventes do morticínio de Balistres teriam que fugir de seus algozes. Até a metade do caminho, Saravåj levou Camilly em seus braços, com a estúpida esperança de que Deus, se de fato se fizesse existente, oniconsciente, bondoso, justo e misericordioso, operasse um famigerado milagre. Até que, nos arredores de Paris, tornou-se inviável continuar carregando uma mulher que havia recebido uma sentença de morte. A consciência de Camilly estava por um fio. Os braços de Saravåj já há muito eram humanamente incapazes de continuar carregando um corpo tão pesado. Os retirantes precisavam se apressar, afinal, eles não sabiam o quão rapidamente a Pasárgada estava avançando. Não havia mais como adiar a despedida.
O garoto, afastando-se do grupo de Balistres, encostou Camilly em uma grande figueira. O casal, na escuridão da noite, era iluminado somente pela luz da lua cheia. A garota, em um último e doce ato, colocou nas mãos de Saravåj um colar dourado, que continha um pequeno pingente em formato de coração. E feito isso, fechou os olhos. Aos poucos, a sua respiração pesada cessou. E, por fim, o seu coração deu a sua última batida - um último "eu te amo" à Constantin Saravåj. Após a morte de Camilly Shaw, que sequer teve a oportunidade de ter um velório digno, os que restaram do vilarejo de Balistres continuaram a sua jornada durante toda madrugada. E só pararam quando alcançaram a cidade de Baden-Wüttenberg no nascer do sol, já no território da Germânia (nos dias de hoje, a Alemanha). Em solo germânico, todos os ex-soldados do Exército Nobre Inglês, entre eles, um abalado Constantin Saravåj, fizeram uma última continência à bandeira da Inglaterra, se despediram e trilharam seus respectivos caminhos.
"Olha bem, mulher. Eu vou te ser sincero. Eu sabia que ia dar errado. Esse mundo está corrompido e a felicidade aqui não passa de uma utopia. Nós vamos ficar longe um do outro por um tempo, mas ainda vamos nos reencontrar. Eu não posso te prometer, mas eu juro que anseio por isso do fundo da minha alma"
Após este calamitoso ocorrido, Saravåj nunca mais foi o mesmo. Tornou-se uma pessoa amargurada. Cheio de ódio no coração, admitiu para si mesmo que a criança da profecia não passava de um delírio. Também se convenceu de que todo o amor que ele podia dar em vida terrena, ou qualquer sentimento positivo que fosse, foram para o túmulo juntamente de Camilly Shaw. O garoto iugoslavo passou a dedicar a sua vida a tecer um planejamento suficientemente perfeito para derrubar a Pasárgada - e em especial, Matiza Perrier - já que estes haviam tirado tudo o que ele tinha de mais importante. Suas terras. Seu povo. Seu filho. O grande amor de sua vida. Dizimar a Pasárgada. Concretizar a sua vingança. É para isso que Saravåj passou a viver. Afinal, tudo o que era lindo. Tudo o que era bom. Tudo o que era perfeito. A Pasárgada destruiu.
submitted by Samuel_Skrzybski to EscritoresBrasil [link] [comments]


2018.11.20 08:39 cant_change_name Duas dicas importantes para vida.

A primeira dica é: não divida apartamento com amigos. Pelo menos não sem ter o devido respaldo legal e todas as formas possíveis de se resguardar, além de atuar de forma preventiva, seja com contratos, documentação, pagamentos, etc.

Segunda dica é: não arrange briga com a galera do cinema, eles são ótimos em construir narrativas.

Prejuízo total: - R$3,6K, um emprego e alguns kg a mais.

No final de 2017 terminei um relacionamento de 7 anos, por nenhum motivo específico se não que pelo desgaste natural da relação. Vivíamos juntos de aluguel, em um apartamento com 2 quartos com dependência de empregada, com um aluguel justo ou até um pouco a baixo da média da região. No término, ela fez questão de resolver tudo o mais rápido possível, o que incluía se mudar e retirar o nome dela do contrato de locação (estava em nome dos 2) e também retirar a avó dela como fiadora. Justo! Por coincidência estava justo no período de renovação do contrato, então não haveria problemas com multa e transferência. Transferência essa que aconteceu de forma super tranquila, assinamos os papéis, a imobiliária aceitou meus documentos de renda e a nova forma de aluguel (agora com seguro fiança). Isso fez com que fosse gerado um novo contrato (30 meses, sendo a partir de 12 meses saída sem multa). Apesar da separação, eu estava bem. Quis ficar no mesmo apartamento mesmo com as memórias que ele trazia, tirando os vizinhos de cima que faziam lual no domingo estava tudo show.

Agora que começa o fim.

Tive a brilhante ideia de trazer amigos para morar comigo. Minha intenção desde o começo era ter uma espécie de casa-empresa. Meio que como morar no trabalho. Esses amigo sendo do audiovisual e eu do design, praticamente uma agência estava para ser criada, na minha cabeça.

Primeiro veio um, um mês pra frente veio o outro. Nisso entram vários pormenores que posso esquecer de comentar, mas que no fim acabam pesando lá pra frente de uma forma ou de outra, nem que seja para ajudar na perspectiva das partes. Por exemplo: todos os móveis eram meus. O primeiro a se mudar, que vamos chamar de "Olevon" tinha hábitos de higiene questionáveis. Pra história geral é menos importante entrar em detalhes sobre a higiene, mas digamos que as panelas ficavam inutilizáveis. O segundo tinha hábitos de higiene normais e por várias vezes encobria o amigo, literalmente salvando a loça de ir para o lixo (por vezes eu também lavava). Tudo isso era janeiro/fevereiro de 2018. Brasil, início de ano, carnaval... Tínhamos alguns projetos mas nada andava, falávamos sobre mas não fazíamos de fato. Estávamos prospectando um cliente na época e tivemos algumas reuniões sobre o assunto. A parte disso, eu havia indicado esse amigo de infância, que vamos chamar de "Dimonho" para um freela no meu trabalho. Confesso que a vaga era um pouco arrombada, porém eu sabia que a empresa não estava contente com o fornecedor atual e qualquer um que chegasse apresentando um bom trabalho levava. Em suma, esse projeto levou um mês para ser entregue após a captação de imagens (era para montar um time-lapse de uma exposição), o que me deixou um pouco desconfortável no serviço. Ok, acontece.

Como eu dizia, a princípio era tudo bom, tudo novidade, víamos alguns filmes, conversávamos sobre algum assunto do momento, fazíamos uma janta e tudo certo. Porém os 2 tinham uma vida social ativa dentro da faculdade e frequentemente faziam reuniões em casa com os amigos. Não havia problemas, até que havia problemas. Quando nenhum dos 2 trabalhavam, passavam em casa, não arrumavam nada, eu chegava em casa do trabalho e tinha visita além da casa bagunçada, começava a ter problema. Ainda mais quando todo dia tinha visita. Houve diálogo e a parte da bagunça foi amenizada, porém as visitas foram evoluindo para reuniões noturnas, até virarem praticamente festas.

Eu tinha horário normal de trabalho, acordava cedo, voltava no fim do dia, precisava descansar. Infelizmente qualquer som na casa tornava inviável o descanso, já que o corredor fazia a ligação direta da sala para o quarto. Com o tempo foram fazendo cada vez menos questão de reduzir o ruído.

Várias situações complicadas no meio disso, como a vizinha reclamando do cheiro de "ilícitos", como ela chamou, afetando suas duas crianças pequenas. Ou o dia que Olevon chegou em casa as 4 horas da manhã, com visitas e resolveu que era um ótimo momento para um karaokê a plenos pulmões.

Nesse momento, eu, otário, além de cuidar e pagar as finanças da casa adiantado (eles me repassavam depois), também era o único responsável no grupo do zap do condomínio, onde nesse dia ninguém ficou contente com o ocorrido.

Olevon sabia da cagada que havia feito, ficou uns dias de cabeça baixa e pediu desculpas. Dada as condições de desemprego, baderna, ilícitos e nenhum projeto andando de fato, ficou claro pra mim que era momento de desistir, aquilo não iria se tornar produtivo. Alertei que começaria a buscar apartamento. Não com o tom de ameaça, pelo contrário, nessa parte entra um grande erro meu...

Pra mim de certa forma era importante que os caras tivessem a liberdade deles, em parte eu gostava de imaginar que estavam fazendo cagada justamente por estar nesse vislumbre de vida adulta "independente". Eu havia convidado eles para ir lá, então não achava correto expulsá-los de volta a casa dos pais (devia ter feito), inclusive o Dimonho me sugeriu fazer isso, na boa, porém dei essa mesma explicação que dou aos senhores.

Separar e ficar na mesma casa era ok, mas além disso ter tentado morar com amigos e não dado certo já me parecia demais.

Combinamos então que eles transferiram o AP e as contas para o nome deles, já que queriam ficar. Também tinha um amigo em comum nosso que recém havia perdido o pai e procurava um lugar para morar, além que seria bom para esse amigo não ficar sozinho. Esse amigo estava disposto a "botar ordem no galinheiro", coisa que eu não estava. Me falavam para reclamar quando faziam algo errado, mas quando eu reclamava mesmo que concordassem no momento, não era seguido.

Dado esse aviso prévio de mudança, sai de lá em abril. Deixando apartamento, conta de luz e telefone no meu nome, teoricamente para ser transferido em seguida.

Você já viu onde isso irá parar né?

Antes da minha mudança, o Dimonho, meu amigo desde a 4° série aproximadamente (hoje com quase 29 anos) resolveu dar uma festinha plus, onde chamou mais gente, ouviu som mais alto e ficou até mais tarde, impedindo meu sono (era um dia de semana). Nesse momento o clima já não era mais o mesmo, quando questionado sobre, Dimonho disse que havia feito para me prejudicar mesmo, que estava sentido pois eu havia convidado ele para morar junto e agora estava indo embora. Ah, lembra dos móveis? Não houve nenhum prejuízo particular nessa última festa, porém com o fumo era constante, o sofá ficou um pouco esburacado. Acho que tudo bem, acontece né? Fui otário em tantos outros aspectos que nem tenho pq encasquetar com isso.

Vale ressaltar que eu havia começado um novo relacionamento e aproveitaria essa mudança para também, pq não, morar com essa pessoa.
Fica óbvio para qualquer pessoa que as contas e contratos devem ser transferidos, já que não moro mais lá, certo? Eu sabia que haveria uma multa em caso de rescisão do contrato, eu estava disposto a arcar com ela se eles preferissem sair do AP pq eu iria sair. Como eles decidiram ficar, deveriam transferir o contrato.

Bom, nessa de pagar adiantado as contas, ficaram algumas pendências, além das transferências de nome.

Nessa parte entraria toda uma questão aqui de datas, contatos, provas... mas para não ser mais pedante, o óbvio aconteceu: apesar das minhas constantes cobranças ao longo de meses, nenhuma conta foi transferida ou paga.

Por um pouco de sorte, esse 3° amigo que se mudara ficando no meu lugar, era mais responsável e por muitas vezes intermediava a comunicação, lembrava eles dos valores, comentava sobre transferir as contas, etc.

Depois de alguns meses eu consegui reaver os valore das contas pendentes, porém não tive progresso com as transferências.

Meu novo AP teve muitos problemas, a mudança as pressas me cegou um pouco para a escolha, e somando isso a ter que cobrar os colegas para transferir as coisas, fui aos poucos quebrando. Já não rendia mais no trabalho, não dormia de noite, passei boa parte desse período com azia, por sorte acho que não desenvolvi nenhuma úlcera.

Com a não transferência das contas, o que eu podia notar era um acúmulo de pendências. Telefone 3 meses atrasados, aluguel 2 meses acumulado, luz por sorte logo o 3° elemento logo conseguiu passar para o nome dele.

Eu tinha minhas contas mais a dos meus "filhos", no papel, também eram minhas contas.

Nesse desespero de contas acumulando no meu nome, sabendo que isso poderia apenas piorar progressivamente, fui falar com o pai do Dimonho, que conheço basicamente também desde a infância, frequentei a casa, etc.

O pai é uma pessoa muito correta, advogado, de origem humilde que trabalhou seu caminho para o sucesso na vida. Em uma conversa amigável, explico a minha situação, e apesar de ele um pouco relutante com os aspectos negativos do filho, me diz que poderia ficar tranquilo, que aquilo seria uma responsabilidade dele e que eu não deveria mais me preocupar.

Um pouco de respiro.

Dada a forma com que os ex-colegas de casa reagiam as cobranças das transferências, eu suspeitava fortemente que esse contato com o pai do Dimonho acarretaria em represálias, já que os 2 por vários períodos de suas vidas tiveram uma relação conturbada. Como após inúmeras cobranças nenhuma atitude havia sido tomada, com a tranquilização e tomada de responsabilidade pela parte do pai, bloqueei o zap tanto do Olevon quanto do Dimonho. Eu sabia que ouviria alguns desaforos de graça e ainda teria as contas pendentes.

Dito e feito.

Momentos mais tarde, por meio do 3° morador e intermediador me ligam. Quando endagado sobre diálogo eu me exalto, digo que não havia necessidade de diálogo (já que eu vinha tentando a meses), que havia todas essas contas pendurada mais a dívida do 3° elemento e que se soubesse a novella que estava por vir, teria apenas pago a multa e entregado as chaves e que eles precisavam ou transferir de uma vez, ou sair. Naquele momento considerando que podiam acumular mais meses e meses de aluguel, eles apenas desaparecerem o quanto antes poderia ser uma perspectiva melhor do que parecia estar por vir. Eles questionam se eu estava tentando dar algum tipo de golpe no pai do Dimonho (as narrativas!) e logo em seguida me xingam de várias coisas, dentre elas de não ser homem pra conversar sobre.

Pensei que não seria otário, fui otário.
Pq sim, eu havia sido mais otário ainda!

Outra coisa que fiz no desespero das contas acumulando foi tentar tirar o nome do 3° elemento do SPC para assim ele poder transferir tudo para o nome dele já que os outros jamais o tinham feito. Porém não rolou, nem transferir nem receber esse dinheiro de volta, R$1.8K (mas esse eu ainda tenho fé).

Eu havia me mudado em abril e essa comunicação se deu por meados de setembro.

Sou informado praticamente um mês e meio depois que vão se mudar e o AP será entregue. Agora começam as preocupações com contas pendentes, reforma para entrega e multa contratual.

Minha mãe se envolve para agilizar o processo, que já angústiada ela também a algum tempo. Nos reunimos novamente com o pai onde ele reforça os votos de que irá cumprir com o que for justo e a parte do filho dele.

Se mudaram. Começo eu juntamente com o 3° elemento o processo de reforma e entrega do AP. Orçamento, contratação, pagamento, agendamento, vistoria. Tudo comigo, que não morava la desde abril.

Ao mesmo tempo que faço isso, presto contas com comprovantes para o pai de Dimonho. Como já inventaram que eu estaria planejando um golpe, melhor não arriscar.

Entregue o AP, hora de pagar os 2 aluguéis atrasados e a multa de rescisão.

Surge uma proposta de acerto de contas / lavação de roupa suja, meio que como uma premissa de esclarecer que contas estavam pendentes e quais eram as responsabilidades de cada um. Eu enviava os documentos da imobiliária, dividia os valores de acordo com as % definidas por eles, separava quanto que era a parte de casa um de acordo com o boleto que havia enviado para eles, mas de alguma forma para eles aquilo estava "nebuloso".

Fizemos a reunião, e no final concordamos que eles pagariam sua parte proporcional ao tempo de estadia da reforma, juntamente com os aluguéis pendentes inclusive os dias extras da reforma. Não concordamos quanto a multa, já que ela existia apenas pq eles se precipitaram em sair ao invés de transferir. Porém me dispus a pagar mesmo não concordando, já que não aguentava mais essa história.

Porém nessa reunião que foram criadas e reforçadas várias narrativas, que infelizmente não tenho como provar todas como negativas, no máximo tenho prints contrários ao que foi comentado.

Uma delas seria que eu havia me mudado pois havia arranjado uma nova namorada e queria morar com ela.
- Apesar de ter aproveitado a ocasião para isso, nunca foi o motivo principal da minha saída, já que as festas/reuniões só se intensificam. Inclusive anunciei minha busca por APs logo após o episódio do karaokê.
Outra das narrativas seria que eu havia bloqueado a comunicação e portanto impossibilitaria qualquer forma de pagamento, transferência ou conhecimento sobre o prazo do contrato e multa.
- De fato eu havia bloqueado a comunicação, do zap. Eles ainda tinham meu endereço, telefone, e-mail, contato da imobiliária para tirar dúvida, contato do 3° elemento que não havia sido bloqueado. Entendo que cada um deve saber suas responsabilidades. Não era através de mim que as contas eram pagas, apesar de estarem no meu nome.
Na ligação telefônica após falar com o pai, também surgiu a narrativa que eles estariam lá de favor para ficar até o fim do contrato, assim me isentando da multa.
- Quantos favores desse tipo vocês já fizeram sem pedir ou conhecem alguém que fez sem ser solicitado? Eu disse de forma clara em um aniversário de amigos nossos que pagaria a multa naquele momento se eles quisessem entregar (antes d'eu sair), mas que se quisessem ficar teriam que transferir os docs. Nunca houve uma conversa do tipo "fiquem pq eu não posso pagar a multa agora".
Como eu cito a situação acima na ligação telefônica, eles agora entendem que "ah ele paga a multa então, podemos sair!".
- Ainda ficam aproximadamente um mês e meio procurando um novo lugar, mas sairam pq se sentiram expulsos de lá e livres da multa. Eu estava cobrando uma posição desde fevereiro sobre os documentos, e eles só se sentiram impelidos a sair quando eu literalmente falo "ou vão transferir ou sair" pq tinha meses de aluguel acumulando no meu nome?
A multa de quebra contratual seria um resíduo da minha separação e não uma responsabilidade deles.
- Juridicamente, sim. Porém não haveria multa se: tivessem transferido ou tivessem esperado o contrato vencer, se mudaram coisas de 3 meses antes do fim, eles mesmo concordaram que se soubesse não teriam se mudado. Sabe como poderiam saber? Ligando para a imobiliária, ligando pra mim, perguntando pro 3° elemento.
Depois da reunião, os últimos boletos estavam por vencer e combinamos de pagar as contas nas semanas seguintes. Fiquei cobrando e atualizando sobre as informações, além de prestando conta dos valores no grupo de zap. Aconteceu o que acontecia antes, lá por abril, março... Dias sem resposta, respostas vagas, um "amanhã" que não chega e contestações dos valores. Esperado.

O Dimonho por sorte pagou sua parte completa, apesar do atraso. O 3° elemento pagou uma parte sua e cobriu um pedaço do Olevon. Desde a reunião, Olevon mandou mensagem no grupo algumas vezes dizendo que estava atrás do dinheiro para quitar a divida.

Hoje, último dia do último boleto atrasado, Olevou decidiu que não se sente responsável pelas contas, que havia conversado com a sua mãe, que isso era uma dívida do meu divórcio e que eu não estava sendo responsável com os meus problemas, com quase 30 anos na cara.

Olevon, que na reunião havia reforçado inúmeras vezes que tomaria a mesma providência que Dimonho, que havia ficado meses sem transferir uma conta de luz que havia se responsabilizado, que havia ficado meses devendo valores para o 3° elemento (que também adiantava as contas, mas pior, nem recebia deles). Olevon que agrediu físicamente o 3° elemento ao ser cobrado das contas dele que o 3° havia pago. Olevon que vinha desde a reunião dizendo que estava fazendo de tudo para arcar com a sua parte, subitamente sentia que não tinha mais responsabilidade sobre o aluguel atrasado de quanto ele estava morando lá. Olevon disse que eu deveria ter vergonha na cara e autocrítica de estar importunando a família dele sobre esse caso (eu de fato envolvi a família de todos depois de exaurir as tentativas de resolver, ele foi a única que ele fez questão de deixar incomunicável).

Como eu havia dito, existem vários pormenores sobre cada elemento que podem alterar a visão para um lado ou para outro, porém esse é o resumo dos fatos, alguns com provas outros não.

Fico eu com uma dívida para ser paga hoje, de "amigos" que abusaram de toda minha boa vontade, auxiliados por suas famílias (nenhum dos 2 trabalha), incapazes de tomar as rédeas das próprias vidas, distorcendo a narrativa sempre se colocando como vítimas minhas. De acordo com Ovelon, estou deixando ele ofendido e magoado.

Enquanto eu tenho um prejuízo de aproximadamente R$4k, uma demissão e um nervoso constante (5h30 da manhã escrevendo isso).

TLDR: amigo+conhecido moram junto um tempo, infernizam e depois dão um calote com pitadas de fake news.

Perdoem a Bíblia, para algum lugar tinha que ir esse desabafo.

Eai a semana de vocês parecia que tinha começado ruim?
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2018.11.18 19:27 johntelles Os médicos pedem mais Estado

O Brasil é um país desigual. Ao mesmo tempo em que temos megalópoles punjantes e modernas como São Paulo, temos cidades paradas no tempo e sem acesso às mais primárias das necessidades, como eletricidade e saneamento básico. A medicina brasileira, assim como o próprio Brasil, também é desigual. O SUS, tido como modelo por muitos países do mundo, é avançado em muitos aspectos mas não consegue penetrar de forma adequada em diversos rincões do país. Ao mesmo tempo em que já vi um sapateiro do interior do RS ter acesso pelo SUS ao mesmo tratamento oncológico que Jimmy Carter (Keytruda - medicação de última geração e super cara), já vi moradores da periferia e do interior não terem acesso ao sistema por falta de médicos e de implementos básicos.
Como resolver a questão de acesso ao SUS?
SOLUÇÕES DE CURTO PRAZO.
Programa mais médicos: Algo, ao meu ver, vital neste momento. É uma medida temporária, tapa-buraco mesmo, que é impossível de ser mantida a longo prazo, mas que deveria ser mantida até que tivéssemos outras alternativas à mão. É verdade que os profissionais médicos do programa (principalmente os formados fora do pais) têm as suas limitações, mas no momento de crise é preciso de assistência médica. Frente a isso, a exigência do Revalida deveria ser abonada a aqueles que fazem parte do programa até que pudéssemos substituir eles por médicos formados no Brasil.
Exigência de que médicos recém-formados fossem obrigados a trabalhar por alguns anos na atenção básica: Não me oporia a isso, mesmo sendo diretamente afetado por esta medida. A exigência de 1 ou 2 anos de trabalho com atendimento primário poderia ser até mesmo benéfica para a medicina brasileira. Seis anos é um tempo de formação médica muito curto. Os países europeus e os EUA/Canadá - tidos como as potências da medicina mundial - exigem tempo mínimo de formação muito maior até que o médico obtenha autonomia completa. A meu ver, poderíamos manter os 6 anos de graduação porém exigir que os médicos recém-formados trabalhassem 1 ou 2 anos na atenção primária antes de poder praticar livremente, algo como os "junior doctors" ingleses. Outra opção para melhorar a formação dos médicos seria tornar obrigatória a residência médica antes de obter liberdade de praticar a medicina de forma independente (como já ocorre nos EUA).
Único problema do item acima é o serviço militar. Todo médico homem é obrigado a servir no exército como médico (mesmo quem já foi dispensado antes). Não me incomodaria de ir para algum rincão do Brasil atuar na saúde básica, mas não gostaria de depois ser obrigado a cumprir mais um ano como médico do exército.
Flexibilização dos contratos médicos: existem muitos médicos que gostariam de trabalhar 20h no posto de saúde da cidade mas não podem porque a cidade só oferece contratos de 40h. Os contratos de 40h existem praticamente que o médico só trabalhe com aquilo, e muitos médicos não querem largar os seus pacientes particulares. Muita cidade do interior tem um monte de médicos particulares e a ESF vazia por causa disso. A prefeitura poderia simplesmente criar o concurso para 2 vagas de médico 20h - um para atender de manhã e outro de tarde. Por que não fazem isso? Sei lá, mas concursos de 20h para médicos são raros.
SOLUÇÕES DE LONGO PRAZO A "carreira médica de Estado": algo pedido pelos médicos brasileiros há muito tempo. Seria uma carreira parecida com a dos funcionarios do exército brasileiro, banco do Brasil e judiciário. Algo do tipo: faz concurso para médico do Estado, é aprovado e enviado para algum lugar carente do Brasil (onde ninguém quer ir). Ao longo do tempo, o médico seria promovido e realocado a lugares mais atraentes.
Melhoria da infraestrutura brasileira: também é algo vital. Não estamos no século XIX. Não dá pra resolver tudo com um médico e um estetoscópio. Entendo que isso vai demorar uns 50 anos para melhorar, então não cabe nesta conversa por enquanto.
*Agora, gostaria de explicar alguns dos fatores que levam os médicos a evitar trabalhar no interior: *
Primeiro mito: Médicos ganham valores estratosféricos.
Não me levem a mal, médicos ganham bem, a média de rendimentos pelo que vejo das pessoas que conheço gira entre 10.000 e 13.000 reais para 40 horas.
Entretanto, uma coisa que vêm deixando os médicos (principalmente os jovens) extremamente putos é que eles tem um tempo de formação super longo para no fim das contas ganhar tanto quanto um oficial de justiça, um técnico jurídico do TJ/TRF, ou um aspone qualquer. A carreira de um médico é basicamente essa: - passar em um vestibular super concorrido (muitas vezes aguardam anos para entrar na faculdade) - depois fazer 6 anos de faculdade integral (sendo que 2 desses 6 anos são de estágio prático não remunerado) - depois fazer de 2 a 5 anos de residência médica para se especializar (trabalhando no atendimento à população SUS 60 horas por semana nominalmente, mas na verdade mais pra 80+ horas) ganhando 3000 reais por mês - os homens ainda são obrigados a passar 1 ano como médicos do exército no fim do mundo
Um cardiologista homem precisa de no mínimo 10 anos de formação e mais 1 ano de exército antes de poder COMEÇAR a trabalhar como cardiologista, ganhando tanto quanto um polical rodoviário.
Segundo mito: "Prefeitura do interior anuncia salário de 20.000 para médicos e nenhum candidato se inscreve."
Esses valores estratosféricos - do tipo 20.000 para cima - que vocês vêem no jornal/internet são totalmente irreais e é uma minoria pequena dos médicos que ganham (ainda mais no interior do Brasil). É prática super comum prefeituras do interiorzão do Brasil anunciarem salários enormes e não pagar eles depois. Aliás, uma coisa que não falta em contratos médicos de prefeituras do interior é mutreta. Uma das razões de médicos não irem para o interior é por medo destas más práticas e da falta de estabilidade do trabalho. Se uma prefeitura anuncia uma vaga de 20.000 reais e não tem candidatos, com certeza tem mutreta no meio.
(Prefeitura não paga e médicos abandonam postos de serviço em Tamandaré)[https://paranaportal.uol.com.bopiniao/sintonia-fina/prefeitura-nao-paga-e-medicos-abandonam-postos-de-servico-em-tamandare/]
(Prefeitura demite 20 médicos por telefone, e UPA de Neves fica sem atendimentos de urgência e emergência)[https://bhaz.com.b2018/10/01/medicos-demitidos-upa-neves/]
(Prefeitura não paga médicos há 3 meses e sofre judicialização)[http://blogcarlossantos.com.bprefeitura-nao-paga-medicos-ha-3-meses-e-sofre-judicializacao/]
Aliás, algo comum com o início do programa Mais Médicos foram prefeituras que demitiram os médicos que já atuavam e substituíram por médicos do MM (verba federal).
(Prefeituras substituem médicos por profissionais do programa do governo)[https://m.oglobo.globo.com/brasil/prefeituras-substituem-medicos-por-profissionais-do-programa-do-governo-9755526?versao=amp].
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2018.11.04 16:25 lksdshk Meu pai provavelmente terá Alzheimer

Nesse momento estou me sentindo um pouco triste e melancólico... O diagnóstico do neurologista, após um exame super minucioso em uma máquina, declarou que o lado esquerdo do seu cérebro está comprometido, mas o lado direito ainda está bom. Não bateu o martelo dizendo que ele está doente mas já evidências para dizer que não está mais normal. Também não fiz mais perguntas para minha mãe, afinal, para bom entendedor, meia palavra basta. É o lado da Lógica. E com a idade as dificuldades mentais só aumentam, e se já está assim com 60 e poucos, imagina daqui a 10 anos, 70 anos ainda é uma idade de relativa vivacidade no Brasil.
Há mais de 1 ano notamos que havia algo diferente nele. Estava se confundindo mais, esquecendo as coisas, repetia coisas...Em alguns momentos ele tem acessos de fúria quando contrariado por causa de sua teimosia sobre alguns assuntos. O dia que ele quebrou um copo tudo porque veio querer colocar água no nosso chope quando estávamos imaginando como seria a venda da casa e tal, eu cortei dizendo com firmeza " ESTAMOS SÓ IMAGINANDO! NÃO PRECISA LEVAR A SÉRIO!". Eu sabia que ele estava mudando. Esporadicamente ele fica nervoso e joga alguma coisa fora de raiva da minha mãe quando fica na orelha dele.
Infelizmente, temos histórico de doenças mentais na família. Sei que a mãe dele teve alzheimer e morreu com seus 70/80 anos ou coisa do tipo. Então não é novidade.
Meu pai fez 62 anos. Aposentado há 11 mas ainda trabalhou um pouco mais depois. Sempre foi ativo, trabalhador e fazia tudo na casa, pouquíssimas vezes tivemos que chamar alguém para resolver algum problema...sempre administrou bem os patrimônios e nosso dinheiro, felizmente, nunca passamos dificuldades financeiras, porque tudo estava sob controle.
Eu tenho 24 anos, engenheiro recém formado...recentemente consegui um emprego e aos poucos estou cuidando da minha vida. Ainda sou dependente financeiramente deles. O apartamento que vivo com meu irmão foi comprado com o dinheiro de uma indenização dele, e o carro mais simples ficou para mim poder viajar para a casa deles, aqui no interior. Eles me apoiam financeiramente porque querem que eu realize meus sonhos, eu até poderia arcar com todas as contas e despesas, mas não me sobraria muito para investir no meu futuro...Então ainda somos subsidiados em comida e condomínio. Falando assim, até parece que sou um afortunado playboy. Não é bem assim, eu não pedi nada disso. Somos classe média-alta assim por dizer. Eles nos deram porque é assim que veem como meta de vida: desenvolver os filhos o máximo que der. E sempre honrei tudo que foi me dado, boa escola, faculdade, roupas e coisas no geral... nunca bradei, nunca reclamei. Acho que tenho até demais. Reconheço que é um privilégio para poucos num país como o nosso. E eu compartilho do mesmo para o meu futuro como pai. Creio que tenho valores e uma base muito sólida para ser um Homem de verdade. Ainda que seja 1% do que meu pai é.
Eu nunca reclamei dos meus pais, muito menos dos meu pai. Salvo algumas exceções do passado que sempre foram coisas de rebeldia da juventude, nada grave. Ainda assim, tenho uma relação distante com ele...não sei quando isso mudou, só sei que é assim. Digo, não temos conversas profundas, e eu passo mais tempo com minha mãe. Meu pai é um pouco recluso também, enquanto queremos assistir filmes juntos ele fica no quarto, ou no computador...Então temos uma relação fria, mas não menos importante. Estou aqui para ajudar nas tarefas pesadas da casa e isso tenho feito enquanto posso.
Recebi a notícia com serenidade. A filosofia estóica tem me ajudado e muito a lidar com esses problemas da vida. Não vou me desesperar nem nada do tipo. Porque não há muito o que ser feito, é a Vida...a Natureza...Nascemos, crescemos, envelhecemos, adoecemos e morremos...Isso para uma vida "normal", não faltam casos de mortes prematuras...mas é assim que é, certo? Não tem como se irritar e desesperar com essas coisas, apenas aceitar e reagir da melhor forma na medida do possível.
Meu único receio é quando o bendito dia de dizer adeus chegar. E tenho medo de que não tenha sido bom o suficiente para ele, que minha falta de paciência com suas trapalhadas ou decisões venham martelar pro resto da minha vida: "Lembra quando você falava alto com ele? Custava ser mais paciente naquele momento?". Apesar disso, não há mágoas entre nós, e eu nunca fiquei de cara com meus pais por mais que um dia, vice e versa. No fim, sempre passamos as datas comemorativas juntos. As poucas brigas são pontuais e breves. Acho que é normal né? Hoje tive que dar uma bronca na minha mãe após ela ter me contado essa notícia. Por que muitas vezes ela critica ele pelas trapalhadas que anda fazendo, ou deixando de fazer. Eu tive que ser duro porque eu não aguento mais ouvir ela reclamando dele, mesmo ela sabendo que isso é errado, pois ele sempre foi um marido fiel e atencioso. Até entendo que a ficha para ela não caiu de que ele não é mais um homem habilidoso e esperto, e sim um senil que precisará de cuidados em breve. Talvez ela esteja incrédula que as coisas mudaram e há muita coisa ser feita ainda. Mas, quero que ela caia na real ou acabará como a irmã dela que tratava meu avô debilitado como lixo, e quando morreu, ficou lá chorando. A mesma ainda maltrata minha avó de uma forma que eu fico extremamente irritado tamanho o desrespeito. E quando minha vó morrer (que até hoje faz TUDO pra ela), fará o mesmo com suas lágrimas de crocodilo...
Enfim, é só um desabafo. Quando paro para pensar nesse futuro difícil, lágrimas escorrem. Ver fotos e vídeos caseiros familiares em que meu pai fazia graça com a gente, e naquele tempo tudo era perfeito..é demais...hoje é o quadro que se reverte. E eu espero superar esse relacionamento frio que temos, ao ser um filho mais compreensivo e que esteja em todas as horas...Como a vida muda...
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2017.11.29 20:20 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
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2017.09.21 02:08 Ephemerxl A Vitória de um Fracassado

SEU EMPREGO É UMA BOSTA? VOCÊ É UM ESCRAVO MASCARADO? SE IDENTIFICOU COM O TÍTULO? ESSE POST É PRA VOCÊ!
Bom dia, boa tarde e boa noite. Bom, eu espero não ser tão longo com essa publicação (embora acredito que ela será gigantesca), mas se você se enquadra no aviso inicial deste post, acho que isso aqui vai te servir como alguma motivação.
Seja eu em 2008. 18 anos. Ensino médio completo. Normalmente aqui nessa fase da vida de alguém é onde decidimos se vamos continuar seguindo o caminho dos estudos, onde vamos nos profissionalizar em alguma área em que gostamos, enfim... é aqui que você começa realmente viver a vida. É aqui que você - muito provavelmente - vai fazer as melhores e piores coisas possíveis, bem como impossíveis. Eu optei por não fazer uma faculdade. Desde sempre eu não gostava de estudar, nunca gostei. Achava chato demais. Eu só queria brincar e zoar com meus amigos - além de comer o dia inteiro.
Todavia, nesse ponto da vida você tem duas opções:
1) Seguir com os estudos;
2) Arrumar um trabalho para manter seus vícios.
Eu escolhi a segunda opção. Fui criticado por todos os familiares, conhecidos, amigos, enfim... no meio onde eu vivia, as pessoas que eu conhecia, a faculdade era um sonho de todos. Todo mundo queria ir para a faculdade. Dizer que não iria fazer uma faculdade, na cabeça dessas pessoas, era o mesmo que dá um tiro no próprio pé. Tudo bem, eu nunca liguei para a opinião dos outros mesmo. Quando eu decido uma coisa, eu vou até o fim. Eu não queria fazer uma faculdade e não fiz até hoje.
Só que estamos no Brasil. O que um jovem de 18 anos, recém formado no ensino médio público brasileiro sem nenhuma experiência profissional ou curso adicional vai fazer da vida? Exatamente. Ele vai ter que arrumar um trabalho de bosta. Um trabalho que paga mal. Um trabalho onde você rala pra caralho. Um trabalho onde você não consegue fazer mais nada. E não importa o seu cansaço e aquela sensação de que trabalhou muito todo o mês vigente. No final do mês, o que você recebe? Toneladas de descontos. Uma salário de bosta. Uma merreca.
Meu primeiro emprego foi nos Supermercados ABC (que hoje é o chamado Supermercados EXTRA). Trabalhei no ABC durante 8 meses. Recebia na época cerca de R$ 550,00 já com os descontos. Esse era o dinheiro líquido que eu tinha para usufruir todo o mês. Quinhentos e cinquenta reais. Eu morava com os meus pais nessa época e esse dinheiro não dava para simplesmente NADA. E eu trabalhava com pessoas de todas as idades. Com pessoas com vários filhos. Com pessoas que tinham que pagar aluguel... eu vi essa realidade de perto. Eu ficava imaginando comigo mesmo "esse pessoal aqui sim são os Guerreiros do Brasil, e não os BigBrothers como o Bial adora dizer na televisão." Saí. Pedi demissão. Eu não aguentava mais. Sabia, que no fundo, eu tinha que tentar alguma coisa. Eu não podia me ver daqui a 10, 15, 20 anos como algumas pessoas que ali trabalhavam. Sem nenhuma perspectiva de vida. Sem nenhum motivo pra viver. Porque, quando você fica todo esse tempo em um trabalho deste tipo, você praticamente se matou. Você destruiu sua própria vida. Você jogou ela no lixo.
Não podia ficar sem emprego. Entrega currículo ali, entrega currículo aqui. Entro nas Lojas Americanas como Operador de Caixa. E acredite se quiser, entre Extra e Lojas Americanas, a Americanas ganha de lavada. Mas não pense que é bom. Ainda assim é uma tremenda bosta de trabalho. Foi aí que eu parei e pensei: "O que eu vou fazer da minha vida? Será que vou ficar pulando de galho em galho em todo comércio? Será que um dia, magicamente vai aparecer algum bom e velho senhor e me oferecer uma oportunidade irrecusável de emprego e me tirar dessa merda?". Óbvio que não. Isso aqui é a realidade e não as historinhas que eu via em filmes ou seriados. Busco informação. Busco oportunidades. Encontro o que mal eu sabia que seria a minha partida. Seria o meu ponta-pé para o meu futuro (que no caso é o presente hoje).
Inicio um curso em Técnico em Radiologia. Duração de 1 ano e 8 meses. Mensalidade: 500,00 R$. Eu não pensei duas vezes. É isso aqui mesmo que eu vou fazer. Se a porra da mensalidade é cara desse jeito, tem apenas duas explicações:
1) Os donos do curso são uns filhos da puta e estão superfaturando o mesmo;
2) Os lucros futuros nessa profissão são muito promissores.
E não precisa ser nenhum gênio para saber que a resposta é a de número 02. Um técnico formado em Radiologia na época tinha seu piso salarial por volta de 1,700.00 R$, o que era um salário absurdamente alto pra mim até então, que tinha até agora em alguns meses de serviço, ganho a maior quantidade de dinheiro em um único mês no valor de 720,00 R$. Eu já me imaginava com toda aquela grana. Americanas me pagava cerca de 650/700 mensais. Eu trabalhava apenas para pagar o meu curso. Não sobrava mais nada. Não tinha brechas para regalias. Meus pais optaram por não me ajudar, pois ficaram chateados com o fato de eu não ter seguido a lógica convencional.
Tudo bem. Dava para levar. Ainda morava com eles, apesar de tudo. Se eu fosse uma daquelas pessoas que citei inicialmente neste relato, eu não conseguiria fazer nada disso. Querendo ou não, meus pais foram cruciais em toda a minha jornada, mesmo não dando um amparo de 100% em minhas decisões. Eles só queriam o melhor pra mim. Não os culpo. Termino o curso. Finalmente. Foram 1 ano e 8 meses sem regalias próprias. Meus pais nesse ponto nunca deixaram de me dar as coisas em casa. Eles viam, que mesmo não tendo optado por fazer uma faculdade, eu dava duro no meu trabalho e, querendo ou não, um curso técnico no nível que eu acabará de concluir era basicamente uma faculdade em nível inferior, a grosso modo de dizer.
Saio distribuindo currículos em todas as clínicas da região. 2 semanas depois a ligação da vitória. Eles ligaram. Eles marcaram uma entrevista, queriam me conhecer. Nesse ponto da minha vida, começa a minha maré de sorte. A partir deste momento do texto, minha vida muda completamente. É aqui que eu pensei seriamente na possibilidade da existência de um ser divino. É aqui que eu imaginei que fosse o escolhido de alguma coisa, porque meu amigo...
Então senhor, vou pedir para você trazer toda a documentação pra gente. E seja bem-vindo. Fulano vai te mostrar a empresa - Lembro toda a frase que foi dita pela moça que me entrevistou. Cada letra. Cada sílaba falada. Cada movimento dos seus lábios. Tudo passando como se fosse um trailer em minha mente que eu - não me pergunte como - consigo acessar sempre que quero lembrar disso. Aquele 09/01/2012 vai ficar marcado na minha memória para sempre. Minha euforia era tanta nesse dia e com essa contratação que eu cheguei em casa gritando. Eu gritava muito. Xingava pra caralho. Eu fiquei mais roco que o Galvão Bueno na final da copa do mundo de futebol de 1994 quando Roberto Baggio isolou aquele pênalti e deu o título pro Brasil: É TETRAAAAAAAAAA! É TETRAAAAAAAAAAAAA! Eu tinha conseguido. Nesse momento, eu via meu salário pular da casa dos R$ 700,00 para R$ 1,700.00, fora todos os benefícios. Eu vi a minha rotina profissional cair drasticamente. Eu trabalhava no comércio cerca de 44 horas semanais. Como Técnico em Raio-X, eu trabalhava apenas 20.
Mas você acha que acabou? Você acha que eu vou me acomodar? Você acha mesmo que eu vou ficar satisfeito com 1,7K mensais no meu bolso? Óbvio que não. Eu já olhava para o meu salário e já imaginava comigo mesmo - caralho, olha só esses médicos, como que eu ganho pouco nessa merda, preciso fazer alguma coisa... acho que vou fazer aquela especialização em Ressonância Magnética. É. Eu vou fazer essa merda. Perguntei ao meu colega de serviço o quanto ele ganhava como Técnico em Ressonância e aí sim eu disse: CARALHO! Vou lá me inscrever agora nessa merda. O piso, na época, para um Técnico em Ressonância Magnética era de R$ 4,200.00.
Lembram que eu disse que aqui começava a minha maré de sorte? Pois então. Depois de exatos 1 ano como técnico em Raio-X, 02 técnicos em Ressonância Magnética recebem uma proposta absurda de emprego em outro estado. Sem nada a perder, eles aceitam e vão. A empresa então tinha um desfalque seriíssimo de 02 técnicos. Nesse momento você deve tá pensando, não é mesmo? E sim, é isso mesmo que aconteceu. Eu não precisei fazer a especialização. Um dos médicos-sócios da clínica me fez uma proposta, devido a todo meu empenho profissional e os demais pontos positivos do meu trabalho. Os técnicos iriam me treinar como Técnico em Ressonância antes de partirem. Esse era o acordo. Ambas as partes saíram ganhando. A empresa, que não precisaria pagar o piso de um Técnico de Ressonância e eu, que ganharia muito mais que um simples Técnico em Raio-X. Aceitei, sem pestanejar.
Nesse momento vejo meu salário pular de R$ 1,700.00 para R$ 3,500.00, Fora todos os benefícios. Estava realizado. Finalmente acho que iria descansar um pouco as minhas ambições. Mas eu apenas achei. Vi minha carga horária cair a níveis que eu nem imaginava que seriam possíveis. De 20 horas semanais, eu passei a trabalhar apenas 12 horas. Pegava Segunda, Quarta e Sexta de 06:00 às 10:00hrs. Sim. Além de trabalhar um dia sim e outro não, eram só 4 horas de trabalho. E, deixo aqui como fonte de informação, que nesse ramo de serviço, você se aposenta com 20 anos de carteira assinada, devido aos riscos de Câncer por radiação.
Foi então que minha vida mudou completamente. Reencontro em uma saída de bar com amigos do trabalho, 02 amigos de infância. Conversa vai, conversa vem e eis que tocamos, meio que sem querer, no assunto sobre negócios. Nessa época, estava começando a explodir - literalmente - a profissão de beleza no Brasil.
A mulher de um de meus amigos, já estava faturando uma grana fazendo vários cabelos em casa - grana essa que era superior ao salário do meu amigo que era chefe de segurança no banco Itaú. Foi ai então, que, no meio de toda bebedeira, paramos. Olhamos uns pros outros, sérios. Tínhamos pensado na mesma coisa. Todos juntos. Ao mesmo tempo.
Foi aí então que minha vida mudou completamente, de novo. Surgiu a ideia - e não somente ideia - de ser cabeleireiro. De entrar no mundo na beleza. Mundo esse lotado por mulheres bonitas, bem vestidas, cheirosas e arrumadas, e é claro, muitos gays também. Fiz o curso de Cabeleireiro pela L'Oréal Paris no Rio de Janeiro, junto com meus amigos - e mais novos sócios. Juntamos toda a grana que tínhamos guardada em fundos de urgência. Compramos móveis, enfim, tudo. Alugamos uma sala no alto em uma das avenidas meio abandonadas da cidade. Metemos a cara. Como eu trabalhava apenas 12 horas semanais, dava para conciliar ambos os trabalhos tranquilamente.
Dias atuais... Hoje temos 03 salões na cidade, sendo um localizado na maior avenida da mesma, com todas as lojas no baixo, compradas. Somos patrocinados por uma grande marca de produtos. Fiz um curso de Maquiagem para agregar ainda mais a profissão. Virei revendedor da marca que patrocina a gente, além de dar palestras e workshops sobre produtos e beleza feminina. De algo nascido em um bar, à 3 amizades escolares do ensino médio público brasileiro, hoje somos 16 no total (12 cabeleireiros, todos homens. 1 vendedor externo, eu e meus 02 sócios-amigos, cada um em um salão, com 4 funcionários). E eu ainda sou Técnico em Ressonância, todas segundas, quartas e sextas, de 06:00 às 10:00hrs. Aliás, em 2032 eu me aposento como Técnico.
Conclusão:
Não se acomode. Hoje, quando visito os lugares onde outrora trabalhei, tal como Extra e Lojas Americanas, ainda encontro amigos de trabalho. Pessoas que estão fazendo exatamente a mesma coisa até hoje, desde quando eu sai. Pessoas que se acomodaram com o escravismo mascarado que existe em nosso Brasil. Pessoas, que infelizmente, desistiram. Acham que isso é viver. Que já estão tão cansadas, que não conseguem fazer mais nada. São pessoas que com toda essa acomodação, viraram pessoas extremamente pessimistas. E, como já não bastasse todas as merdas, só sabem fazer filhos. Filhos e mais filhos. Eu fico indignado ao mesmo tempo que sinto pena. Fico abismado quando paro para pensar que essa é a realidade de muitos brasileiros. A ideia desse fio, é fazer você, que se encontra nesse tipo de situação, acordar pra vida. Você ainda é jovem. Você consegue. Confie em sí mesmo e acima de tudo, na sua vontade de crescer. Na sua perspectiva de criar uma família um dia. Na felicidade que vai ser quando você puder pagar a melhor educação para seu filho. Quando você puder montar uma família de forma satisfatória e feliz, sabendo que o seu papel como homem da casa, está sendo feito com sucesso. Não do jeito certo que sua mulher diz só pra te deixar feliz, esse jeito não. O jeito que você sente que está fazendo certo. O jeito que realmente é o certo.
Então, mais uma vez eu digo: A-COR-DA! Ta na hora de você sair e ir fazer alguma coisa. Aceitar os seus menos de 1.000 reais mensais enquanto enriquece filhos da puta exploradores só vai fazer você cair em uma fodida depressão. Não queira chegar aos seus 40 anos sem uma estabilidade financeira da qual sinta orgulho de ter traçado. Em uma estabilidade e uma qualidade de vida não só para você, como também para toda a sua família. Pense nisso. Pratique isso. Você pode me agradecer depois. Meu nome é.... bom, vamos deixar isso quieto. E, apesar de fodido, eu corri atrás, em todos esses meus quase 28 anos de vida. O que difere você de mim? Apenas seus objetivos. Fora isso, sou igual à você. Sou igual a todos. Se você leu até aqui, espero que isso tenha te ajudado de alguma forma e tenha aberto sua cabeça. Um grande abraço.
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